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Entrevista. Gigante pela própria natureza

TADEU FEITOSA | É preciso educar para a cultura, orienta o especialista e professor da Universidade Federal do Ceará. Só o conhecimento é capaz de extrair o valor de todas as coisas

00:00 | 09/12/2018

A cultura nacional sempre foi apedrejada, desde que o Brasil é Brasil, traça o professor Tadeu Feitosa, do curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Ceará e uma das referências nos estudos de cultura e mídia: “No Brasil, toda a sua trajetória histórica apresenta vários períodos em que os sistemas políticos e ideológicos tratam a cultura como coisa de menor valor, como se isso fosse possível”. Mas não é possível, ele demonstra, nesta entrevista por e-mail. A cultura se reinventa, renasce das pedras, nas gentes e nos cotidianos. “Sua essência está em nós, nas nossas capacidades mágico-míticas de criar, de fazer acontecer, de se rebelar. Ao apedrejar nossa cultura é a nós mesmos que apedrejamos”, espelha o professor.

OP - Por que ainda não conseguimos dar o devido valor à nossa cultura?

Tadeu Feitosa - Enquanto a Antropologia e os Estudos Culturais compreendem a cultura como um poderoso e importante processo de tear de significados, quando o ser humano lança mão das suas capacidades criativo-imaginativas para a construção dos sentidos para a nossa vida, no Brasil, toda a sua trajetória histórica apresenta vários períodos em que os sistemas políticos e ideológicos tratam a cultura como coisa de menor valor, como se isso fosse possível. Quer na apropriação do território brasileiro pela cultura invasora dos descobridores, quer pelos penosos processos de negação das culturas étnicas locais, passando pelos processos de escravidão e de catequização no Brasil colônia até o período republicano, a cultura nacional sempre foi aviltada. É ainda recente na memória nacional o sentimento de perseguição cultural imposto pelos períodos ditatoriais. Em todos os processos, a cultura brasileira sofreu. No entanto, a Cultura como a complexidade de sentidos tecidos pelos mais diversos imaginários e cotidianos é infinitamente maior do que as culturas políticas e ideológicas que tentam transformar a cultura numa coisa singular, quando, na verdade, a cultura é plural.

Mesmo nos tempos horrendos da ditadura militar, as diversas manifestações culturais brasileiras se reinventavam. Porque a cultura é exatamente o processo pelo o homem coloca o “algo” onde antes imperava o “nada”. Dos imaginários às manifestações das tradições; dos valores aos hábitos e maneiras culturais; das memórias e patrimônios materiais e imateriais, dos diversos cotidianos culturais, tecidos, recriados, reinventados, o que temos é sempre a pujança da cultura, que não se verga, mesmo sendo brutalmente atentada. Há as culturas e elas são bem maiores do que os golpes que sofrem. O entendimento da complexidade cultural brasileira passa pela Educação, mas, principalmente, pelos cotidianos das gentes que se reinventam o tempo todo em suas táticas e estratégias diárias. A cultura não é o conteúdo de um pote, rotulado e exposto à venda. Sua essência está em nós, nas nossas capacidades mágico-míticas de criar, de fazer acontecer, de se rebelar. Ao apedrejar nossa cultura é a nós mesmos que apedrejamos.


OP -
Quais os valores da cultura, para um país como o nosso?

Tadeu - Mesmo nas menores etnias o que impera culturalmente é sua complexidade. Num país continental como o Brasil, isso se agiganta. A pluralidade de línguas e falas do Brasil, as diversas sonoridades de seus sotaques e a complexa partitura de seus sons, ritmos e frequências formam um dos seus muitos patrimônios culturais. A cultura brasileira é rica e importante pela complexidade dos seus sabores, seus gostos, seus cheiros e o multicolorido de seus pratos, da sua culinária e seus simbolismos. Por eles, somos apresentados às nossas tradições, às riquezas das nossas memórias e patrimônio. Uma culinária híbrida, resultado de muitas trocas culturais, muitas tessituras e de cujos sabores e cheiros somos apresentados às narrativas de nossa cultura, de nossos cotidianos, de nossas gentes e de tudo o que se trocou com as culturas várias. Os valores culturais do Brasil passam pelos seus símbolos e simbolismos presentes nas suas narrativas míticas, nas suas lendas e tradições, no patrimônio das suas oralidades, dos sons mágicos de suas violas, berimbaus, rabecas e toda sorte de instrumentos musicais e de percussão. Essa complexa teia de sentidos é o que nos faz cultura. E isso é tanto uma riqueza simbólica – porquanto traduz o que somos em valores, em éticas, em essência – como produz também riqueza material. Desejando se lançar ao infinito, em veios criativo-imaginativos de cultura, esses símbolos e seus simbolismos reclamam se materializar em práticas de outras modalidades de trocas. Assim é que a cultura também vira produto cultural, por mais controversa que seja a chamada indústria cultural. Assim, o que é criado culturalmente pelos imaginários, são traduzidos e atualizados pelas memórias, são difundidos pelas tradições, estimulam novos cotidianos e viram também valores econômicos. Essa é a dinâmica da cultura, que não perde seu valor simbólico simplesmente porque também pode e deve ter seu valor comercial.      

OP - Que mudanças seriam necessárias para o aprimoramento dos incentivos públicos à cultura de um país tão diverso e grande como o Brasil?

Tadeu - A cultura, no singular, precisa ser lida com os olhos da cultura no plural. Cultura nem é favor e nem obrigação. Ela simplesmente é. E se manifesta de modo muito mais complexo do que eu tentei sintetizar. Logo, deve-se desconfiar daqueles que pensam a cultura como uma coisa, como algo pronto, acabado. Cultura é processo, é sentido, é significação. Isso é intangível, mas é o que nos alimenta e do que necessitamos. Se é a natureza biológica que nos explica como corpo, é a cultura que nos explica e nos alimenta a alma. Dessa forma, tudo o que se produz de textos culturais (cinema, fotografia, teatro, música, literatura, artes em geral), sendo estes produtos da nossa cultura e extensão dela, precisa se prolongar. Precisa sair do imaginário e ser postos ao diálogo com os cotidianos, sempre em mutação. Tradição, imaginário, memória, identidade e os demais aspectos da Cultura precisam ser anunciados, difundidos, noticiados, postos aos diálogos com os nossos tempos. Uma cultura que não se ritualiza, morre. É preciso rememorar, criar veios de novas ações culturais. Faz-se necessário levar os produtos culturais (os materiais e o imateriais) para as ruas, para as escolas, para as praças e cantos do mundo. Isso não apenas gera renda, mas alimenta imaginários muito mais do que contas bancárias de seus produtores. Por conta dos fundamentalismos toscos, míopes e irresponsáveis – mas também de uma falta de educação e de informação das pessoas – está em curso uma caça às bruxas. A Lei Rouanet, por exemplo, por mais aprimoramento que ela deva ter para ir se amoldando às novas realidades culturais do Brasil, não é um favor, mas uma obrigação do Estado. A cultura gera produtores culturais, artistas e espectadores. Suas produções precisam existir e os governos ganham com elas, porque os espetáculos orientam, informam, educam, mostram as complexidades humanas, histórias, artísticas e culturais para além do que prega o senso comum ou as orientações políticas e ideológicas rasteiras, conservadoras e pautadas em falsos moralismos. O caminho mais curto – que também é o mais urgente – é o da educação. Mas uma educação inclusiva, livre, libertária, democrática e dialógica com os ambientes e as ambiências das culturas, com suas diversidades e pluralidade.

ANA MARY C. CAVALCANTE

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