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Um novo Jornalismo

01:30 | 18/01/2018

Jornalismo é “escavação do presente e prospecção do futuro”. É lidar com a “matéria viva do tempo”. É, ainda, tornar legível, interpretando-a e aclarando-a, a “paisagem social”.


Essas são algumas definições possíveis. Foram pinçadas de manuais acadêmicos e grandes reportagens, todas mais ou menos amparadas em metáforas cuja finalidade é aproximar o fazer jornalístico de um campo de compreensão mais palatável. Todas insuficientes, seja porque se revelam incapazes de traduzir conceito em prática, seja porque a natureza final do jornalismo é, em si mesma, um terreno em constante transformação e, por isso, esquivo a classificações rígidas.


E, no entanto, os jornais estão nas ruas, nas casas, nas praças e, agora mais que nunca, nas mãos de cada leitor-cidadão. É um corpo vivo e sempre presente. Não mais o recorte de mundo limitado ao papel e regido pelo ciclo de 24 horas. É também portátil e fluida, assumindo de vez uma mobilidade tanto de suporte quanto de linguagem, como se respondesse aos “tempos fraturados” de Hobsbawm - para o historiador, o futuro sempre foi parte indissociável do passado e do presente, com os quais forma um continuum.


É nesse continuum que vivemos. É sobre ele que o jornalismo se volta, agora duplamente desafiado: à natureza escapadiça do tempo que lhe serve de matéria e o define, soma-se um novelo de crises diante do qual a tarefa de reportar torna-se ainda mais urgente. Crise do sujeito, da arte, da forma, da representação, dos sexos. E talvez a pior delas: a crise da verdade, que redunda na controversa pós-verdade – uma espécie de negação da realidade.


A tarefa do novo jornalismo, portanto, é não somente manusear recursos expressivos de outras artes, principalmente da literatura, como queria a decana do jornalismo literário Lilian Ross, mas servir de ferramenta para investigação de um real ameaçado por um novo “tribalismo ideológico”, para roubar uma expressão empregada por Robert Darnton em O beijo de Lamourette, livro no qual descreve o clima de conflagração militante numa Paris pré-revolucionária. Nessa época, narra o historiador, “os franceses não possuíam um grande vocabulário político, pois a política se passava em Versalhes, no mundo distante da corte real”.


O papel dos jornais hoje é o mesmo que Darnton identifica na França de dois séculos atrás, quando “as pessoas do povo começaram a participar da política” e “precisaram encontrar palavras para o que tinham visto e feito”. É sobretudo ajudar os leitores a encontrar essas palavras. Para quê?


Para interpretar a realidade. Para entender que passado e futuro estão inseridos num mesmo movimento. E para influir sobre o presente.


Henrique Araújo

JORNALISTA

GABRIELLE ZARANZA

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