PUBLICIDADE
Jornal

Obra símbolo: coração iluminado de Maria

13/05/2017 01:30:00
NULL
NULL

[FOTO1]

De queixo caído fica quem se aventura em visitas ao ventre do Santuário - uma ala de salas de exposição e capelas no subsolo - e entra inocente no anexo da Capela do Santíssimo. Pois é lá que está exposto o símbolo oficial do Centenário das Aparições, uma enorme obra de arte que mostra um coração suspenso nas mãos de Deus. Não é um coração qualquer, diga-se, é o de Maria. Os devotos que lá chegam descobrem na hora a simbologia. Mas há uma surpresa que faz muita gente chorar de emoção.

 

No meio do coração iluminado e coroado, um espelho. Isso mesmo, onde a visita vê-se dentro do coração de Nossa Senhora. Foi por isso que a advogada mexicana Ângela Guarneros, 52, desfez-se em prantos quando aproximou-se para ver do que se tratava e entendeu, de imediato, todo o conceito da obra. “É impactante”, resumiu. “Choro de agradecimento por esse coração cheio de luz”, acrescentou a devota da Virgem de Guadalupe. Ela ainda ia peregrinar em Lurdes, depois era a volta pra casa. Mas leva para sempre a lembrança dessa experiência diante do coração da Senhora, disse.


O coração veio para o Santuário há quatro anos. A artista, Cristina Leiria, 71, pensou primeiro em fazer o grande Anjo sem asas que apareceu aos pastorinhos. Uma divindade do Ocidente, já que, tempos atrás, tinha feito uma do Oriente, explica ela, referindo-se a uma imagem da deusa da compaixão e da misericórdia, Kuan Yin, que ela esculpiu em Cantão, na China. Mas o cliente preparava já o Centenário, queria o Imaculado Coração de Maria. Encomenda nas mãos, ela então fez as malas e voou para o Brasil. Mais precisamente para o Ceará, onde tinha amigos e poderia beber de outras inspirações. “Ia pensando em Iemanjá”, diz.


Escolheu um espaço de silêncio e paz, a Oca dos Índios, uma pousada à beira da praia, em Beberibe, Litoral Leste do Ceará, e começou um difícil processo de criação. Na cabeça de Cristina, perguntas sem respostas. Por exemplo, onde sustentar o coração de Maria? Inaceitável, para ela, que ele ficasse banalmente pousado sobre uma base. A mente dando voltas em torno dos problemas, ela lançou mão de uma dieta libertadora à base de água de coco e alimentos leves. As ideias fluíram, finalmente, e ela foi construindo, com argila trazida de Cascavel, os primeiros moldes das imensas mãos divinas sustentando o coração ferido de espinhos da virgem.


Concepção concluída, a obra foi esculpida na cidade do Porto, na volta dela a Portugal. O trabalho todo tem três metros de altura. As mãos de Deus são de madeira lacada, o coração e a coroa são feitos de um tipo de resina, a iluminação é a bateria. O que deu mais trabalho, conta Cristina, foram os espinhos, todos feitos de folhas de ouro. A técnica de trabalhar folhas de ouro ela aprendeu com o avô, artista restaurador. Muito difícil de fazer, explica. Tão precisa essa fase da escultura que ela teve que fazer uma cirurgia de catarata pra ter olhos novinhos e o resultado ficar perfeito.


Os espinhos que ela costurou em folhas de ouro são uma referência à visão da vidente Lúcia, quando Nossa Senhora abre as mãos que estavam postas e mostra “um coração cercado de espinhos que pareciam estar-lhes cravados”, conta ela no Santuário. “Tenho muito amor dentro de mim”, diz Cristina, mãos igualmente postas no próprio coração. “Foi isso que eu quis passar”, acrescenta a artista, também devota de Fátima.


Com a chegada de um novo grupo de turistas boquiabertos, Cristina corre em socorro. Em inglês, ela se apresenta, sorriso rasgado no rosto, mostra às visitas novos aspectos e ângulos da obra de arte e tem um prazer quase infantil em tirar fotos dos espelhados no coração de Maria. Câmera fotográfica alheia nas mãos, ela borboleteia de um lado a outro do coração, criando para a visita novos cenários e poses. “Gosto que eles toquem”, diz a artista. “A obra não pode ser um objeto distante, inatingível”, completa. Ela fica feliz com o sucesso do seu trabalho, mas acha que não fez isto sozinha. “Foi com ajuda do Alto. Fui só o veículo”. (Ariadne Araújo, de Portugal, especial para O POVO)

 

PARA CONHECER

Mais sobre o trabalho da escultora portuguesa Cristina Leiria no site:

www.cristinarochaleiria.com

Adriano Nogueira

TAGS