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"A pior censura é a da hipocrisia"

Com 50 anos de carreira, o goiano Odair José traz o show Gatos e Ratos ao Festival Vida&Arte. Abraçando atitude rock'n'roll, cantor reafirma lado contestador com discurso crítico à "moral imoral" dos conservadores

01:30 | 13/06/2018
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O goiano Odair José surgiu nas rádios no início dos anos 1970 com músicas como Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula) e Eu Vou Tirar Você Desse Lugar, composições francas sobre assuntos tabus – o anticoncepcional e a prostituição. Houve, ainda, letras sobre maconha, divórcio, homossexualidade e a condição da empregada doméstica numa época em que a regulamentação da profissão não era sequer imaginada. Mesmo trazendo temas espinhosos e sendo frequentemente censurado na ditadura militar, ficou popular e vendeu milhões. No auge do sucesso, quis produzir O Filho de José e Maria (1977), disco que quase acabou com sua carreira ao propor uma releitura humana para a trajetória de Jesus Cristo, o que não foi bem recebido pelo público, pela mídia e pela Igreja Católica.

 

Do subversivo amor pela prostituta à “heresia” do projeto pessoal, Odair foi colocado em diversas “caixas” ao longo de sua trajetória: hitmaker, brega, romântico, maldito. Hoje, é cult. Rejeitando toda alcunha, o artista resume: “Eu sou o Odair José, cara”. A simples afirmativa dá conta do momento atual da carreira do cantor, que reencontrou a si mesmo e à sua arte. No próximo dia 22, às 23 horas, ele apresenta no Festival  Vida&Arte o show Gatos e Ratos, baseado em seu disco homônimo de 2016 – um trabalho de rock com letras políticas e posicionamentos anticonservadores. Falando sem rodeios sobre a carreira, a política de hoje e os ataques à arte, Odair quer cutucar a hipocrisia.

 

Em termos de repertório e experiência para o público, o que o show de Gatos e Ratos traz para o Festival Vida&Arte?

Primeiro, queria dizer que é um prazer participar desse evento e ter a oportunidade de voltar a cantar em Fortaleza. Eu estou viajando o Brasil com o disco que traz a simbologia da disputa insana que a humanidade e o Brasil vêm travando sem saberem por que e nem aonde vão parar. O álbum fala sobre respeitar as diferenças. Tudo no mundo tem que passar pelo respeito ao direito e à opção do outro. Recentemente, recebi em São Paulo um troféu de uma associação LGBT por sempre ter levantado essa questão da diversidade. O Gatos e Ratos é isso. Vamos ter músicas dele, do Dia 16 (disco de 2015), vou tocar também O Filho de José e Maria e alguns clássicos que tem a ver com a temática do Gatos, como Eu Vou Tirar Você Desse Lugar. Eu bato muito na história do preconceito. Quero divertir as pessoas, fazendo-as pensar no contexto das letras. O resto é guitarrada (risos).

 

No período inicial da sua carreira, você ficou ligado às baladas populares, românticas, mas sempre foi essencialmente roqueiro. Como organizou esses dois lados?

Em 1968, na (gravadora) CBS, conheci vários colegas. Um deles foi o Raulzito, o Raul Seixas, que tinha chegado da Bahia e estava trabalhando lá. A gente conversava nos bastidores sobre de que forma poderíamos nos colocar no mercado e falava sempre sobre a observação do cotidiano. Nós tínhamos essa visão. Eu mais escrevi sobre o que vi do que sobre o que senti. Se você analisar, meus grandes sucessos são de observações: observei o cara que se apaixona pela prostituta, a condição da empregada, a pílula. A respeito da sonoridade, sempre gostei de banda. Dentro das gravadoras, existiam formatos (musicais) e eu saí da CBS para a Polygram para mudar de formato, conseguir uma sonoridade mais próxima do rock. Em um depoimento em 1975, o Caetano (Veloso) me definiu como um “romântico realista”. Pode ser contraditório, mas é o que sou. Eu posso fazer uma balada, mas ela vai ter uma posição rock’n’roll de contestar. O rock não tá só na guitarra e na bateria, tá na atitude. Essa parte eu sempre tive.

 

Roqueiro ou autor de baladas, uma constante na sua obra é o amor: o romântico, o sofrido ou o mais ousado. Você acredita que falar de amor de forma tão direta e sincera ajudou a garantir o sucesso da sua carreira?

Ajudou. E eu gostaria de ser mais direto ainda. Eu sou a favor do amor livre, da liberdade no sentimento. Comecei em 1972, mais precisamente, quando vi que era isso que eu queria cutucar. Eu forcei os compositores a serem mais atrevidos. Eu era atrevido e fazia sucesso, então eles saíram da zona de conforto, do namoro de portão, para ir para o namoro da cama, que eu já falava.

 

Falando do tema que for, você nunca deixou de confrontar. Como artista, qual o seu interesse em refletir as questões políticas e sociais do País?

Eu faço meu trabalho para ajudar as pessoas e fico feliz quando consigo. Tive um período da carreira em que fiquei omisso. Te respondendo, eu não tenho “interesse”, eu tenho obrigação, como compositor, de registrar o tempo em que vivo.  A música tem que ser útil. Me sinto bem e vivo quando coloco meu trabalho em benefício do povo de alguma forma, quando chamo atenção politicamente e socialmente, seja com uma balada romântica ou com guitarras. Meu trabalho tá mais para sociologia do que para paixonite.

 

Você foi um dos cantores mais censurados durante a ditadura e, com O Filho de José e Maria, recebeu reações negativas muito fortes. Com essa trajetória, e vendo os casos recentes de censura e ataques a exposições e peças, como avalia o momento do Brasil hoje em relação à arte e à cultura?

Eu tô abismado, embasbacado. A censura do Estado te proibia determinados temas e eu tive muitas músicas que não puderam ser feitas. O Filho de José e Maria era para ter 18, mas foi lançado só com dez porque não deixaram as outras. Mas a pior censura, que já existia na época, é a censura da hipocrisia. É o conservadorismo hipócrita, essa moral imoral. Antigamente, isso se escondia atrás da censura do Estado, mas agora não. Eu achava que as pessoas iriam ficar mais compreensivas, respeitosas, mas há um policiamento horrível. Na política, você elege alguém para defender causas que a comunidade precisa, mas ele fica falando de gays, malhando a orientação sexual. Fica mais importante exercer essa moral imoral do que falar de economia. Isso não vai levar a gente a lugar nenhum. Aliás, só ao lugar do retrocesso. Temos que ter cuidado para essa época não ir adiante. Eu quero, através do meu trabalho, cutucar isso. A cultura, a arte, os compositores têm obrigação de falar sobre isso.

 

Você diz que faz música para quem tem “cabeça jovem”. Pessoalmente, você se sente assim?

Eu acho que sou meio louco. Minha mente não vai envelhecer nunca. Quando a censura pegava muito no meu pé, fizeram uma carta recomendando que não me gravassem, não me ouvissem, porque eu era uma péssima influência para os jovens. As pessoas devem me ver hoje assim também (risos). Há a idade física, eu tenho a minha, mas a que vale é a da cabeça. Eu sou um eterno rebelde, bem Woodstock. Sou pelo “tudo pode”, desde que você queira fazer. A loucura é legal.

 

Você concorda com a ideia de que foi “redescoberto” pela juventude?

Concordo. Fui inclusive por mim mesmo. Há dez anos, passei a ver pessoas mais jovens nos shows. Eles descobriram que eu era contestador, falava de maconha, defendi o divórcio. Eu sempre fui contra os conceitos criados. Fico feliz que a juventude curta meu trabalho, ela é sem preconceitos. Agora, eu gosto também que gente mais velha vá de cabeça aberta para o meu show. Só não quero que fiquem com preconceito quando eu tocar as coisas novas. Querem ouvir os sucessos, e tudo bem, mas essas músicas eram as coisas novas na juventude deles. Hoje, a juventude quer as coisas novas pra ela. Eu quero no meu show que o jovem vá pra ouvir Gatos e Ratos, que o mais velho vá pra ouvir Eu Vou Tirar Você Desse Lugar e que todo mundo reflita e curta.

 

Há quem te descreva hoje como “cult”...

Nossa! É cult, é brega…

 

Ao longo da sua carreira, foram muitas as alcunhas colocadas em você. Como você lida com isso?

Eu não gosto de alcunha nenhuma! Eu tento ignorar, mas tem horas que é um pé no saco. Cara, eu faço o meu trabalho, que é sério. Eu não gosto que chamem de brega, mas também não gosto que chamem de cult. Eu sou o Odair José, cara! Acho que toda alcunha é preconceituosa.

 

Você surgiu no sistema de gravadoras, mas hoje trilha um caminho mais independente. Como você avalia esse seu momento e o próprio mercado brasileiro?

Em 1969, eu fiz o que deve ser um dos primeiros discos independentes do Brasil. Foi um compacto simples que o Rossini Pinto (cantor, compositor e produtor capixaba) me ajudou a fazer. Comecei a tocar as músicas dele no Rio e depois entrei na CBS. Vou te dizer uma coisa: só consegui ser sucesso de gravadora quando eu era independente dentro dela. Quando eu saio da CBS, todo mundo queria me dar rios de dinheiro, mas eu dizia: “não quero isso, quero que vocês não se metam no meu trabalho”. Todas as vezes que fui independente, fiz grandes trabalhos. Quando perdi a independência, fiz trabalho de merda. O mercado hoje mudou muito. As gravadoras são importantes, mas não necessárias. Recentemente, conversei com o presidente de uma e acabei falando do meu novo disco. Ele pediu para eu levar pra lá, mas eu terminei não levando porque eles terminam se metendo na capa, nos arranjos, nas palavras. Isso é perder independência. Quem faz a criação precisa de liberdade.

 

O que você costuma ouvir? Conhece nomes novos e mais combativos da cena?

Eu te confesso que não tenho ouvido quase nada. Acho que ouvi muita coisa a vida toda. Mas sei que os grandes talentos da música hoje são os que estão no universo independente, os que não estão plugados e nem contratados no esquema da mesmice que faz grandes fortunas com músicas que não vão fazer falta daqui três meses. Eu não queria citar nomes para não errar, não ser injusto, mas sei que tem a banda O Terno, sei que tem a Pabllo Vittar e tantos outros fazendo trabalhos bons.

 

Sobre seu novo disco, como está o processo? O que vem te movendo artisticamente?

Eu já tô com a capa pronta! (risos) Eu tô muito esperançoso que vocês vão gostar.

O projeto, Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio, tem 11 canções falando de amor, do bacanal à paixão. A “casa das moças” é um puteiro. O amor tem que ser sem preconceito. Ninguém pode ficar de olho na opção sexual de ninguém. Não importa se a pessoa faz sexo a três, se é dois homens, duas mulheres. Isso é de cada um. Aí dizem: “amor não é sexo, não é desejo!”. É sim. Ele passa por aí. O disco é um trabalho sério, bem pensado. As músicas são ligadas umas nas outras, como se fosse uma operazinha, que nem O Filho de José e Maria. Esse ano é meio atípico. Pode ser que eu lance músicas avulsas na internet antes, mas o CD deve sair depois de outubro.

 

Falsmos sobre os movimentos contra a arte e você mencionou que o seu novo disco vai falar de sexo, bacanal, puteiro. Você pensa nas possíveis reações conservadoras que podem surgiu a partir de temas tão polêmicos?

Eu acho que vou ter problemas com esse tipo de público, sim. Mas eu tô acostumado com o conservadorismo hipócrita. Quando ele se afronta com meu trabalho, eu sei que fiz o certo. Quanto mais resistência eu encontrar, mais certo vou estar que estou certo. O disco é oportuno, vai bater de frente. Um disco tem que ter sua utilidade, e a desse é combater a hipocrisia. Eu sei que vou encontrar dificuldade, mas tô aqui pra isso. E tô até acostumado.

 

SERVIÇO

 

Odair José no FVA

Quando: dia 22 de junho, às 23 horas

Onde: Palco Sérvulo Esmeraldo

 

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