PUBLICIDADE
Jornal
VERSÃO IMPRESSA

"O que equilibra e estabiliza uma sociedade é a esperança", diz Ramon Térmens, da Mallory

| Projetos | Em entrevista ao O POVO, ele também fala da parceria com o Governo do Estado

25/05/2019 02:55:16
RAMON Térmens, presidente do Taurus Group
RAMON Térmens, presidente do Taurus Group (Foto: Alex Gomes/Especial para O POVO)

A Mallory, marca de eletrodomésticos e eletroportáteis do Taurus Group no Brasil, inaugurou linha de montagem completa de ventiladores dentro do presídio feminino Instituto Penal Auri Moura Costa, em Itaitinga, no Ceará, em abril. Uma parceria com o Governo do Estado para dar profissionalização e novas oportunidades às internas. Em entrevista ao O POVO, Ramon Térmens, presidente do grupo, de origem catalã, fala sobre este momento e da necessidade e do dever da sociedade como um todo de reduzir as desigualdades. Para ele, o mundo hoje vive uma espécie de "combustão descontrolada" que nos leva a um futuro ainda incerto.

O POVO - A Mallory iniciou em abril o projeto Bons Ventos, uma planta-piloto montada dentro do Instituto Penal Auri Moura Costa, em Itaitinga, no Ceará, que está qualificando as internas no setor industrial. Qual a importância do projeto dentro das operações da empresa?

Ramon Térmens - O projeto Bons Ventos é derivado deste conceito global de serviços para comunidade. E esta comunidade é basicamente o entorno de Fortaleza. Quando a Annette (Annette de Castro, vice-presidente da empresa no Brasil) me falou como era, eu fiquei feliz, porque sou uma pessoa sensível às pessoas mais fragilizadas. Temos que ter um compromisso de verdade, não falar somente. É preciso agir com fatos para que as pessoas que estão em entorno de sofrimento, em desesperança, possam voltar a ter esperança, usar seus dias na prisão, fazendo coisas que podem ser úteis. Isso é importante para cada menina que está ali.

OP - E como funciona?

Annette de Castro - A gente colocou uma linha de montagem de ventiladores dentro do presídio. Enviamos os produtos desmontados, elas montam e a gente retoma para comercialização. É um projeto inicial do Governo do Estado, um piloto. Houve uma mudança da lei para que isso pudesse ser viabilizado e nos unimos para começar a criar uma situação diferente. O sistema carcerário brasileiro é reconhecidamente falido e uma medida como essa cria uma nova situação. Vamos começar com dez pessoas, montando mil ventiladores. Vamos iniciar o trabalho para ver como se consegue disciplina, profissionalização, porque vamos exigir o que exigimos dos nossos funcionários, nós vamos treiná-las. E nosso desejo é que na medida em que formos desenvolvendo um projeto desses, o Governo possa ocupar uma boa porcentagem da população carcerária, assim a pena passa a ser construtiva e não destrutiva.

OP - Hoje a Mallory é a sexta maior em vendas de eletroportáteis e a quarta de ventiladores. Como o senhor está observando o consumo no mercado brasileiro hoje neste contexto de crise econômica, o índice de confiança do consumidor, por exemplo, recuou 1,4 pontos percentuais este ano...

Annette de Castro - Se for me retirar do consumo geral e for olhar o nosso negócio, a gente faz parte do mundo de eletroportáteis que é vinculado ao mundo de varejo de eletroeletrônicos, que é dividido em linha marrom, linha branca, eletroportáteis e móveis. Ao longo dos últimos anos, mesmo na crise, eletroportáteis cresceram porque o consumo se desloca de tíquete médio superior para um de tíquete médio inferior. Afortunadamente, estamos em uma área em que o tíquete médio é inferior, a parcela é menor, então, muito do consumo se deslocou de um produto de maior valor agregado para um produto de menor valor agregado. Este ano, o mercado de eletroportáteis cresceu aproximadamente 12%, em relação a 2018. Linha marrom, TV, teve um decréscimo. Agora, o que a gente percebe é que o varejista entrou o ano muito bem, com energia e esperança, mas de março até agora vimos um pequeno freio, abrindo espaço para uma ansiedade por mais mudanças reais. A esperança está em pausa neste momento, no próprio varejista, que é o nosso primeiro cliente.

OP - E no mundo, como o grupo está vendo o consumo? Está mudando a forma de se consumir?

Ramon Térmens - Nós, como grupo, temos companhias na África, na

Ásia, na América do Norte, no México, Europa, Brasil, Peru… e, evidentemente, uma generalização é complicada. Mas há duas coisas certas. A primeira é que hoje há uma evolução sobre sair do entorno de confiança dos varejistas e ir diretamente para o entorno de confiança do consumidor. Portanto, isso muda um pouco as linhas de relacionamento. A comunicação direta com nosso cliente é maravilhosa: (Magazines) Luíza, Macavy…, mas agora também tem o cliente, que é uma senhora particular, que tem um nome, que eu não conheço e que ao tomar confiança pela companhia, pelas redes sociais, aciona e encontra o produto em toda parte: e-commerce, no marketing place, no B2B (Business to business” ou “Empresa para empresa”) ao B2C (Business to Consumer” ou “Empresa para consumidor”). Uma segunda norma é que os produtos básicos seguirão existindo sempre, mas há uma movimentação para fazer produtos um pouco mais sofisticados, que vão tratar de combinar o uso da internet das coisas (IoT), que todo mundo fala e ninguém sabe muito bem o que é, esta questão da conectividade. Até que ponto é útil eu saber agora, pelo meu celular, onde meu carro está estacionado na Espanha? Até que ponto é importante poder ligar e desligar o ar condicionado pelo celular? Eu não sei. É uma mudança de hábitos dos consumidores. Mas que consumidores? No mundo, existem 7,5 bilhões de pessoas, que em 20 ou 30 anos, vão se tornar em 10 ou 12 bilhões. Nem todos serão ricos para comprar coisas para se conectarem, muita gente ainda vai poder comprar um ventilador. E um ventilador não precisa de um celular que o conecte, precisa de algo muito mais simples. Portanto, eu acho que somos muito mais sensíveis aos ruídos que as necessidades básicas das pessoas. Então são duas coisas: a conexão direta com meu cliente, que muda completamente isso tudo, pelo e-commerce você acaba comprando e pagando menos, mas as lojas estão convertidas em experiências de compra; e a outra é esta questão da conectividade, big data, elementos importantes para o futuro. Eu acho que ninguém conhece muito bem aonde iremos parar, porque está indo muito rápido, os hábitos dos consumidores estão mudando e ainda não há capacidade de interpretar isso de forma completa pelo próprio mercado.

OP - E como vocês estão inseridos neste contexto de automação, indústria 4.0? Muitas empresas normalmente vêm para o Ceará fazer manufatura, mas a inteligência, pesquisa e desenvolvimento não ficam aqui. Como é o caso da Mallory?

Ramon Térmens - No momento estamos com nosso escritório em Maranguape, com equipes mais sofisticadas, tudo em Maranguape e temos um escritório, uma sala aberta, em São Paulo. Mas é mais um lugar de encontro do que de trabalho. Hoje o nosso núcleo pensante está aqui.

OP - As mudanças de design foram feitas aqui?

Annette de Castro - Acho que uma das coisas que ajudou a Mallory é que deixamos de pensar portáteis como commodities e tentamos trabalhar eles como produtos de desejos. Então, desde o início, a gente está com um designer cearense, porque é aqui o ambiente que estamos inseridos e temos que valorizar isso. Temos um designer com a gente, que vai para China conosco, pensa junto e contribui. Utilizamos também o conhecimento que temos de outras filiais, da Espanha, China e etc, mas a tomada de posição final é aqui.

OP - Ramom, o senhor em entrevista Azuis, ao O POVO, em 2016, falou da resistência que encontrou ao decidir lá atrás, em 2001-2002, quando entraram no Brasil, construir a planta no Ceará e não em São Paulo. Hoje, passado o momento mais grave da crise econômica brasileira, o senhor pensa que tomou a decisão correta?

Ramon Térmens - Eu acho que naquele momento era uma situação de risco, hoje não é mais. Esta é a melhor resposta que poderia dar a favor do Ceará. Lá em 2002, se fosse comparar, havia muita diferença de fornecedores entre São Paulo e Ceará, entre Itaperi e Maranguape. Mas o caminho percorrido pelo Ceará tem sido mais rápido que o percorrido por São Paulo, que, naquele momento, estava em posição muito mais alta. O que falavam os consultores de São Paulo naquele momento? O Ceará é um deserto, que eu não encontraria fornecedores de capital, financeiros e de nada, que as pessoas não tinham formação, mas hoje o Ceará não é mais um deserto. Temos de tudo.

Annete de Castro - Eu acho que temos um equilíbrio a nível de poder público muito melhor do que em vários outros estados, entretanto, temos riscos. Estamos a 3 mil km do maior consumidor do País, que é a região Sudeste, e sofremos muito ano passado com a greve dos caminhoneiros. A infraestrutura ainda está contra a gente, onerou a despesa, e ainda hoje as tabelas de frete estão subindo independente da oferta e procura. Então, a nível de poder público, estamos em região saudável para investir, mas em infraestrutura ainda temos vários problemas acontecendo ao nosso redor que afetam o índice de confiança de investir mais.

OP - Há planos de expansão no Ceará?

Ramon Térmens - Neste momento, os únicos planos de expansão que temos são no Ceará.

Annette de Castro - O plano nosso este ano é ousado. Queremos crescer acima de 30% este ano em faturamento e isso inclui investimentos, ampliando planta fabril, ampliando o portfólio de produtos.

OP - Vocês podem falar em números, quanto pretendem investir?

Annette de Castro - A gente não fala em números porque é um percentual daquilo que produz. Mas a gente tem um plano que poderia comprometer até 25% do resultado da empresa em reinvestimentos imediatos este ano.

OP - Há três anos, o senhor disse que “o mundo precisava do Brasil”. Falamos a pouco de vários fatores de risco como infraestrutura, investidores cautelosos. O que o senhor diria aos investidores que estão olhando para o Brasil hoje lá fora?

Ramon Térmens - Este ano, e estamos falando até abril, já fiz, no mínimo, três conferências em Barcelona para falar sobre o Brasil para empreendedores catalãos e espanhóis, em diferentes fóruns. Tenho outra palestra agendada para o dia 6 de junho, como palestrante, para explicar minha experiência no Brasil e vou explicar a vocês os eixos de que falo. A primeira coisa é que sempre começo com aquela célebre filosofia que diz “nunca afirme, raras vezes negue, sempre selecione e distingue”. Se isto é assim, entenderá que o Brasil é um continente, não poderás aplicar o critério de um e de outro. E, em terceiro, que o Brasil é um país confiável em relação à propriedade privada. Desde 1929, só houve uma expropriação de uma empresa privada, portanto, em termos de propriedade privada, é um país confiável. É um país complexo tributariamente porque é um país diferente: é rico, vivo, grande, multicultural, com grandes diferenças regionais e sociais. Em termos reais, é diferente trabalhar no Ceará, na Bahia ou no Rio Grande do Sul. Mas há coisas que são genéricas. Normalmente, os brasileiros gostam muito, enquanto consumidor normal, de marcas estrategicamente pensadas para cá. Nós somos um exemplo, aqui somos Mallory. A Philips não vende com a marca Philips, é Walita; a Calor é Arno, é uma cultura diferente. Ao contrário, por exemplo, dos chineses que só buscam marcas europeias. É verdade que está aqui a Sansung, a Panasonic, mas estamos falando de grandes companhias. Mas o discurso elementar é para empreendedores do tipo médio e médio pequeno. Não estou falando como grandes consultorias americanas, que dizem coisas que todo mundo sabe, mas posso falar de minha experiência. Por que muitas vezes as pessoas precisam de mim na Espanha para poder transmitir isso? É porque não transmito conceito, que você pode achar na internet, mas experiência real. Qual a minha conclusão final? O maior ativo que tem no Brasil são os brasileiros. E o País não tem ainda a consciência do potencial humano tem.

OP - Como o senhor está avaliando o novo Governo, a economia e as mudanças que têm ocorrido no Brasil?

Ramon Térmens - Aqui como no mundo todo há uma ebulição. Eu penso o que se passando no Brasil hoje é o que está acontecendo em qualquer parte do mundo. Está tudo caminhando muito rápido e não está nada finalizado. Você pode fazer uma explosão controlada ou pode fazer uma explosão sem controlar. Quando se abre uma ferida é um evento que queima muito rápido, já quando acende uma vela, que vai queimando gradativamente, é uma combustão controlada. Neste momento o mundo está em uma combustão descontrolada porque ninguém sabe o que vem pela frente. Na minha opinião, no mundo ocidental, não há uma substituição clara dos valores fundamentais que consolidaram o mundo. Não estou falando de China, Índia e nem de países muçulmanos, estou falando de Europa, América, etc. O normalismo cristão da família, do trabalho, se é boa pessoa ou não, a busca de pela verdade dos gregos - não a de Platão ou Aristóteles - que foi o que construiu a gente, está mudando. Eu sou uma pessoa filha desta filosofia, com pecados, fazendo coisas más, mas fazendo a confissão para recuperar-me dos pecados. Tudo está pensando, mas o que acontece agora é que a partir de XVII (68?) isto quebra e ninguém sabe o que se passará amanhã. Vem Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir com suas teorias existencialistas, movimentos hippies, movimentos libertários, tudo isso. E eu não faço juízo de valor se é melhor ou pior. Eu trato de entender do meu ponto de vista, de um homem de 70 anos que existo em minha vida. O mundo está em ebulição e não encontrou ainda um caminho claro, se mais liberdade, conservadorismo, democracia. Agora, a democracia e o capitalismo não estão mais dando resultados suficientemente corretos para que as pessoas, os cidadãos, possam encontrar soluções aos seus problemas de cada dia.

OP - O senhor fala que o capitalismo não está mais dando as respostas necessárias…

Ramon Térmens - Não, veja bem, eu não sou anárquico… (risos)

OP - Mas, então, para onde estamos caminhando? Esta reestruturação do capitalismo, seria no sentido de os próprios empresários, cidadãos, assumirem mais responsabilidades enquanto sociedade?

Ramon Térmens - Minha opinião é que o capitalismo que nasceu no século XVII, XVIII, XIX foi, ao longo do tempo, o único sistema que conseguiu gerar riqueza. O capitalismo tomou os pecados do capitalismo industrial, foi muito ruim para as pessoas na primeira metade do século, mas isto foi claramente corrigido pela revolução de XVIII quando se incorporam os sindicatos, os direitos dos trabalhadores, direitos humanos, em um ciclo de reivindicações para melhorar os direitos das pessoas coletiva e individualmente. Um empreendedor do final do século 19 que teria uma criança de 12 anos trabalhando, eu não acho que tenha sido uma pessoa má. Era uma pessoa que estava em sua cultura, portanto, não posso criticar ou fazer um juízo de valor sobre a pessoa que estava trabalhando, provavelmente, com as regras do jogo. Pode ser, inclusive, que daqui a um tempo, possam dizer que o Rámon era um homem capitalista mal porque fazia isso ou aquilo, porém, eu não me considero uma pessoa má. Então, o que passou, isso foi claramente corrigido. Depois, houve um capitalismo financeiro, antes de ser industrial. Este capitalismo começou com problemas, no ano de 1992, continuou com problemas em 2002 e nos anos de 2007 e 2008, que é a crise atual, e que vocês, na América, em alguns países, viveram em menor intensidade porque corrigiram alguns defeitos no ano de 2002 e anteriormente. Aquela situação da estruturação da crise financeira está mais forte. Hoje alguns dos grandes ricos do mundo estão pedindo para pagar mais impostos. Isso porque não serve para nada ter mais dinheiro, se não puder sair de casa. O que está acontecendo? Depois da crise de 1929, a diferença entre ricos e pobres era que os pobres continuaram crescendo em poder aquisitivo, mas a distância econômica continuava sendo maior. Isso não havia gerado problemas sociais porque havia um extensor que permitia aos pobres terem oportunidade de um dia ser ricos. Eu sempre digo, sou um favelista, na ótica do Brasil, a minha família era enormemente pobre e tive uma oportunidade. Muitos de vocês tiveram. Mas o que está acontecendo nos últimos anos? Os pobres não estão mais tendo oportunidade. O que equilibra e estabiliza uma sociedade é a esperança. E, neste momento, a esperança está se convertendo em desesperança e pode chegar a ser um desespero. E quando a gente se desespera, tudo radicaliza. Isso acontece na Espanha, no Brasil, nos EUA, em toda parte. Uma análise simples, esquemático-sociológico dos resultados eleitorais dos últimos anos nos grandes países mostra que as diferenças estão crescendo. Não falo do Brasil porque não quero entrar em polêmicas, mas no mundo isso está acontecendo porque têm pessoas que estão desesperadas. Não está nos partidos tradicionais, socialistas ou conservador, este jogo está crescendo e, neste momento, como não há esperança , há desespero.

OP - O senhor é embaixador do Barcelona Futebol Clube. Este trabalho se estende ao Brasil?

Ramon Térmens - Meu trabalho no Barça é de defensor do torcedor à nível internacional. Eu não conheço nenhum grupo no mundo que tem defensor dos seus torcedores. Tem clubes que têm defensor dos seus associados, mas não dos torcedores. O Barça tem 1.500 agrupamentos em todo o mundo, uns 250 mil torcedores cadastrados, e todos esses torcedores estão fazendo um trabalho de extensão do barcelonismo como sentimento em todo o entorno de onde mora, seja no Rio de Janeiro, em Buenos Aires, São Paulo, México ou Fortaleza.No momento o grande trabalho a se fazer é usar o grande poder de comunicação que tem os jogadores de primeiro nível como Neymar, Messi, outros jogadores, é transmitir valores as nós todos e às crianças. Acho que as grandes organizações do futebol, seja Fifa, Uefa, teriam que trabalhar muito mais esses aspectos, e sou muito critico, para que a violência saia dos campos de futebol. Os jogadores têm que se comprometer mais em ser exemplo e com as crianças porque, ao final de tudo, é um esporte de massa onde a possibilidade de fazer e melhorar a sociedade é muito grande.