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Palco de diferentes vozes culturais

29 anos se passaram desde que o Vida&Arte foi lançado pelo jornal O POVO. Mudanças gráficas e editoriais acompanharam a trajetória do caderno, que nunca deixou de se guiar pela proposta de refletir a cena cultural do Estado

01:30 | 13/06/2018
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Hamlet Oliveira

hamlet.oliveira@opovo.com.br

Fortaleza é uma cidade de muitos rostos. Com diversas manifestações culturais que eclodem na capital cearense todos dias, um espaço dedicado a essa cobertura se torna fundamental. Com quase 30 anos de trajetória, o caderno Vida&Arte surgiu como uma revolução para o jornal O POVO, que até então priorizava  fotos pequenas e grandes blocos de texto. Esse cenário mudou no dia 24 de janeiro de 1989, com uma grande matéria colorida sobre o artista espanhol Salvador Dalí estampando a capa do primeiro Vida&Arte.  

O complemento surgiu como um substituto ao então Segundo Caderno, responsável pela cobertura cultural do jornal. Primeiro editor do Vida&Arte e hoje autor da coluna Muito prazer, o jornalista Ivonilo Praciano conta que a elaboração do projeto durou meses e enfrentou resistência dos próprios jornalistas da casa, acostumados ao padrão antigo. “Foi, sem dúvida, o primeiro caderno dos jornais nacionais a ter uma feição de revista: fotos muito abertas e matérias de muito conteúdo, mas com textos leves e sucintos”, conta.

A boa recepção do Vida&Arte pelos leitores gerou uma demanda para que o restante do jornal acompanhasse o processo de modernização. “Começaram a reclamar e a dizer que o jornal deles ‘estava velho’. Em um congresso na Espanha, Demócrito Dummar (presidente do Grupo O POVO entre 1985 e 2008) conheceu o Mario García, um dos grandes designers de jornais e revistas de seu tempo”, explica Ivonilo.  Assim, o visual moderno do V&A levou a uma nova reformulação gráfica de todo o periódico.

Cidade em evidência
 

Em seus quase 30 anos de publicação, o equilíbrio entre a agenda e a cobertura mais ampla do cenário cultural sempre foi o norte do caderno. Magela Lima, jornalista e professor universitário, foi editor do V&A entre 2009 e 2012. Sobre o período, resgata com carinho as amizades que cultivou e a liberdade para abordagem de temáticas plurais.

“A gente vinha muito focado na cobertura das artes, e no O POVO a gente foi muito além. Era um jornalismo muito de cidade, um jornalismo que via a cultura de uma dimensão mais ampla, numa perspectiva não só ligada à produção cultural artística, e isso foi muito positivo. Essa possibilidade de sair da agenda das artes e ir pra dinâmica da cultura é uma lembrança muito boa”, destaca.


UM NOVO MOMENTO

Em celebração aos 90 anos do jornal O POVO, um redesenho completo alterou a produção do periódico em todas as suas etapas: da organização dos jornalistas na redação até o design das páginas. 

 

Editora-executiva do V&A desde março de 2015, Cinthia Medeiros explica que a conjuntura atual potencializa a pluralidade de conteúdos que sempre permeou o caderno. Integrado ao antigo Buchicho, o Vida&Arte assumiu as discussões sobre moda e gastronomia. “Abrimos nosso leque de abordagens, qualificamos o nosso conteúdo e temos tido uma ótima resposta dos leitores”, avalia Cinthia. 

A editora reafirma que o compromisso com a cultura da Capital se mantém como foco do caderno, indo do acompanhamento do fazer artístico, passando pelas políticas culturais e chegando ao processo criativo de seus autores. “Por isso nos consolidamos como a maior referência de cultura e entretenimento no Estado, como apontou pesquisa qualitativa realizada entre o público leitor de jornal e consumidor de conteúdos em outras plataformas”.

Cinthia abriu o Vida&Arte para manifestações culturais que vão além das tradicionais literatura, dança, cinema e teatro. “Enxergamos que a cultura pop, o universo geek, a produção de games, dialogam com um bom número enorme de pessoas e estabelecem relações que precisam ser acompanhadas e respeitadas enquanto linguagem”.

Primor gráfico se mantém
 

Um dos autores do redesenho do jornal, o jornalista e editor-executivo do Núcleo de Design Editorial Gil Dicelli explica que o novo projeto surgiu a partir do debate entre membros de todas as áreas da redação. As influências para desenho renovado vêm do próprio caderno e de sua história gráfica: “Mantemos e ampliamos a opção por capas gráficas, estilo pôster, com impacto visual e soluções criativas. O brancos são herdados do primeiro caderno e ajudam a delimitar os conteúdos, valorizando-os. Nas páginas da reportagem, liberdade para ousar e romper os limites do projeto, sem negá-lo. Motiva a liberdade criativa, o leitor encontra todos os dias um caderno diferente”.


ENTREVISTA
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Lira Neto

Em qual período você foi editor do V&A?
 

Tive dois momentos como editor. A primeira vez foi em 1992, substituindo meu colega Ricardo Jorge, que havia deixado o jornal para iniciar uma hoje bem consolidada carreira acadêmica. Fiquei no cargo por cerca de um ano, ao fim do qual pedi à chefia de redação para retornar ao cotidiano das ruas, como repórter especial. Na segunda vez, no início de 1999, eu havia encerrado meu mandato de ombudsman e voltei à redação como editor do caderno, permanecendo por pouco tempo nessa ocasião, pois logo fui chamado para o cargo de coordenador editorial da Fundação Demócrito Rocha. 

Como definiria o caderno naquele tempo?
 

Tínhamos como princípio fazer uma cobertura que não ficasse restrita à agenda da indústria do espetáculo. A ideia era enriquecer o debate cultural cearense, por meio de entrevistas e publicação de artigos de colaboradores externos, por exemplo.  

Sua passagem pelo caderno influenciou seu trabalho como escritor?
 

Sem dúvida, a passagem pelo Vida&Arte me serviu como uma espécie de escola, de preparação para os rumos profissionais que viria a seguir depois. Sobretudo o contato permanente com intelectuais, escritores e com o mundo dos livros, proporcionado pela página semanal de literatura, foi extremamente enriquecedor.

Você implantou alguma mudança na dinâmica do caderno?
 

Principalmente em meu segundo período como editor, o foco prioritário passou a recair sobre a cena cultural de Fortaleza, de forma específica, e do Ceará, de forma geral. A ideia era romper com a lógica que abria espaços generosos demais nas páginas do Vida&Arte para shows de artistas nacionais, por exemplo, em detrimento do debate efetivo sobre as circunstâncias da produção local. O caderno passou a incentivar também, cada vez mais, a publicação de artigos de opinião, com as inevitáveis réplicas e tréplicas, fomentando a discussão crítica, o embate de ideias.

Lira Neto é jornalista e escritor. Autor de biografias de Getúlio Vargas, Padre Cícero e da cantora Maysa

 

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