PUBLICIDADE
Jornal

A militância que se veste de Carnaval

|Festejos| Para além da política institucional, os brincantes trazem temas como o racismo e os direitos LGBTs para discussão nas ruas tomadas pela folia

03/03/2019 02:00:55

O Carnaval é época aguardada com ansiedade por muitos. Os adereços, o glitter e as fantasias saem do armário. Contudo, há quem critique a festa como distração para que os foliões não pensem sobre está acontecendo no País.

"O Carnaval pode ser alienante porque as pessoas usam dessa forma. Por que eu não posso usar de outra forma?", contrapõe o estudante Gabriel Farias, 23. Parte do bloco avulso Não é Fácil ser Eu, que sairá pela primeira vez com o tema "Jesus na goiabeira", uma referência a fala da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves.

"Muitas coisas na nossa vida são atos políticos. Se fantasiar também pode ser um ato político de mostrar uma indignação com uma coisa que está acontecendo no País", concorda a estilista Marianna Calixto, 24, que utilizou como fantasia o Kit Gay, uma das falsas notícias divulgadas contra Fernando Haddad (PT) durante a campanha eleitoral.

A festa não se contrapõe a discussão de temas sérios. Pelo contrário, ajuda a trazer para perto questões que são lutas diárias para quem integra blocos de rua e maracatus.

"Uma coisa faz parte da outra, não se separa. A gente faz movimento negro dentro do maracatu e maracatu dentro do movimento social negro", relata o presidente do Maracatu Nação Iracema, William Pereira. O grupo irá cantar a força da negritude enquanto atravessa a avenida Domingos Olímpio.

De uma "luta constante", como William Pereira adjetiva, surge a vontade de colocar em prática a resistência. "Não tem nada separado, é uma coisa dentro da outra. Dentro do maracatu a gente faz a política cultural, de condições de moradia, de busca de identidade", explica.

Sem financiamento público, o bloco Carnaval no Inferno se coloca na rua com o desejo de reivindicar espaço em uma sociedade que ainda exclui. "Os nossos corpos são nomeados como demônios, bixa, sapatão, que são aplicados pejorativamente, mas a gente tenta se apropriar deles para fazer protesto também", explica Natália Moura, integrante do grupo desde a criação, em 2017.

A busca por espaço em uma cidade ainda excludente para corpos dissidentes da "cis-heteronormatividade" levou o bloco para a rua. "É um protesto por ter nosso corpos nos espaços que normalmente nos foram negados. Atrelar isso a festa é a forma que encontramos de falar sobre isso", afirma.

O bloco Doido é Tu passou de iniciativa dentro dos Centro de Atenção Psicossocial para a avenida, onde começou a desfilar em 2006. A terapeuta Danielle Bargas integra o bloco há três anos e explica o tema escolhido para esse ano: "Manicômio nunca mais!". "O nosso bloco é formado por usuários da saúde mental. Muitos dos brincantes do nosso bloco trazem no seu corpo e nas suas emoções as marcas da política manicomial", ressalta.

O tema faz referência a portaria criticadas por muitos especialistas da área. "Não só a gente afirma que manicômio nunca mais, como a gente desfila uma outra possibilidade. O Doido é Tu é uma metodologia de saúde mental", defende ela.

O historiador Carlos Henrique Barbosa explica que o Carnaval possui "potencial político de dar visibilidade a questões sociais e políticas". "O que emerge tem uma potencialidade, porque a gente vive no carnaval um momento de inversão. Muitas vezes aqueles que não têm cotidianamente o poder da fala, durante o Carnaval tem esse poder", afirma.

Leia mais nas páginas 12 e 13

TAGS