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"A escola brasileira não tem nada de freiriana", avalia professor

| PEDAGOGIA | Um dos autores mais importantes do País, o pedagogo e escritor pernambucano Paulo Freire virou alvo de investidas como o projeto "Escola sem Partido"

20/06/2019 13:15:13

Educador brasileiro, Paulo Freire (1921-1997) se tornou alvo prioritário de apoiadores do projeto "Escola sem Partido", cujo objetivo é evitar o que chamam de "doutrinação marxista" em sala de aula.

Pedagogo nascido no Recife, Freire é autor de obra internacionalmente reconhecida e uma das referências em estudos sobre a formação de estudantes.

Entre seus livros mais famosos, está Pedagogia do oprimido, no qual formula um modelo educacional crítico e não baseado na aquisição maquinal de conteúdos.

Especialista no autor, o estudioso Enéas Arraes afirma que "a escola brasileira não tem nada de 'freiriana'", porém.

Professor da Universidade Federal do Ceará e no Instituto Federal de Educação do Ceará (IFCE), Arraes avalia que nossas instituições de ensino médio e mesmo as de educação superior "ainda são muito tradicionais e centradas na pedagogia bancária", um dos pontos mais combatidos no sistema "freiriano".

"Nossa escola tem características de uma escola capitalista normal, avançada, pós-1990, inspirada no modelo europeu", acrescenta. "É uma escola com ênfase maior na diversidade. É essa escola que as pessoas estão questionando. Mas é uma escola burguesa."

Questionado sobre a razão pela qual o pedagogo acabou se tornando o epicentro de uma onda conservadora, o docente responde que esses ataques "têm a ver com a construção imaginária, a partir de mentiras e falsas imagens".

Segundo Arraes, a grande massa dos professores não opera com nenhum viés ideológico em sala de aula. "A maioria até trabalha com a perspectiva de repassadores de conteúdos."

Professora do curso de Pedagogia da UFC, Heulália Rafante assegura que não é a primeira vez que Freire é foco dessas investidas conservadoras.

"Por desconhecimento, muitas pessoas não aprofundam suas ideias e reproduzem isso ao demonizar um dos autores sobre educação mais lidos e respeitados mundialmente", afirma.

"A perspectiva da proposta pedagógica do Paulo Freire é partir da prática social do sujeito e buscar a superação da situação do oprimido", explica Heulália. "A proposta dele coloca o educando como sujeito histórico."

Para a pedagoga, é essa base conceitual que torna o trabalho de Freire tão incômodo. "Por isso o projeto dele foi substituído pelo Mobral durante a ditadura", conclui. (Henrique Araújo)

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