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CORREIOS: A BUSCA PELA REINVENÇÃO DA EMPRESA

|logística| Com as transformações do mercado, a estatal tenta se modernizar para manter sua importância para o Brasil

07/04/2019 02:01:01
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. (Foto: Getty Images/iStockphoto)

Pouco tempo depois de completar 50 anos como estatal, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ETC) pode entrar na lista de ativos do Governo Federal que devem ser privatizados, segundo indicações da equipe econômica. Com história ainda mais rica que remete ao Correio-Mor, de 25 de janeiro de 1663, a empresa vem enfrentando críticas quanto ao sucateamento pelo qual passou ao longo dos anos e corre para se modernizar e atender a uma demanda cada vez crescente do consumidor por tecnologia e comodidade.

A popularização do comércio virtual, o e-commerce, fez com que a demanda dos Correios aumentasse, levando a estatal a se movimentar. Apesar das dificuldades, o investimento em tecnologia nos últimos anos e o aumento do portfólio de serviços foram responsáveis pela volta do lucro, em 2017 e 2018, após quatro anos seguidos (2013 a 2016) de prejuízos. Além disso, a empresa chegou ao patamar de 99% na qualidade do serviço no ano passado, ao entregar quase todas das encomendas no prazo correto.

Os rumores sobre uma possível privatização dos Correios, no entanto, aumentaram. A afirmação do secretário especial de Desestatização e Desinvestimentos, Salim Mattar, de que todas as estatais estariam em avaliação, menos Banco do Brasil, Caixa e Petrobras, é ponto visto como perigoso para o doutor em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e professor de economia brasileira da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Feldmann.

"Acho que seria uma loucura negociar os Correios, porque é um serviço que não se privatiza. Tem serviços que não podem ser privatizados, porque pode prejudicar a população, como é o caso dos setores de energia e logística, pois há um grande risco de monopólio", diz. Ele cita como exemplo a Eletropaulo, companhia energética que atende a grande São Paulo e foi privatizada na década de 1990. "A empresa não tem com quem competir, por isso, a tarifa é muito alta e o serviço deixa a desejar", acrescenta.

Atualmente focado em aprovar a reforma da Previdência no Congresso, o Ministério da Economia afirmou ao O POVO que uma decisão sobre o futuro dos Correios "será tomada após a prévia realização e conclusão de estudos e de avaliação da política pública desempenhada pela estatal".

A intenção da Secretaria Especial de Desestatização e Desinvestimento do ministério é gerar eficiência e diminuir gastos. Segundo a pasta, o Brasil tem 134 empresas estatais federais. Deste total, 46 empresas de controle direto, 18 dependentes de recursos do Tesouro Nacional para suas atividades operacionais e 88 subsidiárias.

Tratativas para desestatizações já foram iniciados neste ano. De acordo com o diretor do Sindicato dos Trabalhadores em Correios e Telégrafos e Similiares do Estado do Ceará (Sintect-CE), Pablo Jonathan Morais Albuquerque, os servidores temem perder seus empregos. Ele ainda denuncia que decisões tomadas nos últimos anos estão ligadas a "um processo de sucateamento proposital" da empresa.

"A situação dos Correios está precária. Existem deliberações claras nesse sentido, como no ano passado, quando foi extinto o cargo de operador de triagem. No lugar, uma empresa terceirizada, que onera os custos, não tem a mesma eficiência, porque caiu bastante, e isso acaba refletindo em um serviço de baixa qualidade. Existe, sim, um sucateamento da imagem da empresa", reforça.

Para o sindicalista, a importância dos Correios na logística do País é grande, assim como o papel social que a estatal exerce, como na distribuição de vacinas Brasil afora, de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e de livros nas escolas públicas, pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). "No ano em que a empresa não atuou no Enem, por exemplo, a prova quase foi cancelada por fraude, em 2010. Somos a maior operação logística do mundo", destaca.

Por outro lado, Pablo Jonathan faz ressalvas quanto aos gargalos na gestão dos Correios, que precisa ser aprimorada e se alinhar às mudanças no comportamento do consumidor. "O ramo que mais cresce no mundo é o comércio eletrônico. É preciso que a empresa acompanhe de forma mais rápida as transformações do mercado".

SAMUEL PIMENTEL

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