PUBLICIDADE
Jornal

O desafio de chegar a quem mais precisa

| Cidadania financeira | O microcrédito representa 3% dos financiamentos de microempreendedores individuais. Para avançar, é preciso novo olhar à periferia

22/03/2019 02:29:21
LEONARDO Costa conseguiu manter o negócio e comprar a casa própria por meio de microcrédito no Santander
LEONARDO Costa conseguiu manter o negócio e comprar a casa própria por meio de microcrédito no Santander (Foto: Evilázio Bezerra)

O microcrédito, mesmo sendo ferramenta de apoio aos pequenos empreendedores, ainda está distante de uma significativa parcela da população. Prova disso é que embora o Brasil possua pouco mais de 8,7 milhões de microempreendedores individuais (MEI) registrados na Secretaria Especial da Micro e Pequena Empresa (Sempe), apenas 19% possuíam relacionamento com o sistema financeiro formal como pessoa jurídica até dezembro de 2016 e 8% tinham operações de crédito na data-base. Além disso, o microcrédito representa apenas 3% do saldo da carteira dos MEI.

Considerando todas as operações de crédito realizadas pelo Sistema Financeiro Nacional (SFN), a carteira de Microcrédito Produtivo Orientado não passa de 0,4% do montante total. Os dados do estudo "Panorama do microcrédito concedido a microempreendedores individuais", divulgado em 2017 pelo Banco Central (BC), evidencia o quão grandes ainda são os desafios do Brasil no que se refere à cidadania financeira da população.

O próprio presidente do Banco Central, o economista Roberto Campos Neto, em sua sabatina no Senado, em fevereiro, reconheceu a importância desta política para redução da desigualdade. "O microcrédito permite o contato prático da população com conceitos financeiros em um ambiente simplificado e de risco controlado".

Na posse, em igual mês, informou que pretende promover grupos de estudos junto a participantes do mercado e à sociedade civil para identificar boas práticas e buscar adequá-las à realidade de cada uma das regiões.

Para o coordenador de MBA da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Ricardo Teixeira, falta mais capilaridade das instituições para chegar à base da pirâmide. "Nem todas as instituições fazem isso. Quanto mais perto o agente de crédito, maior o compromisso em honrar aquela dívida".

A doutora em Economia Social, Silvana Parente, reforça que para isso é preciso subverter a lógica do sistema. "A essência do microcrédito não é transferência de renda, é o estímulo ao empreendedorismo. Mas não dá para fazer isso seguindo o modelo capitalista que é aplicado à grande empresa, é preciso construir um modelo de desenvolvimento de economia solidária".

Em 2017, ela, em parceria com os pesquisadores Conceição Faheina e Santiago Varella, assinaram um estudo para World Without Poverty (WWP) - Iniciativa Brasileira de Aprendizagem para um Mundo sem Pobreza, da Organização das Nações Unidas (ONU), em que mostram os fatores que contribuem para que o Crediamigo (operado pelo Banco do Nordeste- BNB) seja o maior programa de microcrédito da América Latina.

Dentre outros pontos, estão: a adoção rigorosa da metodologia do microcrédito produtivo orientado e das finanças de proximidade como uma prioridade para o Banco; o enfrentamento de tabus contra a viabilidade dos pequenos negócios e a capacidade gerencial dos pequenos empreendedores; a adoção do bônus de adimplência para estimular a pontualidade nos pagamentos; a diversificação de produtos para atender a demanda crescente dos clientes; e a adoção de modelo de gestão operacional e de pessoas especificamente desenhados para a atividade de microcrédito.

Silvana manifesta, no entanto, preocupação em relação ao futuro do banco. Para ela, se o BNB for extinto ou incorporado a outras instituições de desenvolvimento, a política de microcrédito pode estar em risco. "O que seria muito prejudicial ao Nordeste".