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Jornal
A SEMANA

STF, procuradores e senadores entre ataques

Sessão de votação do Caixa 2
Sessão de votação do Caixa 2 (Foto: STF/DIVULGAÇÃO)

De um lado, o Supremo Tribunal Federal (STF), que nesta semana decidiu que crimes de corrupção, quando associados a Caixa 2, devem ser julgados pela Justiça Eleitoral. De outro, procuradores que integram a Lava Jato anunciavam a iminência de esvaziamento da força-tarefa e risco de anulação de condenações no âmbito da operação.

Enquanto isso, no Senado, parlamentares se mobilizam para instalação da CPI Lava-Toga, a fim de apurar ativismo em cortes superiores. No meio desse caldeirão, um festival de ataques, xingamentos, abertura de mais investigações, convocação para manifestações de rua e para ativismo digital.

Há uma necessidade patente de responsabilização em casos de desvios (não importa qual poder e instituição o autor do delito integra). Contudo, além da resposta rápida que agrada aos ouvidos das multidões, há um vasto e complexo campo de discussão. Jogar com a plateia, valer-se do clamor público, virou estratégia. O problema é que, sob o nobre discurso de enfrentamento à corrupção, há inúmeros caminhos que abrem margem a perseguições e injustiças.

Por isso mesmo, espera-se serenidade, prudência, decoro das instâncias que têm claro papel de promover mudanças, de elaborar e efetivar punições. Contudo, a semana foi marcada pelo lamentável esforço público de ministros, procuradores e parlamentares em abalar a credibilidade do outro, desgastando a imagem de seus alvos. Um cenário expresso de desarmonia entre as instituições.

As relações entre os Poderes não são feridas pela discordância - que é o caminho natural para construção de propostas e formação de consensos. As relações se esgarçam quando o precioso lugar da argumentação dá lugar ao nada produtivo campo dos xingamentos e intimidações, algumas delas abrindo margem para se reduzir a autonomia de cada um dos agentes. (Lucinthya Gomes)

Um ano sem Marielle e um crime que precisa ser solucionado

Quem planejou e executou a morte de Marielle buscava silêncio. É que a presença dela por si só já era uma disrupção do perfil estatístico das representações políticas brasileiras: homens brancos. A vereadora que foi a quinta mais votada do Rio de Janeiro era uma mulher preta movendo estruturas. Ela dizia às outras pretas qual o lugar delas de direito. E isso exige coragem.

Nesta semana, no último dia 12, dois suspeitos foram presos acusados de matar a ex-vereadora e o motorista Anderson Gomes. A dois dias de completar um ano da execução, as prisões foram as primeiras respostas de um crime que se mostra cada vez mais complexo de ser solucionado. A quem interessa o silêncio de Marielle? A quem interessa a não elucidação deste caso? No mesmo dia das prisões, em razão da mesma operação, o Brasil registrou a maior apreensão de fuzis desmontados e há também comprovado envolvimento da milícia carioca no crime. Um ano depois da morte, Marielle ainda incomoda.

Em um dos discursos na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, ela prometeu: "Não serei interrompida". E segue cumprindo. Quem mandou matar Marielle, esperava a queda do quilombo, mas como disse Elisa Lucinda em poema de homenagem à cria da Maré: o quilombo não caiu, se fortaleceu. Quem matou Marielle não contou com um grito de uma multidão devastada, mas ávida por justiça. As prisões desta semana são, sim, um começo, mas não podemos falar em resolução. (Eduarda Talicy)

 

Os paradoxos por trás da tragédia de Suzano

Duas casas de uma rua de paralelepípedos em Suzano abrigavam famílias que viviam o luto e o choque de descobrir a vida dupla daqueles que amavam. Luiz, avô de um dos atiradores que causou a morte de 10 pessoas, na maioria estudantes da Escola Estadual Raul Brasil, recostava-se no portão de madeira, já cansado do choro e das horas sem comer. Atendeu repórteres.

O neto tinha sonhos? Uma faculdade, talvez? "Tinha. Ele ia trabalhar com o amigo. Ia fazer o supletivo", contou. Formar-se na universidade não estava nos planos próximos. Não era esse tipo de ambição que tinha. Em contrapartida, o jovem Antonio Cleiton Ribeiro, da mesma idade e tão calado quanto o colega que lhe tirou a vida, era lembrado por todos pelas excelentes notas.

"Desde que eu o conheço, as notas dele são tudo 9 e 10. Não sei o que ele ia fazer no Enem, mas ele ia para faculdade, sim", disse uma colega de sala. "Era ótimo aluno. Não conversava tanto. Mas estudava bastante", disse outro da turma de 3º ano.

Perseguida por repórteres, a mãe do atirador dizia-se incrédula e confusa. Também sem acreditar, a prole de Eliana Xavier, a Tia, querida dos alunos, aguardava o corpo da mãe ser liberado para o velório. A LanHouse, ponto de encontro dos atiradores, era lugar de festa e amizades para vários outros frequentadores. "Aqui eu me sinto bem, feliz. Venho para rir e me divertir com meus amigos. Não é lugar de ódio", descreveu uma jovem cliente. Até lugares mágicos, a própria Terra Média, está sujeita a horrores. Suzano não é diferente. (Isabel Filgueiras)

 

Lucinthya Gomes