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A agonia do craque

01:30 | 04/07/2018

Hoje me permito falar um pouquinho mais de futebol, pois a experiência vivida na noite de terça-feira foi muito diferente. Estádio Spartak, em Moscou, palco de Inglaterra x Colômbia. Jogão, um dos mais interessantes das oitavas de final.


No fim, o jogo teve o equilíbrio que todos esperávamos. Faltou para a Colômbia seu craque. O jogador diferente, aquele capaz de criar uma jogada do nada. James Rodríguez, artilheiro da última Copa.


James se machucou no último jogo. Ficou fora da partida contra a Inglaterra.


E assistiu ao jogo... Adivinhem onde? Ao meu lado. Para ser mais exato, a oito cadeiras à minha esquerda. Ele, Borja, do Palmeiras, outro machucado, e Cambiasso, que jogava na seleção da Argentina e hoje trabalha na comissão técnica da Colômbia.


James fez tudo aquilo que um torcedor comum faria em um campo de futebol. Xingou o juiz de tudo quanto é nome. Vibrou loucamente com o gol de Mina, já nos acréscimos, levando a partida para a prorrogação. Deu tabefes no vidro de proteção que lhe separava do campo. Mexeu no celular quando o jogo estava parado. Roeu unhas.

E, claro, chorou. Mas o que mais me chamou a atenção foi a agonia.


Esta é a palavra que define as três horas que James Rodríguez passou sentado à beira do campo — o lugar em que ele realmente queria estar.


Os jogadores sempre falam isso, que é muito mais fácil estar dentro do que fora. Dentro, você acerta, erra, apanha, comemora, participa.

Você é ator. Fora, é apenas um espectador, impotente. OK, nós sabemos como é torcer do lado de fora.


A diferença é a agonia de saber que, se você estivesse lá dentro, toda a história poderia estar sendo escrita de forma diferente. James poderia jogar e a Colômbia perder. Poderia jogar e a Colômbia ganhar. Nunca saberemos. O duro é, para um cara como ele, conviver com essa dúvida.


Todos temos aquele “e se” em nossas vidas. E se eu tivesse feito isso ou aquilo, falado isso ou aquilo.


Ao final do jogo, James foi o último a sair do campo. Sentou-se no banco de reservas colombiano e chorou copiosamente. Terá de conviver com este “e se” por um bom tempo.

 

Por Julio Gomes 

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