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"A dança é resitência e militância"

Com presença nos quatro dias de Festival Vida&Arte, o grupo ¡VENGA-VENGA!, encabeçado pela dupla Denny Azevedo e Ricardo Don, aposta em um espetáculo que exalta o folclore brasileiro e a liberdade de expressão

01:30 | 20/06/2018


Era 2013 quando a dupla Denny Azevedo, artista visual, e Ricardo Don, designer, pensaram em promover eventos inspirados no folclore e heranças do passado brasileiro. O projeto ¡VENGA-VENGA! começou como uma festa de rua. Foi ao longo dos anos que o grupo ganhou novos contornos, como os figurinos psicodélicos de ciganos e os sets maiores, iluminados por cores do Brasil. Tudo isso culminou, em 2018, com um projeto autoral intitulado Folclore do Futuro, EP que discute culturas, religiões e forças políticas brasileiras.

Atração confirmada no Festival Vida&Arte, ¡VENGA-VENGA! vem a Fortaleza pela primeira vez com a promessa de combinar música eletrônica e outros ritmos nacionais. No repertório do grupo também estão releituras de canções e composições inéditas. Em entrevista ao O POVO, Ricardo Don discute temas como liberdade de expressão, sexualidade e preconceito. Também fala de política e ainda assume o show como ponto de partida para repensarmos a nossa função como brasileiros.

Vocês já passaram pela Inglaterra, Croácia, Alemanha, Portugal e Espanha, sempre realizando reformulações no espetáculo. Como é o show que vocês estão trazendo para Fortaleza?


Primeiramente eu queria dizer que estamos muito animados para esse show. Não conhecemos Fortaleza, e vai ser um ambiente novo para levar o nosso projeto, a nossa arte. Estamos animados com o tamanho do Festival e com a possível troca de conteúdos que teremos com o público e com outros artistas presentes. Sobre o show, posso afirmar que estamos preparando novas possibilidades de apresentar um formato diferente. Temos apresentação de DJ, banda e performance. É um lugar que vai nos presentear com as novas reações, ao mesmo tempo em que vamos apresentar uma surpresa por dia no Festival.

Vocês representam um movimento cultural que mescla DJs, performances, instalações e linguagens ritualísticas. Pensaram nessa união de estilos logo quando criaram o grupo?
 

Tudo começou com a nossa dupla trabalhando como DJ. Depois disso, com o passar dos anos, a banda se tornou algo mais circense. Virou um grupo coletivo de criação, com uma intenção de apresentar uma pesquisa musical em forma de festa. E sim, vem de vários lugares diferentes. Unimos alguns formatos que gostamos muito para criar essa transversalidade. O intuito era ser uma festa de rua, um momento eletrônico, uma banda de camadas. Criamos um ambiente escapista, onde todos os ritmos cabem nessa loucura, que procura fugir do cotidiano, do comum. É um ambiente isolado, onde as pessoas trocam experiências, travam contato umas com as outras e com a arte. Isso é o que nos motiva. Saímos do lugar comum da música norte-americana.

A recepção no Brasil é igual a de outros países por onde vocês passam?
 

Cara, nós usamos a cultura e a música do mundo. Ela é nossa, não é emprestada. As pessoas gostam, sim. Seria estranho se não gostassem, dado que os brasileiros possuem influências africanas, europeias, indianas, orientais. Acredito que elas curtam o nosso som por isso. Elas sentem no sangue as referências.

E como são pensados os figurinos que vocês usam?
 

O ambiente lúdico permite uma mistura que se distancia do tradicional. Alguns contam que parecemos e queremos ser palhaços. 

 

Cada interpretação é uma nova camada. Já fomos até chamados de cafonas, acredita?

Como nasceu a mistura de sons?
De uma pesquisa que nos trouxe esse entendimento de que a música no mundo contribui com a nossa identidade. Somos o que somos por causa da arte que consumimos. A música é global. Por que não misturar? E isso também traz a união de artes visuais, figurinos, maquiagem.

A base do trabalho é resgatar e ressignificar as músicas culturais de origens diversas?
 

Sim. Temos uma identidade de uma cultura misturada, múltipla, diversificada. Viajamos grande parte do País para conhecer essas referências. Estudamos as obras de Mário de Andrade da década de 1930 até o nosso folclore atual. Tudo que curtimos entrou no pacote, seja antigo ou recente.

Qual o peso da estética nas apresentações de vocês?
 

Nosso visual propõe essa mistura que estou te contando. Remetemos aos imigrantes africanos que moram no Brasil e coletam a sua própria história. Colecionamos essas aventuras do povo baiano, dos maranhenses, dos nômades que aqui residem. Essa colcha de retalhos foi pensada para ser observada. Para tentar entender, de uma forma ou de outra, como o Brasil foi construído e porque ainda se doem tanto quando percebem a quantidade de índios, negros e mulheres que ainda constituem esse país. Isso me enfurece. Não no nível de oprimir os opressores. Trazemos com a música o que o mundo - não o mundo ideal, mas o nosso mundo sem preconceitos - deveria ser. Essa estética de cores e figurinos capta a reação das pessoas. A nossa imagem te traz arrepios. Talvez seja de orgulho e representatividade, ou de angústia e preconceito.

Corpo e dança são fundamentais na apresentação. Devemos valorizá-los mais?
 

O visual e a dança são complementos de tudo. E, felizmente, cada vez mais nós temos investigado o corpo como forma de expressão. Complementamos a música com o nosso corpo como um instrumento de arte.

É também um instrumento de resistência?
 

Sem dúvidas. Me emociona lembrar que, a partir do momento que uma dança fala de um grupo social, o brilho de uma cultura pode ter vida própria. Todos os sons, danças, culturas e grupos sociais possuem as suas características claras. Algumas sofrem mais preconceitos que as outras, apesar desse não ser o caso. Como nos manifestamos? Provocando os opressores. Então, sim, a dança é uma resistência, uma militância. As pessoas que estão dentro de um grupo social de orgulho devem usar o corpo, a dança, a cidade, tudo. 

 

A nossa voz precisa ser ouvida, e, com o apoio da dança, crescemos sem barreiras. Essa é, na minha percepção, uma proposta de resistência. Qualquer coisa que saia do padrão é uma forma de resistir. Comece a dançar agora e veja o incômodo que isso traz.

A política, de modo geral, não enxerga o corpo como forma de manifestação. O que pensa sobre isso?
 

Quando quebramos barreiras e padrões, a dança é um meio de desafiar e festejar. E sempre que falamos de performances, falamos do corpo, da dor, do viés político que acreditamos. E como a política é formada por homens machistas, em sua grande parte, fica difícil com tanta opressão eles olharem um pouco além do próprio nariz.

Grande parte desses homens não oprime só a dança...
Sim. A história da arte já nos conta isso. Todo ambiente de nascimento das artes foi dominados por homens, que, antes disso, já tinham controle social. É uma sociedade patriarcal. Fica realmente muito difícil. E, justamente por isso, precisamos continuar lutando. A dança tem um conceito de que as pessoas estão questionando o lugar comum da própria arte. Temos que colaborar por essa igualdade. E, felizmente, a expressão corporal não depende de uma academia ou escola. A veia artística movimenta o sangue. E com a tinta na cara, pouca ou muita roupa e muito gingado na cintura, nós vamos longe. E quando digo “nós” eu falo de travestis, trans, LGBTQ, mulheres, negros. Todos nós sofremos, mas juntos é possível avistar uma nova cena de artistas no futuro.

Quem inspira vocês musicalmente?
 

As músicas folclóricas e os estilos culturais que vão para o caminho nordestino e eletrônico. Esse formato de música nos encanta mais. Chico Corrêa e Baiana System, por exemplo, representam esse modelo. Além disso, nos inspiramos no texto, na letra que certa música discursa. Liniker, nesse sentido, tem uma força da natureza que traz liberdade sexual, de costume, de possibilidades. É incrível.

Você cita constantemente o folclore brasileiro. Ele está vivo na memória das pessoas?
 

Em grande parte, não.

A nudez faz parte do espetáculo que vocês promovem. Ela fala sobre conforto e sobre segurança. O que você pensa sobre isso.
Eu não tinha pensado nisso, mas faz muito sentido. No palco a nossa intenção não é de ser observado. É a de observar. Convidamos várias pessoas, nossos amigos, pessoas que estão em busca de uma fuga da rotina. De repente essas pessoas se sentem tão à vontade que simplesmente começam a tirar a roupa. Esses lugares nossos são de liberdade de expressão, é uma zona autônoma de segurança. Não importa a quantidade das roupas, pode ser extravagante ou não. A temática é nos divertir do jeito que preferirmos. Viemos ao mundo pelados, não foi? Eu adorei isso que você indagou. A nudez é uma visão perfeita do que planejamos no palco. Propormos a liberdade e a democracia. Porra, você faz o que quiser no nosso show.

E o assédio?
 

Isso é crime. Estamos ali para nos expressar com o público. Quando eles são tocados, somos também. Quando eles se sentem satisfeitos o suficiente pra tirar a roupa, nos sentimos também. Estamos seguros do jeito que preferimos. O que é escroto de verdade é essa questão sexual. A pessoa está tão segura de si, do seu corpo, da sua festa e das pessoas ao seu redor... Olha a confiança que ela nos dá. Sente só o ápice dessa festa... E as pessoas esquecem a sensualidade, pensando quase que exclusivamente em questões de pudor. ¡VENGA-VENGA! não é isso. Nós chamamos você pra curtir o show, não para ser visto com libido.

Vocês se baseiam em uma mistura brasileira muito forte. Como vocês lidam com a constante negação, por parte dos brasileiros, de suas próprias origens e culturas?
 

Você está coberto de razão. Agradeço essa ideia, inclusive. Musicalmente falando, nós estamos presos aos paradigmas norte-americanos. Precisamos olhar para nós mesmos, para as nossas origens, conceitos, precisamos olhar e resgatá-las. O Brasil é feito de inúmeras culturas. Por que negligenciá-las? Isso é um absurdo. Inclusive na religião brasileira. A umbanda, por exemplo, é uma religião que nasceu aqui. Ela faz parte do nosso DNA. E tem um preconceito histórico de cristão muito fanático que pensa a umbanda como algo negativo, algo demoníaco. Isso é intolerância, é preconceito religioso. E às vezes é pior que isso, visto que é uma religião negra. E o Brasil também é racista.

É um problema antigo...
Sim, mas o Brasil é feito de todos. É inadmissível a população não aceitar a diversidade. E esse problema está em todo lugar. Não respeitamos a música do outro, as culturas, os índios. Estamos matando os nossos índios. Essa opressão me parte a alma. Com a música, eu falo “Venha! Venha! A música limpa tudo”. Podemos e devemos coexistir nessa comunidade que se chama Brasil.

Serviço
 

¡DJs VENGA-VENGA!
Quinta, dia 21, às 19 horas, no Palco Sérvulo Esmeraldo. Sexta, dia 22, às 17 horas, no Palco Alberto Porfírio. Sábado, dia 23, às 22h30min, no Palco Sérvulo Esmeraldo. Domingo, dia 24, às 17 horas, no Palco Sérvulo Esmeraldo.

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