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Na véspera do início da Copa, ruas de Fortaleza têm pouca adesão

| A UM DIA DA COPA | Fortaleza ainda não respira os ares da competição. Difícil encontrar ruas que se pintaram de verde-amarelo, mas a cidade reserva algumas surpresas

01:30 | 13/06/2018

A RUA CARVALHO MOTA se destaca no cenário pouco festivo das ruas de Fortaleza FOTOS: MATEUS DANTAS
A RUA CARVALHO MOTA se destaca no cenário pouco festivo das ruas de Fortaleza FOTOS: MATEUS DANTAS

O tal do legado da Copa é uma amargura que ficou no coração do torcedor. É quase um trauma, um medo de acreditar e sofrer de novo. Às vésperas do Mundial, num passeio de tarde inteira por Fortaleza, as vistas se encontram com bandeirinhas do Brasil nas janelas dos carros que não enchem uma mão. Nas ruas, é difícil ver quem travestiu a frente de casa de esperança. “Depois do 7 a 1, a gente se desiludiu, perdeu a confiança. Aí é feito namoro, se desmancha”. 

 

Assim, o taxista Cícero Madeira, 60, resume o sentimento.

Rodando pela Cidade como taxista há 18 anos, esta é a quinta Copa do Mundo que Cícero observa a preparação e lamenta: “Não tem enfeite em canto nenhum. É só aqui, acolá”. Nem em ruas que, tradicionalmente, a Copa é feito Carnaval, esse Mundial deu às caras. Tanto que a Major Facundo, no bairro José Bonifácio, não lembra a rua bonita que de quatro em quatro anos se pinta de alegria. Lá, restou um contorno de “Fuleco” em tinta desbotada no asfalto.

DEZ HORAS de mutirão garantiram o verde-amarelo na travessa Benjamin Torres
DEZ HORAS de mutirão garantiram o verde-amarelo na travessa Benjamin Torres
SE EM 2014 a rua Major Facundo era das mais animadas, hoje só mostra tinta desbotada
SE EM 2014 a rua Major Facundo era das mais animadas, hoje só mostra tinta desbotada

Morando na esquina da Major faz 19 anos, a professora Ana Coelho vai além do 7 a 1 para explicar o cinza da rua. “É por conta do descrédito das pessoas nas instituições do País, inclusive no esporte, no futebol”, opina. Na rua, outro motivo também se junta para o infortúnio. Seu Jorge Lima, o Pai, era quem puxava a charanga que daí a pouco era uma belezura verde-amarela. “Ele morreu um ano depois da outra Copa. Não teve quem puxasse o movimento esse ano. Aí ficou assim: essa tristeza”, se ressente a viúva, dona Maria Neide da Silva, 62.

Referência no quesito rua emperiquitada de verde, amarelo, branco, azul-anil, a Copa não chegou na João Brígido, no José Bonifácio. Já pelo Parque Araxá, vez ou outras as bandeirinhas tremulam na frente de uma casa. No José Otávio, na Justiniano de Serpa, rua que até bloco de Carnaval já fez cortejo quando chegava jogo do Brasil, só o bar do Júnior insistiu na torcida e montou um pedacinho de céu verde-amarelo.

Na Teófilo Gurgel, no Monte Castelo, o autônomo Antônio Alberto, 55, montava ontem as bandeirinhas que em outros anos já encheriam há mais de um mês o peito de espírito torcedor de quem visse. “Foi difícil o povo contribuir, o dinheiro tá curto e a esperança pouca. Mas vai ficar pronto”, garante.

Como futebol, que reserva suas surpresas, Fortaleza também tem dessas. A gente quase passa direto, mas entocadinho na travessa Benjamin Torres, no Dionísio Torres, um mar de verde-amarelo tomou de conta. Na rua, juntaram-se os moradores, fez-se festa e dez horas de mutirão depois já estava montada a Copa. A despeito das lembranças do 7 a 1, o desempregado Humberto Paiva disse preferir não viver de passado. “Não quero mais saber de 7 a 1. A gente já viveu coisa muito pior. Meu sogro dizia que nunca viu tanta gente chorando como foi em (19) 50. O 7 a 1 foi uma ‘peia’ tão grande que não deu nem pra sofrer”.

Feito uma ilha, lá na da Carvalho Mota, no Otávio Bonfim, olhar para o céu faz esquecer mágoa e reacencer a crença. Quase dá pra enxergar uma final de Copa com Brasil e o Neymar marcando pelo menos dois gols. Ali, já é Copa e o coração tem certeza de que o Brasil é campeão. É tanta bandeirinha que faz sombra.

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Um mês antes, quatro bingos arrecadaram o dinheiro dos enfeites e das tintas, que ontem à tarde breavam os cabelos da meninada que ajudou com a pintura. Enquanto na esquina o povo combinava, o porteiro Francinildo Lucas, 40, garantia que o que ele chama de “síndrome do 7 a 1” não acomete ninguém ali. “Aqui tá todo mundo curado”. De olhar fixo nas bandeirinhas, o taxista Cícero, do comecinho da história, tinha ido deixar cliente na Carvalho Mota e se deparou com o mundaréu de cor que o fez repensar a confiança perdida. Seu Cícero, e se o Brasil for hexa?. “Ah! Se for assim, a gente reata o namoro”, sorri.

FERIADO

O treino aberto da seleção foi realizado em um feriado nacional, o “Dia da Rússia”, que celebra a identidade russa

DOMITILA ANDRADE