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Jornal

Santuário de Fátima: penitências e orações

13/05/2017 01:30:00
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De joelhos, no caminho dos penitentes. Os mais exaltados circulam todo o espaço em volta da Capelinha das Aparições e voltam até o ponto inicial. Transidos de dor, já que é esse mesmo o sacrifício prometido em troca de graças recebidas. Há de se dizer, a fila indiana de devotos, dobrados e em súplica, não para um minuto. Ela se forma muito cedo, com as primeiras missas no Santuário, e termina muito tarde, ao final da procissão das velas, por estes dias, já quase meia-noite. Passam indiferentes aos olhares, às máquinas fotográficas, no transe da oração e do terço debulhado. Nos rostos e nas vozes apenas murmuradas, as várias nacionalidades do Planeta.

[SAIBAMAIS]

Vêm uns na solidão da experiência pessoal. Vêm outros na solidariedade de famílias inteiras, todas as idades em cumprimento de votos. Tem gente que fica no meio do caminho, frustrada e em débito, depois de arrastar o corpo já todo no chão. Mas há também profissionais nesse negócio de andar de joelhos. Os mais sabidos trazem de casa um engenho fabricado por eles mesmos. Almofadas fofinhas, costuradas a elásticos, para os joelhos. E meias bem grossas em proteção para as pernas e pés sem sapatos. Para completar, bom ter um ex-voto de cera, indicando a parte do corpo salva ou curada por interseção da santa.


Os penitentes ajoelhados não são, claro, a maioria no mar de devotos que chegam a todo instante, no Santuário. Mas, nestes dias que antecederam as comemorações do Centenário das Aparições, da vinda do papa Francisco e do ritual de santificação de Jacinta e Francisco, eles são muitos. Mesmo, são a parte mais impressionante na paisagem local, cujo coração pulsa na Capela das Aparições. É lá o primeiro destino de penitentes determinados, devotos mais ou menos ardorosos, grupos inteiros de religiosos, turistas descrentes em visita de curiosidade, levas de peregrinos que chegam a pé e fatigados, outros nem tanto porque vêm em ônibus fretados. Todos querem ver a imagem original da Nossa Senhora do Rosário de Fátima, protegida em sua redoma de vidro, flutuando no alto da sua coluna de mármore, no exato local onde, cem anos atrás, apareceu aos pastorinhos.


Todos, salvo um velho cão de rua que achou de se instalar bem na entrada da Capelinha. Justo no caminho dedicado aos penitentes, obrigados, nos três dias em que a reportagem do O POVO lá esteve, a adaptarem um pouco a rota. O folgado deve lá estar há muito, pois acostumou-se à multidão, ao som das missas sucessivas, das ladainhas e rosários sem fim e dorme a sono solto bem no local mais povoado do Santuário. Curiosos do inusitado da cena, os visitantes deixam-lhe biscoitos, tentam uma festa na cabeça, fotografam-no, mas nada. Ele não acorda. E a presença do cão que dorme indiferente não é única distração para os que não estão na corrente de rezas em coro e em voz alta. Muitas vezes, em outras línguas. (Ariadne Araújo, de Portugal, especial para O POVO)

 

PEREGRINAÇÃO ÁRDUA: Depois de 9 horas sem parar de caminhar, os quatro peregrinos de Turquel, 50 quilômetros de Fátima, entram no Santuário. Sofia (D), acompanhada do marido Tiago (D), vem caxingando, o pé quase a não poder mais tocar o chão. “Saímos de casa às duas da manhã”, eles contam. Mas, sem tempo para conversas com a reportagem, pois, depois de tanto tempo em movimento, os músculos das pernas estão no limite e fica difícil e doloroso andar de novo depois de uma parada. E é preciso ainda alguns últimos metros para o fechamento da peregrinação: a saudação à Senhora do Rosário, na Capela das Aparições.


CRUZ DE ALECRIM: Joaquim e Gracinda pegam o carro todos os anos e vêm de Montemor-o-Velho, distrito de Coimbra, até Fátima. Uma semana antes, Joaquim começa a pensar no que vai levar. Todos os anos há novidade. Neste, ele preparou uma cruz com ramos de alecrim e galhos de oliveira, tirados do quintal da casa. Só não vem mais vezes ao Santuário porque os ossos doem. O papa, então, só pela televisão.

 

BUDISTA DEVOTO: O tibetano Lobsang Tsultrim, 50, possui o alto título budista acadêmico para monges - Geshe. Significa dizer que ele é uma espécie de PhD em filosofia budista. Dando palestras pelo mundo, pediu aos hóspedes de Portugal que o trouxessem a Fátima porque o Dalai Lama, que já visitou o Santuário, recomendou-lhe que viesse. “O Dalai Lama me disse que é um lugar sagrado, um lugar muito forte, por isso estou aqui”, comenta.


PIQUENIQUE: Os dois são espíritas, mas vêm este ano ao Santuário, em especial, pedir pela saúde do neto. Com um casal de amigos, Mario e Maria do Sacramento fizeram uma hora de viagem de carro e agora, depois da reza, é já hora do almoço. No estacionamento do Santuário, debaixo da sombra de uma Azinheira e em meio ao barulho do vai-e-vem de ônibus fretados, eles montam rapidamente uma mesinha e tiram caçarolas do porta-malas. Vão se deliciar com um porco estufado, cozidão que leva quatro horas para ficar pronto, feito pela amiga especialmente para a visita ao Santuário. “Estas crianças tinham alto grau de mediunidade”, dizem. “Mas, isso a gente não pode falar por aqui”, completa Mario.


8 milhões

é o número de visitantes que o Santuário deve receber este ano, segundo dados estimados pela Comarca de Leiria e Fátima. Em 2016, foram 6 milhões de pessoas. Para o dia de hoje, com a visita do papa Francisco, santificação de Jacinta e Francisco e aniversário de 100 anos das aparições, a estimativa é de 1 milhão de pessoas em Fátima.

300 mil

é o número previsto de terços comemorativos do Centenário de Fátima. Desse total, apenas 50 mil são produzidos na Marinha Grande, em Portugal. Por falta de capacidade, o resto é produzido na República Checa. Cada terço custa 12 euros e, para cada peça vendida, 1 euro é destinado à construção de uma residência para adultos com deficiência.

 

Adriano Nogueira

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