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Que venha o novo tempo

00:00 | 24/06/2018
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POR JOÃO ALEGRIA
 
DIRETOR DO CANAL FUTURA E PROFESSOR NO CURSO DE DESIGN EM MÍDIAS DIGITAIS DA PUC-RIO
 
A imersão operacional e narrativa é o que caracteriza a experiência humana de viver nos tempos atuais. Todos os dias, temos de dar conta de uma série de rotinas que antes não existiam: colocar o aparelho de telefone celular para carregar, por exemplo.
 
 
Também acabamos por nos habituar a narrar tudo aquilo que vivemos. Todos os passeios, as festinhas infantis e as “baladas” dos adultos são avidamente descritas e fotografadas, indo parar nas redes sociais, formando uma espécie de noticiário diário de cada pessoa e de todos nós, na dimensão da sociedade. Aí está uma das grandes transformações dentre todas as promovidas pelos novos hábitos que se formaram com a cultura digital, e que obrigam o jornalismo a se repensar. Com a popularização dos artefatos tecnológicos, como os computadores pessoais e os chamados smartphones (telefones inteligentes), houve um deslocamento do eixo de difusão da comunicação social, que antes era no modelo um-para-muitos e, agora, ocorre no modelo muitos-para-muitos. Ou seja: muitas pessoas produzindo informação para muitas pessoas consumirem. É uma tendência tão forte que os norte-americanos até criaram uma palavra para denominar esses usuários de smartphones e grandes redes sociais digitais. São os prosumers, uma mistura de produtor e consumidor de informação e conteúdo.
 
 
Como as pessoas estão cada vez mais conectadas com aparelhos, redes eletrônicas e conteúdo digital, elas deixam pistas pelos lugares por onde passam. Hoje em dia, para saber da vida de alguém, é mais fácil fazer uma investigação na web (a rede mundial de computadores). Até o que já foi apagado pode ser resgatado das profundidades
obscuras da internet e voltar à superfície. Isso sem sair de casa ou do escritório. Atualmente existe uma área do conhecimento que trabalha com o processamento de grandes bases de dados para gerar informação nova, que antes não havia como obter. Pense, por exemplo, em utilizar todas as informações disponíveis no Censo Escolar ou no Inep para entender melhor os milhões de estudantes que participam todos os anos das provas do Enem. Ou rastrear a vida de alguém identificando as diferentes escolas que ele frequentou a partir de um estudo longitudinal de matrículas.
 
 
É possível seguir falando sobre as novidades e as transformações promovidas pela migração digital por páginas e páginas. Claro que não é o caso aqui. Nosso ponto é tomar consciência que tudo isso transforma o jornalismo e a profissão do jornalista. De uma forma muito simplificada, o que caracteriza o fazer do jornalista é uma metodologia de trabalho, que lhe permite produzir informação de interesse social com qualidade. O fato de muito mais pessoas poderem produzir “notícia” dá mais pluralidade aos temas que circulam pela sociedade; isso é bom, mas compromete a qualidade do conteúdo com o qual somos diariamente bombardeados por todos os lados e que é produzido por pessoas mal intencionadas ou que não dominam a metodologia para apurar bem um fato antes de divulgá-lo (são as tais fake news). Então, o método de trabalho do jornalista precisar ser ajustado para o contexto atual e para a incorporação das novas ferramentas de trabalho disponíveis.
 
É mais difícil ser jornalista agora. E muito mais interessante sê-lo. Há inúmeras novas possibilidades de levantar hipóteses, fazer investigações e construir narrativas. E como há tanto conteúdo de baixa qualidade circulando, a profissão do jornalista fica cada vez mais importante. Nesse momento da História, o jornalista deve se perceber como um criador que trabalha em rede, de forma coletiva, compartilhando a autoria de suas narrativas com colegas de profissão e com gente comum. O jornalista hoje é um curador, que sabe ler de forma crítica o que recebe e é capaz de realizar arranjos criativos de informações, construindo perspectivas que ninguém ainda viu, porque conta com um arsenal de ferramentas digitais de longo alcance. Deve se preocupar com a beleza do texto e de tudo o mais que compõe a informação de qualidade, como as imagens. Oferecendo aos que buscam o resultado de seu trabalho uma experiência única de fruição e de construção de conhecimento. É assim também que imagino que deva ser um jornal sério e comprometido com seu público. Que venha o novo tempo.
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