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Bráulio Bessa. "Beber da fonte que me alimenta"

| LITERATURA | Nascido em Alto Santo, distante 247 quilômetros de Fortaleza, o poeta encara a cultura nordestina como missão. Ele lança seu novo livro, Poesia Que Transforma, pela Editora Sextante

00:00 | 22/07/2018

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Bráulio Bessa é um menino de Alto Santo. Aos 14 anos, na escola, recebeu a tarefa de fazer um trabalho sobre a obra de Patativa do Assaré. Voltou para a sala de aula no outro dia afirmando que viveria de poesia. E assim aconteceu. Hoje, aos 32 anos, ele tem participação semanal no programa global Encontro com Fátima Bernades; agenda lotada de seminários, feiras, workshops e palestras; visibilidade de seus vídeos e conteúdos na internet; e seus livros de poesia são sucessos editoriais. O caminho do jovem – que chegou a cursar Análise de Sistema, mas largou a graduação no último semestre – envolveu uma série de tacadas de sorte, e outras tantas de trabalho árduo. Da página Nação Nordestina, onde posta conteúdo alusivo à cultura e à arte regional, partiu para o sofá de Fátima Bernades. Lugar nobre que lhe rendeu visibilidade. Mas é no contato com as pessoas, nas ruas e nas palestras, que ele mais sente o quanto a arte tem poder transformador. Levar a cultura nordestina, explica Bráulio, é uma missão que ele não nega. Seu livro mais recente, Poesia Que Transforma (Editora Sextante), será lançado na Bienal do Livro de São Paulo, em agosto. Em uma parada na varanda de um hotel, o poeta conversou com O POVO sobre a importância da escola, a valorização da cultura cearense e o futuro. Dentro da rotina atribulada, que envolve várias viagens a cada semana, há o tempo sagrado de voltar para Alto Santo: “beber da fonte que me alimenta”.

O POVO - Que lembranças você tem dos contatos com poesia popular em Alto Santo?

Bráulio Bessa - Eu tive meu primeiro contato com a poesia aos 14 anos de idade na sala de aula. Eu não tinha interesse ou relação com cultura, arte ou poesia. Foi um contato através de um trabalho de escola sobre a obra de Patativa do Assaré. Aí sim. Naquele momento fiquei encantado pelo poder da palavra, encantado pelas possibilidades que aquilo ali apresenta. Tudo aquilo se apresentou na minha frente e poder falar de sentimentos, de amor, de saudade, de paixão. Mas também falar de problemas sociais, de desigualdades, da problemática da seca e da fome. E defender um povo. Botei na cabeça que queria ser poeta. Quero fazer isso também! E tive a sensibilidade de entender que a minha vida estava sendo transformada ali, mesmo muito menino, mas um moleque com 14 anos de idade que de repente passa a ter um sonho de ser escritor e de alguma forma transformar a vida das pessoas através de poesia é algo muito forte. E eu uni essas forças naquele momento. E aí sim. Vem essa coisa de “se a poesia de Patativa do Assaré foi capaz de me transformar, por que a minha um dia não pode transformar outro moleque de 14 anos de idade?”. E cresci escrevendo com esse pensamento. Eu escrevo para um dia minha arte também transformar alguém.

O POVO - Mas, à época, você chegou a ficar chateado pois um colega faria o trabalho sobre Carlos Drummond de Andrade. Acredita que existe um apego aos autores clássicos e ao cânone já estabelecido, esquecendo nossos poetas populares?

Bráulio Bessa – É pura desinformação. Eu até brinco com essa história. O professor passou entregando nomes de vários escritores brasileiros para cada aluno fazer a pesquisa. E eu nunca tinha tido contato com a obra de Patativa do Assaré. Mas meu colega do lado pegou aquele nome “Carlos Drummond de Andrade”. Já fiquei com inveja dele. Para mim, Carlos Drummond de Andrade era famoso e importante. E Patativa, não. Eu nunca tinha ouvido falar. E aí vem essa importância de aproximar a criança e o jovem dos poetas populares. No livro eu digo isso: quem quiser seu Carlos Drummond de Andrade pode ficar, que aqui a gente tem um poeta tão grande quanto, gigante e inspirador, o Patativa do Assaré. Acho que é exatamente isso que acontece. É difícil você cobrar uma valorização quando as pessoas não conhecem e as pessoas não têm contato. Você tem que apresentar, você tem que aproximar o artista, a poesia e a obra das pessoas. Aí vem a popularização da poesia através da televisão, das mídias, de internet. Você realmente apresentar a poesia para as pessoas. Quando eu tive contato com Patativa do Assaré fiquei totalmente apaixonado. E isso me estimulou a conhecer outros poetas populares, passei a frequentar cantorias de violas, passei a frequentar duelos de repentistas. Enfim! Através de um único contato na sala de aula.

O POVO – E quem era esse professor?

Bráulio Bessa – Professor Erizon! É um cara que não dá mais aula em Alto Santo, mas, inclusive, já encontrei com ele em lançamentos do meu outro livro. E digo sempre: “rapaz, a culpa é sua”.

O POVO – Qual a importância do professor como figura disseminadora da cultura?

Bráulio Bessa – Eu tenho uma gratidão e uma admiração muito forte pelo professor. Quando na televisão eu tive oportunidade de escrever sobre professor, foi um dos momentos que eu mais me emocionei. Eu estava ali por essa simbologia e por esse papel que o professor tem de lapidar, de descobrir e de estimular os talentos de uma criança. Em uma sala com 30 moleques de 13 anos ou 14 anos, no interior do Ceará. Em um lugar teoricamente invisível para o poder e para a mídia. Eu sou muito grato por esse papel desempenhado. Depois que tive contato com a poesia, entrei para fazer teatro na escola. Isso estimulou outros colegas a buscar descobrir essas potencialidades. Acho que existe uma função muito mais do que educar no papel do professor. E é de ser desbravador, de entrar no íntimo do aluno e dizer “esse cabra é bom nisso e eu vou investir”. Isso aconteceu comigo. Quando eu tive esse contato com a poesia, eu volto para a aula no outro dia e digo “quero ser poeta”. E tive mais uma vez o apoio para escrever e para apresentar peças de teatro que na escola. O papel do professor é muito importante na minha construção como artista e como ser humano.

O POVO – O mercado da literatura popular tem crescido e muitas mulheres começaram a produzir cordéis. Temos cordelistas como Julie Oliveira, filha do Rouxinol do Rinaré, e Jarid Arraes, que é uma cearense radicada em São Paulo. Como você avalia a participação feminina na literatura de cordel? Ainda é um segmento muito machista?

Bráulio Bessa – Eu acho, antes de qualquer coisa, necessário. Essa participação da mulher, essa participação do feminino… em todo e qualquer movimento social. Não é só bem-vindo. É preciso e necessário. Fico muito feliz quando estou viajando em feiras de livros, bienais e espaços de cordel, pois vejo mulheres declamando cordel e fico completamente encantado. Quando você cita a Julie Oliveira, eu ficou feliz. Ela coordenou toda a parte de lançamento do meu primeiro livro. É de um talento, de uma força e de uma sensibilidade aquela menina. Meu primeiro livro, ela nos ajudou muito. Fez todo o trabalho de pesquisa. E eu sou fã de poetas cordelistas. A Josenir Alves de Lacerda, do Crato, declamei os poemas dela na internet e se tornou um viral com milhões de visualizações. Quando a gente percebe essa presença feminina empoderada, forte, exigindo seus espaços – acho que é um sinal de evolução. E para quebrar qualquer tipo de machismo que exista na literatura.

O POVO – Você quase terminou a graduação em análise de sistema. Você já se arrependeu de ter largado a faculdade e pensa em voltar a estudar?

Bráulio Bessa – Arrependimento eu não tenho. Nenhum! Eu larguei a faculdade no último semestre. Estava prestes a me formar como analista de sistema. E eu detestava aquilo ali. Eu estava lá por que me disseram que dava dinheiro e que trabalhando nessa área eu ia ganhar muito dinheiro para ajudar minha família. Era isso que eu queria. Mas eu não tinha o menor amor, o menor apego. Eu estava no último semestre prestes a me formar. E percebi que, se eu me formasse e pegasse aquele diploma, iria me sentir na obrigação e pressionado a exercer a carreira. E eu não queria me prender dentro de uma sala com ar-condicionado mexendo com programa de computador. Eu queria viver da minha arte, eu queria chegar até as pessoas. E acabei largando a faculdade no último semestre para viver de poesia. Larguei a faculdade, peguei tudo que eu tinha escrito e sai mandando email para as editoras, tentando lançar um livro e gravando vídeo com poesia na internet. Eu não me arrependo. Eu fiz a coisa certa e na hora certa. Não estou estimulando ninguém a largar a faculdade (risos). Parece coisa de doido! Mas é um caso muito particular. Eu odiava aquilo ali. Estava lá para ganhar dinheiro e, no fim das contas, seria infeliz com aquilo. Tenho vontade, sim, de cursar jornalismo. Não tenho é tempo. Minha vida se tornou uma loucura. É uma graduação que sempre tive interesse. Um dia, talvez, quando as coisas desacelerarem e acalmarem mais. Eu gosto de estudar e gosto de aprender. Sou curioso. Eu vou acabar cursando jornalismo mesmo.

O POVO – Você tem as participações no Encontro Com Fátima Bernades, tem as palestras e workshops, tem os lançamentos de livro. As coisas vão desacelerar ou acelerar mais?

Bráulio Bessa – Para quem eu conto essa história de desacelerar, o pessoal ri de mim. O que acontece é o seguinte: hoje eu vivo uma vida que de alguma forma não me pertence por inteiro. Eu nunca sonhei com esse agito todo. Eu nunca sonhei com televisão. E de repente estou toda semana na maior emissora de televisão do País. Isso traz uma posição absurda. A agenda completamente cheia de palestras, de feiras de livros, de bienais, de publicidade. Essa coisa toda. Mas eu sou um escritor. Eu escrevo poesia. Eu sou do Alto Santo. Existe uma atração muito forte para me levar pro interior e pra essa calmaria. Eu estou vivendo tudo isso agora. Eu sou muito grato por tudo que está acontecendo comigo. Eu estou agora conversando com você na varanda de um hotel na Paraíba, em 20 minutos pego estrada para Itaporanga, de Itaporanga vou para o Rio de Janeiro, de lá volto para Fortaleza. Eu não quero isso para sempre. Eu tenho uma consciência de que vai chegar o momento em que as coisas vão desacelerar, mas vai ser por que eu vou tirar o pé do acelerador. Não é porque eu ache que minha carreira vai entrar em decadência e as pessoas vão esquecer de mim. Não. Mas vai chegar o momento em que eu vou sentir necessidade de viver mais para mim. De cursar uma graduação que tenho vontade. A coisa vai acontecer. Talvez não seja agora, daqui a um ano ou daqui a dois anos. Mas vai desacelerar sim.

O POVO – No livro há vários depoimentos de pessoas que afirmam ter mudado de vida através da sua poesia. Como você avalia o poder da arte na vida das pessoas? É assustador?

Bráulio Bessa – Eu já me assustei. Hoje não. Eu, na marra, eu entendi que existe um poder transformador muito grande no que eu faço. É legítimo. Quando eu não consegui mais andar na rua… as pessoas me paravam e pediam uma foto. Mas não era só a foto. Existia sempre um abraço com muita ternura. Muita gente chorava. Eu não entendia o porquê da pessoa estar chorando. Eu sou exatamente como ela. Um ser humano cheio de fraquezas e de falhas. Mas os depoimentos que comecei a receber dessas pessoas e as histórias, acabaram me fortalecendo. Pesou. Mas quanto maior o peso que você carrega nas costas, maior é a força que você cria nas pernas. Eu encarei essa responsabilidade como fortalecimento. É inevitável não perceber isso. Eu recebo depoimentos todos os dias, por onde eu passo. Nas palestras, eu sempre atendo as pessoas e vou tirar fotos, escuto histórias surreais de gente que desistiu de cometer suicídio por que viu um poema meu e gente que decidiu adotar uma criança quando viu um poema sobre adoção, ou viram um poema meu sobre perdão e no mesmo dia entrou no carro e foi dar um abraço na pessoa. Você vai ouvindo essas histórias e é importante, sim, que eu tenha consciência desse processo para entender a responsabilidade que existe hoje sobre o que eu faço. Quando eu pego o microfone na televisão e declamo um poema, sei que não estou declamando na sala da minha casa e, sim, na sala de milhões de pessoas com todo tipo de problema. E daí vem essa história de como eu comparo a poesia a um abraço. Um abraço que se adapta! O abraço vai se adaptar a qualquer pessoa e você abraça qualquer tipo de corpo. E vai fazer bem. Minha poesia, tento levar para as pessoas dessa forma. Esse livro é um abraço. Tá aí. Cada pessoa vai ler e se sentir abraçada. Tenho certeza de que vai fazer bem. Minha intenção é essa.

O POVO – Você se incomoda com a caracterização estereotipada que os nordestinos têm na televisão e no cinema? Algum personagem específico incomodou mais?

Bráulio Bessa – Não tem um personagem específico que possa dizer. Mas é claro que esse estereótipo e essa coisa de associar o nordestino a seca, a fome, a algo pobre e sujo... Isso incomoda. Quando eu surjo na internet e na televisão, levantando a bandeira do povo nordestino e do povo sertanejo, eu senti que uma determinada parcela do meu público quis reforçar esse estereótipo em cima da imagem. Sem maldade, sabe? Eu uso redes sociais e elas são um canal fantástico com as pessoas. Chegou ao ponto de que se eu postasse alguma foto comendo um sushi, alguém ia comentar que nordestino de verdade come é buchada. Isso do próprio nordestino. Reforçando esse estereótipo. Eu tento muito quebrar isso. Levar a nordestinidade, levar identidade da nossa cultura, levar a identidade da nossa raiz dentro da minha mensagem, mas sem deixar de ser natural. Eu acredito muito na soma de culturas. Acho que você absorve cultura e isso soma dentro de você. E você sai espalhando coisas boas, conhecimento. Me incomoda essa coisa de você sempre associar o nordestino a determinados pontos que já são tão batidos. Na televisão acontece de forma muito forte, o sotaque muito forçado, aquela coisa toda. Agora, cabe ao povo nordestino ter essa consciência e se enxergar onde ele quer ser visto. Quando aparece um personagem estereotipado, eu não me enxergo ali. Me enxergo onde quero ser visto. Fico feliz quando alguém olha para mim e diz “esse cabra me representa”. Isso, para mim, é muito gratificante. Além de saber que a pessoa quer bem à minha arte e ao meu trabalho, tem o sentimento de pertencimento e representatividade. E eu luto por isso, também. É uma causa. Isso está muito presente em todos os traços da minha arte e do meu ativismo. E do meu dia a dia. Por onde eu passo escuto muito isso. “O cabra que representa o povo nordestino”. Nunca disse isso, pois acho muita pretensão. Mas de alguma forma eu me sinto sim, também, um embaixador da minha cultura e eu vou lutar por isso.

Serviço

 

Poesia que transforma

Autor Bráulio Bessa

192 páginas

Quanto: R$ 29,90

 

ISABEL COSTA

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