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O impacto do fotojornalismo retorna em grande estilo

00:00 | 24/06/2018
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POR SIMONETTA PERSICHETTI

JORNALISTA, CRÍTICA DE FOTOGRAFIA DOCENTE DA FACULDADE CASPER LÍBERO, PÓS-DOUTORA EM JORNALISMO PELA USP-SP
 
 
Não é de hoje que uma grande e profunda discussão acompanha o futuro – ou não – do
fotojornalismo. Muito se falou da morte, da crise, do fim desta linguagem. Mas o fotojornalismo sempre se renovou e renova e ressurge, agora em grande estilo.
 
 
Os primeiros sinais que davam conta deste debate se deram na virada do século XX para o
XXI. O digital, as redes sociais, os celulares, sem dúvida nenhuma, trouxeram uma mudança da visualidade. A rapidez do compartilhamento das informações e o surgimento de um sem-número de “fotógrafos” (ou de pessoas que acreditam que
apertar um botão é ser fotógrafo) obrigaram o mundo da imagem a repensar suas plataformas, sua maneira de ser feito. Nada que não tivesse acontecido em outras épocas da história com o desenvolvimento de câmeras de menores formatos, lentes mais claras, e o desenvolvimento da indústria gráfica. Isso é só para um pequeno e rápido panorama.
 
 
Sim, o jornalismo como um todo, a indústria jornalística entrou em crise e precisou se reinventar. Agora, quase duas décadas se passaram desde a entrada no século XXI, e nos damos conta de que o jornalismo e o fotojornalismo nunca foram tão importantes e tão essenciais para que possamos entender o mundo que se apresenta à nossa frente.
 
 
O fotojornalismo está em alta. Afinal, ele é testemunha de fatos, narrativas de momentos, é história e documento. Só ele pode combater o crescer incessante de fake news, as análises superficiais das redes sociais e a falta de diálogo que tem nos acompanhado de forma tão incisiva ultimamente. Sim, ele se transformou. Não mais uma imagem dogmática, mas uma imagem que se assume portadora de opinião, fonte de reflexão e cada vez mais narrativa. Mudamos nós, mudaram as imagens, mas não sua potência. Elas continuam impactando e atuando sobre nós. O pensador catalão Joan Fontcuberta, em seu mais recente livro “La furia de las imégenes” (ainda sem tradução para o português), nos lembra que agora “matamos e nos matam por causa das imagens”, lembrando o famoso caso do semanário francês Charlie Hebdo em 2015, quando vários cartunistas foram assassinados por terroristas. Também não podemos nos esquecer da força das imagens utilizadas pelo Estado Islâmico, assim como as imagens dos refugiados sírios e, mais recentemente, a polêmica da foto do menino de Copacabana feita no Réveillon.
 
 
Ainda nos referenciando ao Fontcuberta: “As imagens continuam impactando nossa consciência, mas agora são tantas, escorregadias e difíceis de controlar”. Portanto, agora, nos vemos diante de outra necessidade – a de repensar a imagem, sua interpretação e seu papel dentro do território da comunicação. O fotojornalismo ou, melhor dizendo, a maneira de fazermos o fotojornalismo se transformou. Fotos pontuais vão continuar sendo feitas e nisso a imagem única e rápida de um acontecimento dá conta da informação. Mas, cada vez mais, será responsabilidade do fotojornalismo aprofundar estas histórias e nos dar inúmeras possibilidades de visualizarmos um fato. Cada vez mais, o fotojornalista irá se voltar para as micro-histórias que dão conta de toda uma situação. Só lembrarmos o fotojornalista Mauricio Lima, o primeiro brasileiro a receber um prêmio Pulitzer de fotografia, que, ao seguir o drama dos refugiados sírios, optou por seguir uma família durante a travessia e, por meio deles, dar voz aos demais refugiados muitas vezes invisíveis.
 
 
Cada vez mais, repito, o fotojornalismo se voltará para as grandes reportagens, para o vídeo, para problemas pontuais que nos tragam a possibilidade de pensar. Como diz o professor francês François Soulages: “A fotografia não é a restituição do objeto mundo, mas a produção de imagens que interpretam alguns fenômenos visíveis e fotográveis, de um mundo particular e existente num espaço e numa história de dados”. Os fotógrafos são talvez hoje – e continuarão sendo – os profissionais realmente presentes aos eventos mundiais. As grandes reportagens, as micro-histórias, narrativas imagéticas impressas ou em vídeo foram e continuam sendo imprescindíveis para nos ajudar a compreender a história que vivemos.

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