PUBLICIDADE
Jornal

Clínicas popularesa expansão pelo preço

| MERCADO | Com valores que vão de R$ 70 e R$ 120, esses estabelecimentos vêm crescendo em Fortaleza, assim como no Brasil, em razão do vácuo do SUS e da dificuldade das pessoas em pagar planos de saúde

(Foto: )

Basta um giro rápido pelas ruas do comércio para perceber que há uma modalidade de negócio em alta em Fortaleza: as clínicas populares. No Centro, só no quarteirão da rua Dr. João Moreira, entre a Praça dos Mártires e a Senador Pompeu, ao lado da Santa Casa, são dez clínicas enfileiradas. E todas com muita demanda ao longo do dia.

Com a promessa de preços acessíveis — em média, entre R$ 70 e R$ 120 a consulta, e exames laboratoriais a partir de R$ 7 —, esses estabelecimentos têm sido alternativa para muitas pessoas em um contexto de orçamentos mais apertados e dificuldade no acesso ao sistema público e a planos de saúde.

É o caso, por exemplo, da professora Meyriene Castro, 30. Ela já perdeu as contas de quanto tempo está esperando uma consulta com ginecologista no posto de saúde. "É uma fila de espera sem fim. E como precisava resolver logo isso, decidi pagar algo que não fosse tão caro e com atendimento bom".

O recepcionista Renato Holanda da Costa, de 38 anos, também passou a recorrer a esse tipo de consulta desde que teve de abrir do mão do plano de saúde dele e do filho, Davi, de 9 anos. "Antes era barato porque era pela empresa, mas fazer plano por fora, individual, é muito caro. Sem condições de ter, isso sem falar que passava anos e anos pagando e quase não usava direito".

Com a forte crise econômica do Brasil, mais de 3 milhões de brasileiros deixaram de ter plano de saúde nos últimos cinco anos, segundo dados da Agência Nacional de Saúde (ANS). 

Mas não é apenas entre as classes de menor poder aquisitivo que as clínicas fazem sucesso. A demora para agendar consulta, mesmo entre quem tem plano, tem levado gente ao serviço, onde, de modo geral, é possível marcar e receber atendimento no mesmo dia ou, no máximo, em 24 horas.

"A ideia da clínica popular veio de uma percepção de que as pessoas mais pobres, muitas vezes, acabavam pagando mais do que aquele que tinha plano de saúde por uma consulta. Era uma forma de equalizar essa desigualdade de cobrança. Mas, com o tempo, percebemos um aumento também por pacientes com plano de saúde que não conseguem marcar consulta com reumatologista, por exemplo, porque só tem vaga daqui a dois meses", explica Raphael Cunha, diretor clínico das Clínicas SIM.

Não à toa, no ano passado, a rede cearense — a maior neste formato no Norte e Nordeste, com 13 unidades em Fortaleza, Maracanaú e Recife — abriu também espaços em shoppings (Via Sul, North Shopping Fortaleza e North Shopping Maracanaú). Nos próximos três meses, está prevista a inauguração de mais três clínicas, mais uma em Fortaleza e duas em Belém.

E embora não abra dados sobre faturamento ou quantidade de atendimentos, o diretor financeiro e de expansão do grupo, Ivan Cordeiro, afirma que a rede criada em 2007 tem conseguido alcançar a meta de dobrar de tamanho a cada ano. "Mesmo que isso não signifique mesma quantidade de unidades físicas. Mas os atendimentos acabam combinando com isso. Ou seja, nós temos 13 unidades hoje e devemos chegar a vinte e 21 ao final deste ano".

A Cooperativa de Atendimento Pré & Hospitalar (Coaph), cooperativa formada em 2009 por médicos do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), criou sua primeira unidade física, a Coop Clínicas, em Fortaleza, há pouco mais de um mês. E já tem planos de expansão. "É um mercado com várias possibilidades. Além da consulta em si, é grande a procura por exames de imagens e outros serviços. Estamos estudando a viabilidade de oferecer atendimento em casa, para curativos simples e terapias por curto período. É importante porque diminui o risco de infecção", explica o vice-presidente da Coaph, Valderi Souza Júnior.

 

FORTALEZA,CE,BRASIL,28.02.2019: Meyriene Castro Professora,30 e Gustavo Mesquita Landim,médico. O crescimento das clinicas populares em Fortaleza. (fotos: Tatiana Fortes/ O POVO)
FORTALEZA,CE,BRASIL,28.02.2019: Meyriene Castro Professora,30 e Gustavo Mesquita Landim,médico. O crescimento das clinicas populares em Fortaleza. (fotos: Tatiana Fortes/ O POVO)

Economia O que mantém a viabilidade desses negócios

Os preços praticados pelas clínicas populares não são exatamente baratos. Principalmente, se considerar que, há dez anos, uma consulta dessas saia por cerca de R$ 30, R$ 50. Hoje, custam, em Fortaleza, entre R$ 70 e R$ 120. Mas está em uma faixa intermediária bem mais em conta do que a média praticada em clínicas particulares, onde uma consulta com um cardiologista, por exemplo, sai por R$ 300, R$ 400.

Mas como eles conseguem fazer isso, considerando que a Variação de Custos Médico-Hospitalares (VCMH), a chamada inflação médica, que é o principal indicador utilizado pelo mercado de saúde suplementar como referência para estabelecimento de preços, cresceu quase três vezes mais do que a inflação oficial do País em 2018?

"Um dos segredos desta estrutura de negócios é o volume, conseguir fazer um atendimento mais barato e eficiente do ponto de vista econômico. Tem que manter a agenda daquele médico cheia. Diferentemente dos grandes hospitais, em geral, os procedimentos têm um tempo de atendimento pré-determinado, o que não quer dizer de menor qualidade", afirma o sócio da KPMG em Fortaleza, Eliardo Vieira.

Ele acrescenta que o fato dessas clínicas trabalharem com pagamento em dinheiro, à vista — mais recentemente que a modalidade de crédito começou a ser aceita —, o risco de crédito e de falta de liquidez é bem menor. "Além disso, os planos de saúde costumam pagar com 90 dias, há possibilidade de glosa do pagamento (ajuste de uma cobrança apresentada por um serviço prestado. E que não tem nessas clínicas".

O valor pago aos profissionais de saúde pelo serviço prestado também figura entre o que é desembolsado pelos planos de saúde e clínicas particulares.

Mas, embora o preço seja o carro-chefe desse filão, a qualidade do atendimento e a rapidez no agendamento também pesam muito para decisão do usuário, observa a gestora da Clínica Santa Clara, Glauciane Souza. "A demanda cresceu e a exigência também. A gente tem que equilibrar isso, eles querem tudo direitinho, suporte, estrutura", aponta.

Ela lembra que a clínica foi uma das primeiras neste formato a funcionar na rua Dr. João Moreira em 2005, no Centro da Capital, e surgiu de uma lacuna que desde aquela época era latente: que é a dificuldade de acesso ao serviço público de saúde. "A Santa Clara começou com 30 médicos, que já atendiam a preço popular dentro da Santa Casa. Eles tinham uma demanda muito boa, mas, quando o hospital fechou o sistema, eles ficaram sem espaço para atender as pessoas. Por isso surgiu a ideia de criar a clínica. De lá para cá, muitas vieram depois, mas a demanda também aumentou".

Atualmente com quatro unidades, todas no Centro, o foco é seguir ampliando o leque de serviços. "Hoje é mais fácil dizer as especialidades que a gente não tem, temos todas menos psiquiatria e infectologia. Também oferecemos vários tipos de exames. E ainda neste ano vamos passar a ofertar Raio-X. O nosso foco é consolidar ainda mais nossa atuação".

O economista Alessandro Gomes alerta que, com tanta oferta, o usuário precisa estar atento. "É importante checar se a clínica e médico estão registrados, pesquisar reclamações em relação a empresa. Hoje, na internet, há várias formas e fazer essa busca", destaca.

O papel no debate sobre a saúde

A proliferação das clínicas populares no País ligou o sinal de alerta do Conselho Federal de Medicina (CFM). Desde o ano passado, está em vigor a resolução 2.170/17, que traz algumas regras para funcionamento e registro deste tipo de estabelecimento no País. Para funcionar, por exemplo, é preciso que as clínicas e o seu corpo técnico, incluindo médicos e especialista, tenham registro no Conselho Regional de Medicina do Estado onde atuam. Também é proibida a distribuição de panfletos com preços dos serviços .

Os valores podem ser informados por telefone ou estar à vista no interior da clínica, mas não podem constar em materiais de publicidade. Cartões de desconto e de fidelidade também não são permitidos. não podem funcionar conjugados a óticas, farmácias e lojas que comercializem próteses e órteses.

O presidente do Cremec-CE, Helvécio Neves Feitosa, explica que o objetivo é evitar a concorrência desleal do mercado. "A Medicina não pode ser um comércio,esse tipo de postura sempre foi combatida pelo nosso código de ética".

O sociólogo Ricardo de Lima, no entanto, vê com preocupação o papel que as clínicas populares estão ocupando no mercado, uma espécie de via alternativa entre o SUS, os planos de saúde tradicionais e as organizações sociais.

Umas das conclusões da sua tese de doutorado "Individualização social, assistência médica privada e consumo na periferia de São Paulo", defendida ano passado na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, é de estar em curso um processo de "naturalização da saúde como mercadoria".

Ao se debruçar sobre a realidade de Heliópolis, favela em área de classe média na região metropolitana de São Paulo, ele observa fragilidade na regulação do Estado sobre o privado, ao passo em que há um estímulo para soluções "individualizadas" sobre problemas estruturais. O que desloca a questão da universalidade da saúde, direito assegurado pela Constituição, para discussão de formas de como cobrir a saúde para toda a população, independentemente de como isso vai ser feito, se vai ser pago ou não e o interesse dessa cobertura universal.

Felipe Alves, gerente de seleção e apoio a negócios da Artemísia, pioneira na aceleração e fomento de negócios de impacto social no Brasil, aponta que, enquanto existir essa dificuldade de acesso ao serviço público de saúde, haverá margem de crescimento de clínicas populares. Nem todas seguem o mesmo padrão de qualidade. E apesar de algumas terem foco apenas comercial, há as que se propõem a transformar realidades, os chamados negócios de impacto social.

Para ele, esse tipo de serviço não vem para competir com o SUS, mas para complementar e qualificar a oferta governamental. Um exemplo desse desafio-oportunidade são as doenças crônicas, que correspondem a 72% das causas de morte no Brasil e são responsáveis por 75% dos gastos com atenção à saúde pública. "São enfermidades que podem ser prevenidas ou controladas com diagnóstico precoce, hábitos saudáveis e monitoramento constante", diz.

Irna Cavalcante