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Ódio político e a crise nas famílias

|Diálogos| O acirramento dos debates alcançou espaços virtuais de convivência entre parentes. Há caminhos para conviver nas redes sociais e fora delas

00:00 | 14/10/2018

De repente o celular dispara, com notificação após notificação anunciando novos lances de uma acalorada disputa. Embates políticos transformam grupos de família no Whatsapp e linhas do tempo do Facebook frequentadas por parentes em zonas de conflitos que podem alcançar grandes dimensões.

Contagiadas pelo acirramento do processo eleitoral, as discussões entre familiares nas redes sociais estão indo além do desgaste momentâneo, esgarçando fortes vínculos e acarretando afastamentos por vezes considerados definitivos. Diante do cenário conflituoso, psicólogos fazem recomendações para evitar que enfrentamentos ultrapassem limites e indicam: há diálogos possíveis.

Professora de Psicologia, Susana Kramer, que é coordenadora do Laboratório de Relações Interpessoais (Labri) da UFC, explica que as famílias, as redes sociais e a organização política institucional são três espaços sociais com modos de organização específicos que se influenciam. Por ser construída por pessoas de diferentes gêneros e gerações, a família é o lugar de maior diversidade que o indivíduo pode encontrar em um primeiro momento da vida.

 

As incompatibilidades entre familiares podem ser reforçadas quando as interações acontecem no ambiente virtual, o que pode destacar atritos. "As redes sociais são espaços sociais que reforçam a diferenciação e não o pertencimento". Este aumento de contrastes está relacionado à falta de percepção do outro: "Não dá pra saber como está chegando a expressão individual", afirma Kramer, acrescentando que os vínculos familiares profundos são construídos no convívio fora das redes sociais virtuais, que apenas podem contribuir para dinamizá-los.

Estendido para as redes sociais, o contato com parentes que não fazem parte do núcleo familiar se tornou mais frequente, com mais espaço de amorosidade, mas também de conflito, avalia o professor José Olinda Braga, coordenador do Núcleo de Psicologia Clínica (Nuplic) da UFC. "Dá a impressão que a coisa entrou em um nível caótico, mas é apenas uma visão mais alargada do que sempre aconteceu em algo mais privado."

Para Olinda, além de ter aumentado, o universo de discussão da família também está mais tomado por debates morais. Associado a esse contexto, o clima inflamado do processo eleitoral tem contribuído para que as pessoas expressem opiniões e valores que estiveram calados por muito tempo.

Os ambientes virtuais têm características que facilitam esse processo de manifestação do que estava silenciado, segundo Olinda. "Nas redes sociais a gente fica protegido, eu posso dizer o que quiser de você, de bem ou de mal, eu não estou vendo o seu rosto me dizendo alguma coisa, se concorda ou discorda, e aí fico livre pra dizer o que quiser".

Entre os caminhos possíveis para lidar com esses momentos de crise, está o da dialogicidade. "Eu quero ouvir tudo o que você tem a me dizer, mesmo que me doa. Eu vou entender que você vai falar de um lugar diferente do meu",explica Olinda, acrescentando que nessas ocasiões é importante tentar se colocar no lugar do outro, ter mais empatia.

Segundo o psicólogo, haverá certamente o tempo das pessoas se agregarem novamente. "Mas aí já em outro patamar, a gente poderá ter passado um momento em que já sabemos quem é quem, em que a gente já tenha coragem de desvelar as nossas diferenças, dizendo exatamente quais são nossos valores, nossos sentimentos". O desenvolvimento da habilidade para lidar com as diferenças nas relações com familiares em redes sociais também tende a melhorar a organização social brasileira.

"A gente pode aprender com o equilíbrio de forças na família a pensar um pouco sobre o que está acontecendo no País," diz Suzana Kramer, lembrando que "a democracia é um espaço de combinação de forças diferentes".