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O voto centenário que resiste ao desânimo

| eleitor| Raimundo Felício, aposentado de 106 anos, já avisou que quer votar no dia 7 de outubro. Não é obrigado, mas faz questão

00:00 | 23/09/2018

fotos Aurélio Alves
fotos Aurélio Alves
 

O esforço é comovente, até, diante do quadro de desânimo que toma de conta do eleitor brasileiro em relação ao que acontece em 2018, em termos de cenário da política. Raimundo Felício Neto, um advogado aposentado de 106 anos, procura dar firmeza à voz, que, mesmo assim, sai quase em forma de balbucio, para confirmar que estará em sua seção eleitoral no próximo dia 7 de outubro. "Vou, se puder vou", responde à pergunta feita pelo O POVO na abertura de uma conversa que se dava no final de uma tarde de quinta-feira, na sala de seu espaço e confortável apartamento na orla marítima de Fortaleza.

 

Um atento observador do cenário da política, o "doutor Felício" adianta que seu voto permanecia indefinido até aquele momento. "Estou vendo mais dos candidatos", explica, com a experiência de quem já viu passar diante de si muitas campanhas, muitos discursos e, mais do que nunca, sabe da importância de pensar bastante antes de fazer a escolha final. Sua avaliação sobre o momento contempla, de uma parte, uma grande decepção com "a falta de honestidade que caracteriza hoje boa parte da classe política" e, de outra, um contido entusiasmo pelos instrumentos de que dispõe o cidadão para se manter informado. "É televisão, internet, muita coisa..", lista, procurando demonstrar-se atualizado com o momento, mesmo tanto depois de nascido.

 

O aposentado fez parte da primeira turma de funcionários do antigo Conselho de Contas dos Municípios (CCM), depois transformado em Tribunal (TCM) e mais recentemente, extinto e absorvido pelo TCE. "Não deviam ter feito isso", lamenta o advogado, que mantém lembranças de como eram as coisas quando atuava no órgão fiscalizando prefeituras. Garante que não havia pressão política sobre os servidores na época, mas, nesse ponto, pode ter sido traído por uma memória que, naturalmente, já não consegue ser tão precisa na recuperação de como as coisas funcionavam em tempos tão remotos.

 

Provocado a lembrar um político que lhe marcou, consideradas as qualidades de homem público que apresentava, destaca, quase que incontinente, o nome de Raul Barbosa. Ex-governador do Ceará, ex-deputado federal, ex-presidente do Banco do Nordeste e, além de tudo isso, um "amigo pessoal" que permanece como referência de político. "Era tudo diferente", permite-se, avaliando que as coisas já não são mais como antes: "é muita roubalheira, pouca honestidade".

 

Um aspecto interessante extraído da longa conversa com o centenário eleitor cearense é que ele, apesar das comparações que parecem fazer o passado (especialmente aquele mais distante) sempre melhor que o presente, evita um saudosismo extremado. Até considera, como está reforçado em trecho anterior, que os dias atuais apresentam algumas condições novas que os cidadãos deveriam aproveitar mais em favor da própria sociedade, citando a forma democrática como a informação circula atualmente.

 

Suas conversas sobre política saem mais fluentes nas rodas de conversa da Praça do Ferreira, das quais se encontra afastado ultimamente, mas que ainda pretende retomar tão logo as condições permitam. "Durante anos estive lá todo dia, às 16 horas, para falar de política, fofocar. Há também aquelas discussões sobre futebol, mas destas não participo. Não gosto (de futebol)", informa.

 

Outra rotina diária de alguns anos atrás até os 104 de idade, pelo menos , o cooper matinal na Beira Mar, também encontra-se suspensa. No que depender da vontade dele também será retomada, mesmo que esta hipótese já seja colocada em tom bem menos otimista e seguro, especialmente porque lá construiu amizades e, na verdade, foi onde começou a ganhar um status de pessoa pública em Fortaleza. Doutor Felício foi, nos últimos anos, personagem de um bom número de matérias jornalísticas em veículos cearenses de informação. Ei-lo de novo, hoje, com sua história de perseverança, mostrando-se aos conterrâneos cearenses como um exemplo.

 

Perfil

 

Raimundo Felício Neto nasceu em 1º de março de 1912. É viúvo, pai de 5 filhos (mais um que perdeu), tem 17 netos e 17 bisnetos. Nasceu em Ipu, foi criado no Crato e vive em Fortaleza desde os 18 anos. Bacharel pela Universidade Federal do Ceará (UFC), atuou no direito de família e também nos quadros do extinto Conselho de Contas dos Municípios.

 

Frase

 

Durante anos estive lá (na Praça do Ferreira) todo dia, às 16 horas, para falar de política, fofocar. Há também aquelas discussões sobre futebol, mas destas não participo. Não gosto (de futebo 

 

Histórico 

 

Raimundo Felício Neto nasceu em 1º de março de 1912. É viúvo, pai de 5 filhos (mais um que perdeu), tem 17 netos e 17 bisnetos. Nasceu em Ipu, foi criado no Crato e vive em Fortaleza desde os 18 anos. Bacharel pela Universidade Federal do Ceará (UFC), atuou no Direito de Família e também nos quadros do extinto Conselho de Contas dos Municípios.

GUALTER GEORGE