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Pentecostes e Apuarés: A felicidade de cada dia

08/05/2017 01:30:00
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Nos interiores dos lugares e das pessoas por onde esta reportagem andou, sertão e homem se tornam um só: fazem, da fraqueza, a força. No nascer (e nascer) entre seca e chuva, no viver entre a falta e a fartura, o homem vai se deixando no sertão e o sertão vai sendo humanidade. O agricultor Francisco Fernandes da Silva Maciel, 30, gerente da fazenda Califórnia, em Pentecoste (94,7 quilômetros de Fortaleza), sofre a sede da terra, a fome do bicho. Os últimos cinco anos de estiagem mataram 50 gados dos 180 da fazenda produtora de leite. “Fora os pequeno”, adita.
 

Quase Francisco arribava com a mulher e o filho. “Gado morrendo, pra mim, é a mesma coisa que um fi meu. Eu vendo aquela coisa, querendo partir pra cima sem poder, sem ter o que dá. Isso dói no meu coração. Dói dentro de mim, a seca”, padece. Francisco, que perdeu o olho esquerdo atrás de um boi, no emaranhado da caatinga, é um dos que viraram sertão. Seus sonhos são da extensão da fazenda, sua sabedoria é a mesma da natureza. “Quem dá força ao milho é a chuva. Tá precisando (chover) agora”, preocupa-se ao tempo em que desvenda o cultivo da palma, para dar de comer ao gado restante. Só no sertão, as plantas contam segredos aos homens.
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A palma tem se mostrado uma forrageira que necessita de pouca água – Fernando diz que basta aguar duas vezes por semana. A fazenda Califórnia experimenta o cultivo em plena seca, há pouco mais de um ano. A estiagem, equilibra o agricultor, “judiou muito. 

 

Através de um poço que nós tem aqui, aguamo pra escapar elas. 

Escapemo. Nós tamo estudando onde é outro canto pra nós prantar pra melhorar o negócio”.
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O filho do dono da fazenda, “que tem estudo”, completa Fernando, indicou que é melhor plantar a palma “em terra alta”. Já o agricultor, que lê a terra e o tempo, decifra a natureza de cada vida sertaneja:“Tirei pela base depois que prantei essas daqui. Nós cortemo, tiremo a muda. Ela não se dá se você prantar logo. Tem que passar o mínimo de dez dias parada ali, pra escorrer uma parte dela. Porque, na hora que você tirar e prantar, apodrece o tronco. Ou chuva demais, ela também não se dá. Ela tem um segredo nela”.


Foram os especialistas da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce) que introduziram a palma naquela região, destaca o veterinário João Costa Mendes, da Ematerce de Pentecoste. Atualmente, pelo menos 20 proprietários rurais locais tentam o cultivo como forma de complementar a alimentação do gado. Vai-se escapando aos poucos, narram todos que permanecem. Sertão é terra-mãe, sempre vai amparar os seus, creditam. Entre o nascer e o morrer, dá-se a reinvenção – do lugar, das gentes. Com o destino entre a falta e a fartura, o sertão, ou Francisco, convida a ficar: “Comer um feijãozim no almoço... Se quisere passar um dia aqui, pode vir. Andar a cavalo, dá uns passei no rio”.
 

Na vida que leva, atravessando sol e chuva, mãos e alma calejadas, o sertanejo conhece a felicidade de cada dia. Pode não parecer tanto para quem vem de fora e tem pressa, mas é um bastante. Porque felicidade é o que se salvou do que foi vivido, é uma companhia de última hora, a lembrança frente ao esquecido. De “tudo de bom e de ruim” em 75 anos de sertão, o agricultor Abel Rodrigues Guimarães salva o casamento com Valquíria da Silva Guimarães, 79, os 14 filhos (11 estão vivos) e a plantação de coqueiros. É o seu bastante.
 

No mais, a alegria porque choveu este ano na Comunidade Santo Antônio (a 12 quilômetros de Apuiarés, município vizinho a Pentecoste), ainda que tenha ficado “água pouca nos açudes”. 

Fartura, só nas memórias de dona Valquíria, nascida do outro lado do rio Curu. “Eu lembro assim: soltaram a água do General (Sampaio, principal açude da região), eu fui mais meu pai (ver). Aí, a água vinha chegando, muié, vinha se espatifando, ficando só aqueles beijuzim de areia em cima. Deste tempo pra cá, tinha água. Secou no 93”.
 

O rio era o mundo. “Vinha era gente de longe pra tomar banho... E eu tinha umas prima que era mesmo que umas piaba! Nesse tempo, muié, o rio dava chei, que vinha de uma barreira a outra”. E o mundo era só esse mesmo.“Não era que nem agora que, você querendo, fura o mundo de uma banda pra outra, trevessa... A gente não tinha pra onde ir. Tinha essa cidadezinha do Apuiarés... E era (ir até lá) de pés. E ninguém dava fé se era longe. E se fosse pra novena, não ia pra missa no outro dia, escolhesse um dos dois”.
 

Nos limites do sertão, vai-se intercalando certa felicidade. “A chuva é muito bonito, sem relâmpago, sem trovão é bom demais (dona Valquíria tem medo de trovão e relâmpago). No verão, tudo é seco, preto. Basta dar uma chuva pra nascer!”, ela admira. (Ana Mary C. Cavalcante)

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