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Jornal

E se fosse meu filho?

17/03/2019 02:19:58

O pai se angustia ao ler as notícias sobre o massacre de Suzano. Pensa no próprio filho, um garoto de 14 anos. Não sob a perspectiva das vítimas, mas a do atirador. "Quando começaram a falar de videogame, eu me perguntei: será que, noutras circunstâncias, eu estaria com as mãos sujas de sangue também?", admite.

Não é exercício retórico, o pai realmente se preocupa que a introspecção do filho seja mais que o conflito hormonal típico da idade. A mera hipótese de que o jovem levasse a cabo uma carnificina faz o estômago revirar.

Na quarta-feira passada, à medida que os assassinatos em São Paulo ganhavam repercussão e as histórias dos jovens (um deles de 17 anos) se projetavam como fragmentos de um enredo familiar, ele foi revivendo uma agonia de que vinha tentando se esquivar.

Era 2011, e nos cinemas estreara "Precisamos falar sobre o Kevin", uma adaptação do romance escrito pela norte-americana Lionel Shriver. O livro, que espelha outros eventos trágicos nos Estados Unidos, narra a trajetória de um jovem de 15 anos que chacina 11 colegas de escola.

O filme o marcaria profundamente. Em casa, sempre que o filho manifestasse algum traço de isolamento excessivo ou de inadequação social, como se recusar a ir a uma festa de carnaval ou a um aniversário, o pai se afligia. A pergunta era inevitável: "Será que estou criando um possível Kevin?". Ele não tem resposta.

"É como navegar sem bússola", tenta explicar a mãe de outro rapaz, também de 14 anos. Além da idade, ele partilha algumas características com o filho do pai: o prazer pelo universo dos jogos online, por exemplo, no qual submerge por horas. E certo distanciamento, fator que a preocupa neste momento.

"A aflição é maior ainda porque você tenta avaliar o entorno", diz. "Ambiente familiar, ok; escola, ok; acesso a lazer, ok; diálogo disponível em casa, ok. Mas você olha pro semblante do menino e, em alguns momentos, ele é tão blasé que não parece seu filho", relata.

"Eles não querem os pais, é muito difícil entrar no mundo deles. É porta fechada, na rua não pode fazer gesto de carinho. A gente fica entre a cruz e a espada", complementa o pai, que já procurou ajuda de uma terapeuta. "Estamos tentando. O meu adolescente está numa fase ensimesmada, tem traços de baixa autoestima. Não sei se ele sofre bullying. Ele me dá sinais."

São essas mensagens quase imperceptíveis que outra mãe de adolescente sugere tentar captar. "É aquela pergunta: o que eu posso fazer?". Embora tenha recorrido a tudo - curso de música, atividades coletivas, restrição do uso de celular e contas em redes sociais -, a sensação é de que falta algo.

Quando os crimes de Suzano vieram à tona, a mãe se sentiu acuada. Como se tentasse se assegurar de que empregava todos os recursos a seu alcance, repassou a rotina da família.

E, mais uma vez, colocou-se contra a parede: "Até que ponto eu cuido dos meus filhos, eu amparo as necessidades emocionais deles? Até que ponto sou presente e eles veem em mim a possibilidade de se abrirem?".

Questionada sobre essa autocrítica, ela reconhece: as mães exigem mais de si mesmas do que os pais. Uma tragédia como a desta semana exacerba essa cobrança, patente na cena em que o repórter de TV persegue a mãe do atirador pela rua depois que ela presta depoimento.

À queima-roupa, o jornalista lhe atira: "A senhora se sente culpada?". A mãe, que acabara de receber a notícia de que o filho havia assassinado dez pessoas e depois se matado, permanece calada.

"Isso me leva a refletir sobre o meu papel", avalia mais uma mãe de jovem na mesma faixa etária e com características semelhantes às do agressor de São Paulo (recolhimento, inaptidão social, uso contumaz de jogos violentos e hostilidade).

"Paro para pensar se eu estou prestando atenção no que os meus filhos estão sentindo", reflete a mãe. E, sem que lhe pergunte nada, ela suspira do outro lado da linha antes de desabafar: "Estou muito insegura".

Henrique Araújo

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