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Jornal

Devoção ilumina as noites

13/05/2017 01:30:00
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À noite, o Santuário de Fátima é todo luz de velas. Multiplicadas nas mãos de cada devoto, o grande pátio vira um oceano de pequenas chamas, protegidas do vento frio por uma espécie de copo plástico. A missa na Capela das Aparições já vai longe. O padre fala da presença de 51 grupos de peregrinos, recém-chegados de diferentes países. Filipinas, China, Coreia do Sul, Nigéria, Polônia, Eslováquia, Estados Unidos, Brasil. A lista que parece não ter fim ajuda a identificar as várias bandeiras.


Por isso, o padre e seus ajudantes rezam Ave Marias e cantam em outras línguas. Como não há espaço pra todo mundo na Capela, a multidão se espalha, senta em banquinhos trazidos a propósito, são muitas as cadeiras de rodas, grupos se acomodam no chão. Pelo sistema de som, segue-se o desenrolar da missa e espera-se o momento apoteótico, já anunciado pelo padre: a saída de uma enorme cruz brilhante, espécie de neon que, no escuro da noite já alta, pode ser vista de todos os pontos do Santuário. Atrás da cruz, vai o povo, levando suas velas, uma coluna imensa de gente, quase a correr para seguir os passos de quem leva este estandarte iluminado.


No meio da multidão, passos mais calmos, vem o grupo que traz nos ombros o andor da Nossa Senhora de Fátima, a imagem original feita em 1920 e que, excepcionalmente, sai de sua coluna de mármore. A segurança, por isso, é rigorosa. Ninguém se aproxima demais da santa, sob risco de empurrão. Mas, o percurso é pequeno. A procissão circula a grande área aberta do Santuário e já voltam, aos seus lugares de costume, a cruz e a santa.


Agora, nem missa nem mais procissão, é a vez do tocheiro atingir seu ponto máximo. Cada devoto passa ali para jogar na fornalha seu toco de vela. E, depois disso, o Santuário poderia cair num silêncio profundo, sob as luzes dos postes de iluminação elétrica. Mas eis que na Capela já se organizam vigílias de terços madrugada adentro e, no caminho dos penitentes de joelhos, tremulam novas chamas. São os últimos pagadores de promessas do dia, discretos a estas horas, mas inabaláveis.

Adriano Nogueira

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