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A disputa pela água

Abastecimento humano, agropecuária e indústria são as prioridades para uso da água no Estado. Escassez, contudo, pode acentuar o conflito de prioridades entre setores

31/05/2017 01:30:00
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Em tempos de crise hídrica, a prioridade do abastecimento é o consumo humano. No Ceará, de clima predominantemente semiárido, a disputa da água existe. A tendência é que se acentuem com o prolongamento da seca que acossa o Estado há cinco anos.

[SAIBAMAIS]

“A retirada da água para o abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza do Interior vai refletir na acentuação dos conflitos e na falta d’água, se não forem pensadas soluções para os municípios e sistemas de compensações”, destaca Paulo Lima, doutor em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal do Ceará (UFC).


As chuvas dos últimos meses na região litorânea, que auxiliaram com um aporte de 400 milhões de metros cúbicos (m³) para os reservatórios, são apenas paliativas. “Temos o Pecém usufruindo da água e planos direcionados para a RMF. Se não pensarmos em outras regiões do Estado, corremos risco de colapsar”, avalia. Além dos reservatórios, a água que abastece RMF e Fortaleza é proveniente do Castanhão (via Eixão das Águas) e sistema integrado do Gavião.


Paulo também critica transferência da prioridade estadual da água do setor agropecuário para a indústria. “A vocação do interior é primariamente a agricultura. As reduções das outorgas para atividade foram significativas, chegando a 70%. O reflexo disso são que os perímetros tiveram sua capacidade de água diminuída em 75%. É difícil imaginar a indústria à frente do setor agropecuário e do próprio abastecimento humano”, exemplifica.


Setores

Enquanto não há resolução permanente para o impasse, a indústria reclama que a água está mais cara, reflexo claro da estiagem. “As outorgas de água para a agricultura foram suspensas e, no caso da indústria, as que tratam de poços. Nossa maior dificuldade é o valor da água. Existe uma certeza de que ele vai aumentar ainda mais”, destaca a Elaine Cristina de Moraes, do Núcleo do Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec). O preço cobrado é 18% mais alto que o aplicado no ano passado.

 

“Temos a fama de setor que mais gasta. Isso não é verdade. Pagamos muito. Algumas indústrias que reutilizam até 98% de sua água, enquanto há desperdício grande de ligações irregulares e vazamentos. Acima de tudo, economizamos”, afirma.


Carlos Prado, presidente da Itaueira Agropecuária, explica ser inviável manter a agricultura irrigada no Ceará. “O que depender dos grandes açudes, a situação é crítica. Não temos água para agricultura irrigada, a não ser as fazendas que usam água de poço”, destaca. A perspectiva não é das melhores. “O Ceará passou muitos anos para desenvolver o sistema de fruticultura e produção de leite. Com a escassez, a retomada será difícil. O alento é o planejamento hídrico do Estado”, considera. Desde o ano passado, a empresa não planta uma muda de melão no Ceará. A produção passou a ser ampliada na Bahia e Piauí, enquanto a migração ocorreu para o Rio Grande do Norte.

 

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