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Jornal

A Cadência bonita do samba

|110 anos| Carmen Miranda segue como símbolo de brasilidade e das incongruências de um País que ainda tem questões com sua identidade cultural

10/02/2019 02:03:56
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Convidada para o Rock in Rio Lisboa de 2018, Anitta entrou no palco vestida de Carmen Miranda ao som de Tico-tico no Fubá eletrônico. Já na festa de 500 anos do Brasil, coube a Ivete Sangalo equilibrar um chapéu de frutas na cabeça para cantar O que é que a Baiana tem?. Quatro anos depois, a baiana gravou Chica Chica Boom Chic para um especial da MTV. Na Copa de 1998, Elba Ramalho homenageou o país-sede do evento regravando Paris, de Alcyr Pires Vermelho e Alberto Ribeiro. Esta última contou com a voz de Carmen num dueto póstumo, aproveitando o registro original lançado 60 anos antes para celebrar a participação brasileira na Copa de 1938. E em 1989, Marisa Monte estreou em disco cantando South American Way, um dos clássicos americanizados da "brazilian bombshell".

O fato é que, nos últimos 90 anos, é difícil falar de brasilidade sem citar o nome de Carmen Miranda. É enorme a lista dos que já recorreram ao seu repertório, e inclui nomes como João Gilberto, Elis Regina, Paula Toller, Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso, Eduardo Dusek, Rita Lee e a cearense Lucinha Menezes. Suas cores e balangandãs também ocuparam passarelas e museus, estão eternizadas no cinema, viraram estampa de blusa e ainda são onipresentes no Carnaval. Ahh, o Carnaval... Carmen Miranda era o próprio Brasil fantasiado para o Carnaval.

No entanto, o Brasil de Carmen Miranda é a representação de um país feito de misturas. Em 9 de fevereiro de 1909, nascia Maria do Carmo Miranda da Cunha em Marco de Canaveses, cidade portuguesa localizada a 355 km de Lisboa. Com menos de 1 ano, veio para o Brasil já se instalando na região central do Rio de Janeiro. A menina de olhos acesos, que ganhou do núncio apostólico um beijo na testa depois de recitar uma poesia, nunca escondeu seu talento para as artes. Na adolescência, cantava enquanto trabalhava numa loja de gravatas e também fazia chapéus para madames. Sabedor desses talentos, em 1929, o deputado baiano Aníbal Duarte a levou a um festival no Instituto Nacional de Música, onde ela conheceu o violonista Josué de Barros que se apaixonou por sua simpatia e a levou para gravar um compacto na Brunswick.

O disco demorou tanto, que ela foi levada à RCA Victor, outra gravadora recém-chegada ao Brasil, por onde estreou em 1930 - ao mesmo tempo em que saiu a gravação feita na Brunswick. E foi com a logo do cachorrinho que ela lançou, em 1933, o compacto com Pra Você Gostar de Mim, mais conhecida como Taí. O médico e compositor mineiro Joubert de Carvalho andava pela Rua do Ouvidor quando um amigo o chamou para ouvir o disco de uma jovem cantora. "Eu notei que havia presença no disco", comentou, décadas depois, ele que logo quis compor algo para a dona daquela voz. Pouco tempo depois, Carmen entrou na loja e Joubert ouviu do amigo: "Taí, é ela". Estava dado o mote para a marchinha que se tornou uma epidemia no País e levou Carmen à imortalidade.

Continua na página 36

Marcos Sampaio

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