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Jornal

Entre orar, desfutar e viajar

11/09/2017 01:30:00
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Em Monteiro (PB), a água do São Francisco está corrente no canal da transposição. Cerca de 3 mil litros por segundo (3 m³/s). Já foi mais do dobro disso (7,8 m³/s), no início operacional do projeto. Poderia estar entre 9 m³/s ou até 12 m³/s, como eram previstos. 

 

Oficialmente, o período atual ainda é de testes. Em 10 de março 

deste ano, o presidente Michel Temer (PMDB) levou foguetório e aliados para o ato inaugural na cidade. Abriu as comportas e ‘liberou’ formalmente a água para o restante do sertão.
 

Os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff (PT) também estiveram em Monteiro, nove dias após Temer, e fizeram o que chamaram de ‘inauguração popular’. Organizaram um ato político no desemboque do canal, que joga a água do São Francisco no leito do rio Paraíba. Quiseram demarcar a paternidade da obra. No placar local, o comentário é de que foram mais bem recebidos que o atual do  Palácio do Planalto. 


Apesar de oficializada para a passagem da água, a estrutura segue sob reparos em Monteiro. A situação, aliás, de ter a operação já funcionando mesmo com a construção por terminar, foi decisão assumida pelo Governo Federal. Foi assim no Eixo Leste, será feito o mesmo no Eixo Norte, que atenderá o Ceará, para acelerar a chegada do rio.
 

Mesmo com pendências. Essa estratégia de antecipação é confirmada pelo secretário nacional da Infraestrutura Hídrica, Antônio de Pádua de Deus. Houve pressão política, além da própria necessidade, para o abastecimento de Campina Grande (PB) - semelhante ao que está sendo acelerado no Eixo Norte, por causa do risco hídrico para Fortaleza. Nisso, vão surgindo incômodos e, trocadilhos à parte, as temeridades.
 

Na comunidade Mulungu, por exemplo, exatamente de onde o presidente acionou as comportas, os ‘pequenos problemas’ vão se mostrando. Há pontos de erosão, de tamanhos relevantes, na parede de enrocamento, que é feita de pedras jateadas com cimento. Deveria ser justamente para a proteção do canal. Uma algarobeira, planta que dá alimento e sombra a animais no sertão nordestino, cresce altiva em cima da própria barreira. Se não for contida, poderá causar novo deslizamento.
 

Há fissuras em estruturas de concreto. No dia que O POVO esteve no local, final de julho, havia operários refazendo pontos erodidos e manuseando sustentações de ferro armado. Também trabalhavam num canal de drenagem e numa ponte. A tomada d’água, pequena obra prevista para atender moradores da mesma comunidade Mulungu e vizinhança, ainda não está construída. Está prevista para daqui a dois anos.
 

Mesmo com o São Francisco canalizado ao lado, os 32 mil moradores de Monteiro ainda estão forçados a racionamento. Água nas torneiras por apenas três dias da semana. O açude local, o Poções, em quatro meses de volume renovado, saltou de 0,8% (março) para 6% (junho, último registro divulgado) da capacidade. À época dessa primeira água do São Francisco chegar ao Poções, o volume do reservatório só resistiria por mais um mês. Está reabastecido, mas tecnicamente segue no volume morto. Há quem já se anime, obviamente, como pescadores, banhistas e visitantes do ponto de encontro dos dois rios, a nova atração turística local.
 

Outros preferem seguir vigilantes com a situação. O Ministério Público Federal, em meados de julho, ainda tentava informações oficiais sobre qual vazão, de fato, tem sido liberada no trecho de Monteiro. O fim do racionamento, previsto para agosto, já foi até adiado. Sem data anunciada.
 

MOTOR EM CONSERTO 

 

Os reparos e ajustes na transposição têm exigido a vazão reduzida, segundo declarações do presidente da Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba (Aesa), João Fernandes. “Não foi redução por pane, mas, sim, por manutenção necessária”. Coincidentemente, no dia 21 de julho último, por volta das 15 horas, O POVO acompanhou testes com o segundo motor da EBV-1, a primeira estação de bombeamento do Eixo Leste, localizada em Floresta (PE). Havia sido religado ao meio-dia, estava parado desde 2 de junho.


Para a reativação do motor em testes, os técnicos buscaram uma peça trazida da EBV-3. É chamada de atuador e permite o funcionamento da válvula, que controla justamente a vazão. Na captação, feita do reservatório Itaparica, ao lado, a mesa operacional exibia 8 m³/s de vazão com os dois motores. Deveria estar o dobro naquele momento. As avaliações continuariam.
 

Da providência do rio santo, vale o dito: orai, desfrutai, vigiai. O vereador Cajó Menezes (PSDB), de Monteiro, não deixa de exaltar a chegada do São Francisco ao território paraibano. “Tínhamos esse sonho grande de ver a água passando por aqui”. Chuva pouca, de 300 a 400 mm/ano de média no Estado, não fosse o céu e não teriam mais de onde tirar. Curiosidade: no mesmo dia que a água transposta começou a apontar em Monteiro, um chuvoeiro de 120 mm.
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Sobre a obra, Cajó prefere continuar diligente ao que ainda virá, de bom ou não. Há, por exemplo, ribeirinhos agora ‘ilhados’. Porque o canal lhes tomou o que antes eram acessos escolas, postos de saúde, moradias. “Há mais ou menos 200 famílias nessa situação”, diz o vereador, mencionando distritos entre Monteiro e a vizinha Camalaú. A reivindicação havia sido pauta de reunião no dia anterior com a diretoria da Aesa - que indicou levar a demanda para o governo federal. A expectativa também é saber quando a água será liberada para pequenas irrigações - cenário ainda não totalmente definido. 

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DEIXA O RIO DESAGUAR

 

O forró, de mais de duas décadas, é de autoria do sergipano Aracílio Araújo. O intérprete e sanfoneiro Flávio José, paraibano de Monteiro, gravou Deixa o rio desaguar em 2000. Os versos são da época de FHC presidente, mas trazem descrição precisa da atualidade: “O São Francisco com sua transposição/ No meu Nordeste o progresso vai chegar/ Se é que o Brasil agora está na mão certa/ Na contramão o meu sertão não vai ficar...”. A letra também cita a secura do Jaguaribe e do Castanhão. Do projeto, Flávio José diz querer saber “quando vão definir o uso dessa água pela zona rural. O agricultor vendo o São Francisco passar e não poder usar. A esperança é que esclareçam, para as pessoas poderem trabalhar”.

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