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Beyoncé e a seleção brasileira

01:30 | 14/07/2018

7 de fevereiro de 2016, Estados Unidos. Beyoncé, páreo duro pelo título de maior popstar do mundo, sobe ao palco do Super Bowl, páreo duro pelo título de maior evento televisivo anual, para cantar a própria negritude. Nesse dia, quase dois anos e meio atrás, a classe média norte-americana descobriu que Beyoncé é negra. E ficou revoltada. Xingou, destilou racismo... Aquela ladainha que a gente conhece sobre gente mimada que perde o brinquedo favorito. Como pode a Beyoncé não só ser negra como ter orgulho disso?


7 de julho de 2018, Brasil. Parte de um país em luto pela eliminação na Copa do Mundo — em derrota em jogo parelho contra a Bélgica — se volta às redes sociais para as redes sociais para chamar os “vilões” Fernandinho e Gabriel Jesus de uma série de xingamentos racistas e desumanizantes. Foi nesse dia que o Brasil branco e privilegiado parece ter notado que a seleção brasileira é formada por meninos negros, de origem pobre e que, por talento, conseguiram virar milionários.


Nada justifica racismo. A Copa, diga-se, ocorre num país de tradição bastante conservadora, racista, LGBTfóbica. Só que ser racista contra jogadores de uma seleção que ganhava talvez caia mal. Como a derrota reavivou o status quo, certos “cidadãos” se viam no direito de chutar os já abatidos jogadores brasileiros (negros, de origem pobre, como a maioria da população oprimida em vários níveis).


Beyoncé é negra e isso só faz as vitórias dela serem fruto de maior superação. É uma quebra do já citado status quo. E isso também vale para Thiago Silva, Miranda, Marcelo, Casemiro, Paulinho, Willian, Neymar e Gabriel Jesus — só para citar os titulares negros da seleção que jogou a Copa.


O mundo mudou e ele era dos racistas, dos machistas, dos LGBTfóbicos. Eles perderam espaço e sabiam que tinham de ficar calados. O conservadorismo ganhou voz nos últimos anos e esse fantasma saiu do baú. Há 50 anos, os racistas eram em maior número e mais evidentes. Há 10 eles ainda existiam, só que se fingiam invisíveis. Hoje, eles declaram sua inveja. A resposta que as minorias sistematicamente têm dado é a do sucesso.

ANDRE BLOC

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