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NORDESTE SEMPRE FOI TERRA DE CONTESTAÇÃO

Votando diferente das demais regiões do País, o Nordeste, mais uma vez, foi alvo de declarações xenófobas nas redes sociais

19/05/2019 15:50:32
FORTALEZA, CE, BRASIL, 26-03-2015: Airton de Farias, professor. Projeto Fundação Demócrito Rocha - Aniversário de Fortaleza. (Foto: Rodrigo Carvalho/O POVO)
FORTALEZA, CE, BRASIL, 26-03-2015: Airton de Farias, professor. Projeto Fundação Demócrito Rocha - Aniversário de Fortaleza. (Foto: Rodrigo Carvalho/O POVO) (Foto: RODRIGO CARVALHO / 23/6/2005)

No domingo da semana passada, Jair Bolsonaro (PSL) conseguiu passar para o segundo turno da eleição presidencial com a maior votação, vencendo nas regiões Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Em segundo lugar, Fernando Haddad (PT) avançou vencendo apenas na região Nordeste.

No mesmo dia, repetindo o que já havia acontecido nas eleições presidenciais anteriores, uma avalanche de declarações preconceituosas contra nordestinos alastrou-se pelas redes sociais, o que acaba ajudando no empobrecimento do debate político nacional.

O historiador Airton de Farias, em entrevista ao O POVO, comenta os ataques aos nordestinos pelas redes sociais na última semana e o protagonismo que a região acaba por experimentar na eleição, passando a fazer parte das prioridades estratégicas dos candidatos envolvidos com a segunda fase do processo, que terá votação no próximo dia 28.

OPOVO: O que significa a vitória
do PT no Nordeste em meio à onda
Bolsonaro em todo o País?

Airton de Farias: A região já dava em outras eleições uma votação expressiva ao Lula, mesmo com essa problemática de escândalos de corrupção (nos governos petistas). (A fidelidade) mostrou de novo que o lulismo tem grande influência no Nordeste. Podemos fazer várias análises desse cenário. A questão do Bolsa Família, que é importante, mas não apenas pelo aspecto financeiro, mas de quebrar uma certa dependência que havia, em outros governos, ao chefe local. Só tinha acesso à comida se fosse compactar com o prefeito ou deputado, e o dinheiro agora está indo diretamente (para a população mais pobre). Isso gera autonomia para as pessoas mais humildes, que não precisam mais se submeter ao chefe. Tem a questão das obras estruturais, sobretudo a transposição do São Francisco, sonho de gerações, desde o Império que era falado. É óbvio que tem vários problemas, de não beneficiar os produtores pequenos, por exemplo, mas é uma obra que está muito associada à imagem do Lula. A região teve, nos últimos anos, um grande crescimento de institutos federais, de universidades, mesmo em áreas rurais, em cidades do interior do Nordeste.

OP: Esse eleitor tem votado diferente
do restante das regiões nos últimos
pleitos presidenciais.

Airton de Farias: O Nordeste é um espaço para a contestação, para a crítica. Isso tem um aspecto a se destacar. Há um certo orgulho da nordestinidade impressa no cordel, na literatura, um certo orgulho regionalista, uma região que historicamente teve muitos embates, como a Confederação do Equador, a Revolução Praieira, o Cangaço. É uma região que tem histórico de muita contestação. É quase um contraponto, faz uma resistência à onda conservadora, aos valores mais tradicionais. Não é de hoje que é uma região questionadora. Há décadas, séculos já se mostrava como uma resistência.

OP: O que diverge o eleitorado do Nordeste com o das demais regiões do País?

Airton de Farias: (Não há diferença), mas vários aspectos pesam, não há um fato único. Tem fatores macros (para a decisão do voto). O fato de os candidatos não terem um discurso voltado para o Nordeste, para as questões como a convivência com a seca, a questão do turismo Ninguém falou diretamente com o eleitor, então ele ficou conservador de manter o voto anterior. As propostas para a região não surtiram efeito ou sequer existiram, ou seja, não houve atenção, e ali não teve muita repercussão. Na eleição tem vários elementos que estão presentes, e, como o Lula foi muito importante, é claro que as pessoas lembram, com o saudosismo do passado.

OP: O que faltou para os candidatos adversários do PT tomarem
o protagonismo no Nordeste?

Airton de Farias: Há uma certa incompreensão do Nordeste. Bolsonaro falou em dar um décimo terceiro para o Bolsa Família. Está dizendo que o povo está votando no PT por causa do Bolsa Família. Há uma grande incompreensão dos aspectos e diferenças regionais. No Nordeste a questão da indústria, que é algo muito importante, os incentivos fiscais, ninguém falou sobre isso. Para o Ceará foi um modelo muito importante, industrializou-se com esse modelo. A questão do turismo, faltou Como o Nordeste já tinha uma tradição de Lula, manteve.

OP: Há um aceno do candidato Bolsonaro para a região logo após o resultado das urnas indicar um segundo turno. Foi a única região na qual ele saiu derrotado.

Airton de Farias: Bolsonaro teve uma votação expressiva em Fortaleza, ficando à frente do Haddad. Ele vai tentar penetrar. Mas, de novo, peca por uma incompreensão no aspecto de que o nordestino está votando pelo Bolsa Família. Tem uma questão muito mais interessante que poderia ser abordada de outra maneira. Fazer essa proposta do Bolsa Família é ofender as pessoas, é como se fosse dar uma "esmola" a mais para ver se consegue o apoio das pessoas. Há uma incompreensão das pessoas e da região. (Não se questiona) o que o nordeste quer nem o que os nordestinos desejam.

OP: O fato é que, novamente, declarações preconceituosas tomaram a internet após o encerramento do primeiro turno...

Airton de Farias: Em geral, em todos os locais do mundo, essas disparidades regionais e econômicas passam por preconceitos e estereótipos. Essas manifestações na verdade encontram-se presentes no modo de falar, é o "paraíba", falando que o pessoal passa fome, que come cobra, que come rato... E quando você tem esses embates políticos, ou no esporte, como no futebol, eles acabam sendo expostos e as máscaras caem. Mas do mesmo modo que houve preconceito, houve também muita gente elogiando que o Nordeste teria salvado o Brasil do fascismo. Isso expõe também a questão do regionalismo.

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