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Demissão gera incerteza econômica e Bolsa deve ter dia tumultuado

| BNDES | Postura de Jair Bolsonaro preocupou economistas e o mercado, que viram na saída de Joaquim Levy uma volta da intervenção estatal na economia

17/06/2019 02:33:54

Um dia após Joaquim Levy pedir demissão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a expectativa geral do mercado é que a Bolsa de Valores de São Paulo opere em baixa nesta segunda-feira, com aumento da incerteza de investidores diante da economia brasileira.

O cenário ocorre sobretudo pela forma que Jair Bolsonaro (PSL) conduziu o caso. "Foi feito de forma muito impulsiva, sem respeito às regras. O mercado não vai interpretar como uma coisa boa, vão imaginar que o presidente sempre estará interferindo nos órgãos da economia", diz o economista Henrique Marinho.

Ele destaca que Levy é um profissional "conhecido e sério", e que o padrão de demissões do Planalto tem gerado incertezas. "As demissões têm sido feitas assim, com ataques públicos, sem ouvir a equipe. Foi assim com o diretor dos Correios, com o Santos Cruz (ex-secretário de Governo). Então o investidor vai sempre estar se perguntando: Quem será o próximo?".

Na noite de ontem, o Financial Times, uma das principais referências para investidores internacionais do mundo, destacou a saída de Levy como "movimento que pode abalar investidores, que temem a volta da intervenção estatal na economia". "A renúncia é mais um sinal de que as ideologias do governo estão se sobressaindo em decisões-chave", diz o jornal.

Já a Reuters noticiou o caso como "sintoma das sérias divisões que continuam a atormentar feito praga o alto escalão da administração". "Já havia um cenário de incerteza, e o presidente tem mais criado incertezas do que diminuído elas", avalia Marinho.

Para o economista Raul Santos, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Ceará (Ibef-CE), a maneira como o presidente atuou no caso foi notadamente negativa, mas os impactos da mudança na economia dependerão mais de como o ministro Paulo Guedes (Economia) conduzirá as mudanças no BNDES daqui em diante.

"O resultado vai depender muito disso, se o Guedes vai anunciar um nome bom, de qualidade, para o banco. Se ele ficar calado teremos um problema, o Levy era muito qualificado", diz. Sobre o perfil esperado para o sucessor de Levy, ele diz ser "claro": "Tem que ser mais liberal, adepto à abertura do mercado, que entenda que o Estado tem que ser menor".

Até a noite de ontem, quatro nomes eram mais cotados para a vaga: Solange Vieira, atual superintendente da Susep, Salim Mattar, secretário de Privatizações, Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BNDES, e Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central. Além da "dança das cadeiras", o governo estaria também cogitando uma série de alterações na instituição.

Uma delas seria a transferência de parte das competências da Secretaria Especial de Desestatização e Desinvestimento para o BNDES. Com isso, o banco passaria a ser responsável por tocar privatizações do governo. A mudança, no entanto, precisaria ser aprovada pelo Congresso Nacional.

A crise no BNDES foi ponto alto de semana marcada por tensões na gerência de Paulo Guedes da economia. Na quinta-feira, o ministro criticou acordo de líderes da Câmara que "desidrataria" texto da reforma da Previdência, reduzindo economia prevista de R$ 1,2 trilhão para R$ 860 bilhões.

Entre as mudanças, estariam a saída do sistema de capitalização e de estados e municípios do projeto. "Se aprovarem a reforma do relator, abortaram a reforma da Previdência". A fala gerou reação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que acusou Guedes de criar uma "crise desnecessária". O conflito assusta investidores, preocupados com ritmo de tramitação da reforma.

 

Quem pode suceder Levy

Antes mesmo de Joaquim Levy realizar o pedido formal de demissão, o presidente Jair Bolsonaro ameaçou a permanência do economista à frente do BNDES, afirmando que sua cabeça estava a prêmio. O mal-estar veio depois que Levy nomeou o advogado Marcos Barbosa Pinto para o cargo de diretor de mercado de capitais do banco de fomento, um nome ligado ao PT.

Veja os principais cotados

para a vaga no BNDES

Solange Vieira: Atual presidente da Superintendência de Seguros Privados (Susep). Funcionária de carreira do BNDES, é próxima do ministro Paulo Guedes.

Salim Mattar: Atual secretário especial de Privatizações do governo. Perfil encaixaria com intenção do governo de transferir parte das atribuições da pasta para o BNDES

Carlos Thadeu de Freitas: Ex-diretor no BNDES na gestão Temer, defendeu maior transparência de ações do banco. Já presidiu o Banco da Amazônia S.A. e da Nuclebrás.

Gustavo Franco: Ex-presidente do Banco Central, foi um dos homens fortes da implementação do Plano Real. É presidente do Conselho de Administração do BNDES.

 

1ª baixa na economia

INDICADO DE GUEDES

A queda de Joaquim Levy do BNDES foi a 19ª baixa em diretorias do governo Jair Bolsonaro desde a posse em janeiro. A queda, no entanto, foi a primeira entre indicados da equipe econômica do ministro Paulo Guedes, que permanecia até então inatingida pelo estilo polêmico do presidente de lidar com seus indicados.

 

Carlos Mazza