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Jornal

Regeneração e uso sustentável

17/06/2017 17:00:00
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O desaparecimento de crustáceos de uma área pode influenciar de forma insustentável noutra região. É o perigo do efeito em cadeia por causa do uso inadequado de um bioma sem zona de amortecimento e muito urbanizado. Caso do Parque do Cocó. Quem afirma é Luciana Mendes, engenheira de pesca e doutora em Ciências Marinhas Tropicais pela Universidade Federal do Ceará/Labomar. Ela é professora do Curso Técnico em Recursos Pesqueiros do Instituto Federal do Rio Grande do Norte, Campus de Macau, e estudiosa da reprodução do guaiamum em laboratório. Sua pesquisa busca entender como esses animais conseguem sobreviver em regiões hipersalinas, com áreas com braços de mar, sem nenhum rio para diminuir a ação da salinidade. No Parque do Cocó, mais precisamente nas trilhas da Sebastião de Abreu, onde há 10 anos venho fotografando o comportamento desses animais, a redução das populações de guaiamuns, chama-marés, aratus e caranguejos-uçás é um alerta. Pode estar ligada ao uso inadequado do bioma. (Demitri Túlio)


O POVO – Crustáceos como o guaiamum, aratu e o chama-maré, presentes no Parque do Cocó, são espécies migratórias?

Luciana Mendes – Os crustáceos variam entre diferentes classes, ordem e famílias. Além, claro, das espécies. Os caranguejos mais comuns, que vivem nos manguezais ou na praia e que são muito conhecidos pela população por seus nomes vulgares, não são animais migratórios. Salvo durante o processo reprodutivo, quando saem de suas tocas e procuram águas mais ricas em nutrientes e oxigênio para ali despejarem suas larvas. Retornando em seguida ao seu habitat natural. Essa “pequena” migração temporária para reprodução é mais comum em períodos de luas cheias, crescentes ou novas. E, em se tratando das espécies que têm grande importância não só ecológica, mas econômica, como é o caso do guaiamum (Cardisoma guanhumi) e do caranguejo-uçá (Ucides cordatus), o pico da reprodução corresponde aos meses de dezembro a fevereiro, para o guaiamum, e os meses de janeiro e fevereiro, para o caranguejo-uçá.
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OP – Na migração, qual a distância do deslocamento?

Luciana Mendes – No caso do guaiamum, que vive em zonas de mangue, porém longe das grandes influências das marés ou nas restingas mais altas onde a água salgada não alcança (como é o caso das zonas de apicuns), podem ficar a quilômetros de distância do mar, e até mais de 30 metros da faixa de água do estuário. O caranguejo-uçá, basicamente, migra em uma área menor, uma vez que estão mais próximos das zonas de marés. Todavia, se ocorrer grande descarga de água doce no estuário, é possível que esses animais migrem para o mar. Para terem maior acesso à água salgada, da qual são fortemente dependentes. Ao contrário do guaiamum que, quando adulto, pode viver tranquilamente em água doce. Uma vez que sua toca pode atingir até mesmo o lençol freático devido à sua profundidade. Outros caranguejos, como o aratu ou o chama-maré, é possível que possam ter sofrido migração devido à alteração na qualidade da água, ou mesmo diminuição do tipo de componente de sua dieta diária, fazendo-os migrarem para outras áreas próximas.

OP – A intensificação do uso do Parque, sem critério, poderia influenciar no desaparecimento de aratus, chama-marés e guaiamuns?

Luciana Mendes – É possível que fatores antropogênicos possam afugentar esses animais, bem como a poluição do seu habitat. Barulho intenso, movimentação constante no solo pode alterar o comportamento animal, principalmente o do guaiamum que tem hábito noturno. Ao contrário do aratu, caranguejo-uçá e ucas (chama-maré).

OP – Em área de mangue, o que determina a presença deles no bioma?

Luciana Mendes – A alimentação da maioria dos caranguejos é composta basicamente de folhas de mangue. Todavia, alguns microcrustáceos também podem compor a dieta destes animais. Diminuição de uma determinada espécie de mangue (como é chamada a vegetação) pode influenciar o comportamento alimentar dos animais. Ou a inclusão de substâncias químicas na água, sendo absorvida pelas raízes, alterando o sabor desse vegetal, já que o manguezal é considerado um grande filtro biológico. É possível que a presença de espécies não nativas também possam interferir no comportamento dos animais, ou mesmo desmatamento. No caso do guaiamum, que possui hábito noturno e é considerado por alguns autores um caranguejo terrestre, ele constrói suas tocas em locais de difícil acesso. Debaixo de troncos, de folhas caídas, sob o capim em áreas de apicuns. Se há alteração nesse ambiente, provavelmente, construirão suas tocas em outros lugares (sofrerão uma migração em busca de melhores lugares para sua sobrevivência – um novo habitat.

OP – Qual a função deles no manguezal?

Luciana Mendes – Em geral, os crustáceos de manguezal têm a importância ecológica como manutenção da cadeia trófica (ligação de cadeias alimentares) e ciclagem de nutrientes. Como é o caso do guaiamum, uma vez que possui toca muito profunda.

OP – Como ocorre a reprodução deles no mangue?

Luciana Mendes – Durante o período de maré cheia, os machos saem em busca das fêmeas para copular. A exemplo do caranguejo-uçá, ficam muito visíveis devido ao seu tamanho e expostos durante o dia. Nesse período, chamado de “andada”, também ficam vulneráveis ao ataque de aves, animais maiores, e ao homem. Nas espécies Uçá, exemplo do chama-maré e outras do gênero, há relatos em trabalhos científicos que machos dão uma batidinha na toca da fêmea. Para que saia e copulem. No caso do guaiamum, antecedendo a reprodução, a fêmea muda de cor, alterando sua coloração azul lavanda, ou roxa amarelada, para esbranquiçada ou amarelada. Em alguns casos é perceptível essa leve alteração nos machos de guaiamuns, também. A fêmea, entre 15 e 17 dias, permanece com sua massa de ovos (chamada de fêmea ovígera, como termo técnico ou ovada no termo usual). Depois, migra para a água já próximo à eclosão (nascimento) das larvas, que se dá dentro da água com o rompimento do ovo. Se as pessoas pescam esses animais ainda pequenos, suas populações diminuirão drasticamente, já que demoram a crescer. Ao contrário dos camarões, cuja carapaça é fina e fácil de ser removida durante as mudas.

OP – O Parque do Cocó, na área da Sebastião de Abreu onde fotografo há dez anos, é habitat do guaiamum, que aparece na lista das espécies ameaçadas de extinção/Ibama. Como deveria ser o uso dessa área?

Luciana Mendes – Sabemos que o Parque do Cocó, apesar de ser uma área ambiental, um parque ecológico, não teve a inclusão de sua zona de amortização, ou melhor, aquela área a qual o separaria da proximidade do contato urbano. Se observamos bem, edifícios, supermercados, rodovias, dentre outros empreendimentos, estão não só no entorno do manguezal, mas dentro dele. Associemos barulho, luminosidade intensa, alteração na vegetação, contato com alimento descartado pelo homem. Em ambiente confinado, a fim de estudo do guaiamum, foi possível administrar legumes, verduras, na dieta desse animal. Todavia, em um parque, sabemos que os visitantes descartam comidas industrializadas como pipocas, salgadinhos e outros alimentos. Consumidos por estes animais, poderão lhes causar sérios danos em seu sistema digestivo, além de produtos químicos carreados em sua hemolinfa (sangue azul dos crustáceos). São necessárias ações maiores de conscientização (e de pesquisa) por parte do poder público, das instituições de ensino técnico e superior, das comunidades pesqueiras e extrativistas. Além da população que faz uso do parque para suas atividades diárias. Se uma população de crustáceo é reduzida em uma dada área, essa redução gradativamente impactará outras regiões.

Adriano Nogueira

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