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Jornal

Dois Rios na palma da mão

11/09/2017 01:30:00
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E de que serve um rio sem água? Janeiro de 2017, o rio Paraíba ‘na pedra’, só cascalho. Um leito seco de paisagem ao lado das terras de José Casimiro da Costa, o Seu Deda, em São Domingos do Cariri (PB). Cenário de secura não mudou muito desde menino, quando acompanhava o pai no plantio no cercado do Sítio Melo. Não mais que três meses no ano, épocas de chuva, deixava de ver o fundo do rio. Água nunca havia sido fartura.
 

Agosto batendo, seu Deda é que cuida do chão herdado, junto com a mulher e os três filhos. Aos olhos dele agora está o que seria miragem tempos atrás. “Marminino”, solta instintivamente, ao responder se cogitassem daquela água toda à sua frente fora do tempo de chover. Agora aos 69 de idade, do que era improvável, tem não apenas um, mas dois rios cabendo nas mãos. O leito do Paraíba está sendo aguado pelo rio São Francisco, a partir do projeto da transposição.
 

Seu Deda nem sabe por onde os canais se estendem. O final do canal do Eixo Leste, da água que chega ali, é em Monteiro (PB). “Sei que o rio vem de longe” – a nascente é em Minas Gerais. Não imagina a quantas cifras e adversidades tem saído a conta: R$ 11 bilhões, nove anos de execução, desvios, três presidentes da República, prazos esticados, redesenhos, custos alterados... Uma empreiteira, a Mendes Jr, abandonou o canteiro de obras após ser apontada nas denúncias da Operação Lava Jato e considerada inidônea para participar de licitações públicas.
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Esse imbróglio todo, Seu Deda foi acompanhando de longe. Mas nem é por esse rosário de histórias que o agricultor se motiva. Nem assunta muito sobre as questões políticas da transposição – embora critique o momento político e elogie os que iniciaram a obra de fato. A sabedoria de seu Deda se vale da simplicidade: o novo Paraíba está ali, farto e ao seu alcance.
 

É o que lhe basta. Deslumbramento. Sensação boa a da água nos pés, sem ter mais o chão esturricado. Ele tira as botas e se lava. A água ali é mais fácil de entender e explicar.
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“Apareceu até mais passarinho. Os bicho tão achando é bom”, descreve da alegria de um bando de galos-de-campina em revoada, pousando ao lado de nós na cerca. Cantarolam e sacodem as penas molhadas. Deu para ver sabiás, corrupiões, sanhaçu, cancões em pares, canários, garças.

Já parece ser um verde novo no lugar – descreve, do seu jeito, noutros dizeres. “Tá mais bonito”. Mas não é mais só um esverdeamento na caatinga. É diferente. “Olhe, isso foi uma riqueza pra gente. Graças a Deus. Chovia, mas não era chuva de fazer água. Desde que me entendia de gente que o povo falava nele, no São Francisco. De trazer essa água pra’qui. Inté que veio. É vida pra todo mundo. Depois que a água chegou, mudou, viu? Tudo”.
 

E a fala vai contando da nova rotina, sem firular. Até abril, pagava carrada de pipa para abastecer sua casa. Agora está bombeando do rio para ‘fazer chover’ em seu plantio. Tem quatro bicos aspersores ligados quatro horas por dia. Por enquanto, regando ‘ração’. Que é como chama o capim plantado que vai dar para seu gado hoje muito pouco.
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Criava reses, mas teve que ir se desfazendo. Vendeu quase todas para não vê-las definhar na estiagem. Não morrem mais de fome. Também pretende usar o gotejamento para germinar a maniva da macaxeira, o jerimum rastejar, feijão, milho, maracujá... Quer encher os cinco hectares de roça. E colher em três meses.
 

Nem todos estão autorizados a já captar a água do São Francisco dentro do Paraíba. Seu Deda diz que já pode. Poucas semanas antes da conversa com O POVO, ‘gente do governo’ foi até ele, o incluiu num cadastramento com outros que seriam liberados a iniciar suas irrigações particulares. “Aí ouvi na rádio que já podia ligar (a bomba d’água) pra irrigar. E tô molhando meu capim devagarim, todo dia. 

Enquanto eles liberarem”. Difícil a tentação de ter a água passando em frente e não poder captar.
 

O São Francisco tem mudado mais coisa naquele pedaço do Cariri paraibano, além do rio Paraíba e da crença de Seu Deda. Em Caraúbas (PB), vizinha a São Domingos do Cariri, a cachoeira de Cangati voltou a ser o espetáculo local. Permanente. A água corrente, forte, larga. Barulho de rio cheio. O estudante Diego Amorim arrisca jogar tarrafa. Pegando piaba. Carlos Eduardo Santos, também estudante, se estica numa bacia de pedras. Apenas para tomar banho. Desfrutar de um Paraíba – que também é São Francisco - mais abundante que o da infância de Seu Deda. 

 

Cláudio Ribeiro, Adriano Nogueira

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