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Tati Andrade. Violência impacta na mortalidade infantil

A médica pediatra Tati Andrade, 58, é especialista em programas do Unicef e integrou um dos maiores programas de combate à mortalidade infantil do Brasil no Ceará

00:00 | 22/07/2018

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Tema que voltou às manchetes nacionais, o crescimento da mortalidade infantil depois de 26 anos traz à tona discussões sobre os caminhos da saúde brasileira. Para Tati Andrade, 58, a redução desses índices passa, antes de tudo, por decisão política pautada no compromisso e na vontade de transformar esta realidade social. Foi com este pensamento que a pediatra e especialista em programas do Unicef, integrou no fim dos anos 1990, ao lado da pediatra Anamaria Cavalcante e do então secretário estadual da saúde, Carlile Lavor, um projeto que transformaria o cenário de saúde e de sobrevivência das crianças cearenses: o Viva Criança. O programa engajou comunidades, famílias, setores privados e governamentais no combate à mortalidade infantil e rendeu ao Ceará, em 1993, o prêmio anual Maurice Pate. Fora esta a primeira vez que o prêmio foi atribuído não a uma pessoa ou a uma organização, mas a um Estado. Tati acredita que o desenvolvimento social de uma comunidade perpassa pela saúde e pelos direitos das crianças, e carrega como lema a poesia da ativista chilena Gabriela Mistral: “A ela (à criança) não podemos responder “amanhã”, Seu nome é hoje”.

 

O POVO - Quais eram as principais causas de mortalidade infantil na década de 1980?

Tati Andrade - Para que a gente possa entender as causas da mortalidade infantil e as intervenções para reduzir esses índices, precisamos saber o que contribui para esse cenário. A gente pode começar com fatores mais gerais, como nível de escolaridade da mãe, a questão de saneamento básico e eu associaria a própria questão de higiene. Uma família que mora num local mais insalubre, mas é muito cuidadosa, cobre as coisas das moscas, ferve a água, tem certos cuidados que ela compensa. Há ainda a renda da família, que tanto tem impacto direto no estado nutricional que é outro fator de risco. A questão da assistência à saúde, o acesso que a família tem, a qualidade desse acesso, a distância da residência da família para unidade de saúde. Hoje, vivenciamos uma situação gravíssima, algumas famílias não podem vacinar as crianças em outro bairro por causa da briga de facções ou uma mulher grávida não pode fazer o pré-natal porque não pode ultrapassar determinado território. Então o que aconteceu em 1987, eu me remeteria a 1986. A maioria das mortes era pós-neonatais que era aquelas mortes causadas por diarreia, pneumonia a própria desnutrição como fator básico. Naquela época, e que posso dizer como testemunha porque eu era do Albert Sabin, a gente tinha muitas crianças com sarampo, difteria, coqueluche, poliomielite, criança com tétano e sífilis.


O POVO -E qual foi a estratégia?

Tati - Em 1987, a Dra Anamaria Cavalcante mobilizou o governo sobre a questão da mortalidade infantil e começamos o programa Viva Criança, da Secretaria da Saúde. Começamos por uma grande pesquisa sobre quais causas da mortalidade infantil, foi justamente quando o Governo do Estado pediu para abrir a presença do Unicef no Ceará. O Carlile Lavor, então secretário de saúde, propôs que a principal estratégia fosse o agente de saúde. Não tinha o SUS naquela época. Em muitos municípios, não tinha nem a secretaria de saúde, não tinham médicos, precisava de estratégias de atenção primária para todas as comunidades. O que o agente faria? Trabalharia em questões de saúde bem básicas como higiene, tratamento da água com cloro aleitamento materno, que é uma super estratégia para reduzir a mortalidade infantil, o soro oral, fosse o caseiro preparado com açúcar e sal da casa, ou fosse o do pacotinho que foi amplamente distribuído. Havia mobilização para as pessoas irem se vacinar. O Ceará na época era um dos estados com piores índices vacinais, hoje é um exemplo no Brasil. Então, o agente orientaria a gestante para que ela fizesse pré-natal, e essa estratégia toda era baseada em uma proposta que o Unicef tinha que era a revolução pela sobrevivência infantil. Depois, em 1994, o Estado liderou as ações da implantação da estratégia Saúde da Família, quando entrou a equipe saúde da família com médico, enfermeiro, isso teve um impacto grande porque o agente resolvia uma morte por dia, ajudava a evitar a diarreia, mas tinha muita coisa que ficava limitada pela falta dos outros profissionais. Nessa época o Unicef tinha confirmado que o agente de saúde tinha impactado na redução da mortalidade, porque a mesma pesquisa de 1987 foi feita em 1990 e demonstrou a redução. Foi isso o que gerou o prêmio que o Unicef deu ao povo do Ceará (Maurice Pate.). Em todo esse processo, o Ceará foi melhorando muito o sistema de saúde, a implantação das secretarias da saúde e com as microrregiões de saúde. O Ceará tem tido uma liderança muito grande nas estratégias do SUS.

 

O POVO - E em relação a esses conflitos de territórios, temos saída?

Tati - Tem que admitir que é uma situação muito grave. Eu apelaria para as lideranças de associações comunitárias de bairros, algo como negociar uma trégua para essas vacinações. Acho que as lideranças comunitárias podem tentar dialogar com as pessoas que causam essa situação para respeitarem. A gente fica preocupada porque sabe que há um risco que precisa ser avaliado e considerado. Mas pelas crianças, vale.

 

O POVO - Há um perfil das crianças acometidas pela mortalidade?

Tati - Há uma preocupação com crianças negras e crianças indígenas. A gente tem vários fatores. Por exemplo, quanto menor a renda da família, quanto menor a escolaridade da mãe, maior risco de mortes. Então há uma preocupação bem maior com as crianças indígenas, principalmente dos grupos mais isolados

 

O POVO - A que a senhora atribui a volta do crescimento da mortalidade infantil?

Tati - Eu tenho dialogado e converso muito com pediatras do Ceará, pediatras independentes fazem uma avaliação muito neutra. Acham realmente que a seca dos últimos anos contribuiu, a crise econômica que afetou o Brasil inteiro, aumento de famílias que tinham plano de saúde e agora estão procurando o SUS. O problema de qualidade da assistência de saúde, que poderia evitar muitos casos que já chegam graves no hospital. A própria carência - a gente ainda continua lutando por leitos- tanto pediátricos como de UTI neonatal. Essa questão precisa ser resolvida urgentemente. Elas exigem investimento não só tecnológico, mas de profissionais especializados. A qualidade de pré-natal, apesar de 95 a 98% das mulheres fazerem o pré-natal, é ruim e a gente vê pelos resultados de doenças que poderiam ser tratadas no pré-natal. O Bolsa Família tem vários estudos também que mostram que contribuiu muito. Esses programas, por mais que a gente alerte que não podem gerar dependência, que têm que empoderar as famílias, promover o desenvolvimento das famílias para que não necessitem dessa ajuda, mas realmente vários estudos têm mostrado isso.

 

O POVO - E a zika? A senhora reconhece esse impacto?

Tati - A epidemia de zika pode até ter tido alguma contribuição, mas como a gente viu que tem uma aumento dessas mortes pós-neonatais, porque tudo bem que algumas crianças nasceram com alguns problemas e morreram depois de um mês, mas muitas dessas crianças tinham anomalias mais graves e morreram no período neonatal , mas a gente precisa avaliar melhor porque me parece que teve inclusive uma repercussão no número de nascimentos. Mas a gente não quer atribuir o aumento da mortalidade com a redução de nascimentos, porque eu vou calcular sempre em cima de cada mil nascidos vivos. Eu acho que realmente é necessário fazer um grande investimento na melhoria do sistema de saúde. Além de todos os fatores estruturantes, de renda, de saneamento, questão de educação da mãe, e principalmente melhorar assistência e a resolutividade do serviço de saúde. As intervenções que podem reduzir a mortalidade infantil dependem, como em muitas outras questões sociais, da decisão política - e aí eu separo decisões de compromisso, e de vontade, às vezes tem vontade, mas não assume o compromisso e não toma decisão, são níveis diferentes desse processo de tomar uma iniciativa, - é necessária a decisão política para realmente fazer algo concreto por aquele grupo.

 

O POVO - A senhora falou do Bolsa Família e dos programas de saúde, a redução desses programas pode gerar mais impactos?

Tati - Eu acho que esses resultados ainda vêm. Aqui estamos analisando os dados de 2016 e eles são consequência do que aconteceu em 2014 e 2015. As medidas que foram tomadas em 2016 e 2017 devem ter impacto nos anos seguintes. O que vamos estar sempre reivindicando - que é o papel da Unicef, o papel da Sociedades de Pediatria, do Ministério Público, dos Conselhos de Direitos da Criança - é que a criança e adolescente sejam prioridades. Isso quer dizer que o recurso que existe tem que ser investido prioritariamente nessas duas populações. Não adianta dizer que não está tendo investimento na criança e no adolescente porque o município ou o estado estão com poucos recursos, a gente entende a redução de transferências, mas quanto maior a crise mais a criança e adolescente e precisam ser prioridades porque são eles os que mais sofrem.

 

EDUARDA TALICY

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