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Jornal
Análise

O luto das meninas pretas

10/03/2019 17:30:16

Mulheres negras movendo estruturas. Era este o nome do encontro do qual a Marielle participava antes de ser executada, há exatos 361 dias. Soube da vida da ex-vereadora após a morte. A cada texto, vídeo, fotografia, foi ficando mais difícil crer na ausência dessa mulher no espaço político concedido a ela por direito democrático. Lamentei pela força política que perdíamos, pela luta inesgotável daquela mulher que batia no peito orgulhosa pelas origens na Favela da Maré, no Rio de Janeiro, lamentei pela compreensão e enfrentamento dos abismos sociais a cada vez que ela ia pra rua e levantava o punho em grito de guerra.

À medida em que os meses se passavam comecei a acompanhar, mesmo de longe, a via crucis infindável que é o esclarecimento do crime que tentou silenciá-la. Buscando informações nas redes sociais da Anistia Internacional - organização aguerrida na cobrança por justiça - e da ex-esposa Mônica Benício, o que encontrei foi também a mulher que a Marielle foi no âmbito particular. O apelido de Marielle era Chicão, pelo sobrenome Francisco; ela pediu a esposa em casamento pouco tempo depois da candidatura, a filha Luyara via na mãe um trampolim para vôos mais altos, Marielle tinha um cachorro chamado Maddox, que também faleceu no ano passado. "O plano era viver uns 80 anos e cuidar de pousada com horta orgânica", escreveu Mônica.

Passei a lamentar então pela filha, a mãe e a esposa que as pessoas que a amavam perderam. A morte de Marielle é o luto de cada menina e mulher preta que encontrava voz a cada vez que ela ia ao púlpito da Câmara Municipal do Rio. A Marielle foi, e é, um corpo político no mundo, a busca inegociável pelas causas dos Direitos Humanos frutificou com as outras mulheres que venceram as últimas eleições. É luta se conjugando no presente. Finda o ano desta morte e a pergunta que ainda ecoa é ensurdecedora: Quem matou? Quem mandou matar Marielle Franco?

 

EDUARDA TALICY

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