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Ponto de vista. Cláudio seguirá inspirando

23:00 | 30/06/2018

Cláudio Ferreira Lima era a melhor tradução de uma figura cada vez mais mitológica no Brasil, o homem público. Desde os primórdios de sua carreira no Banco do Nordeste, trazia consigo este espírito.  

Dele fui assessor no Governo do Ceará há 22 anos. Foi por um breve período. Preferi deixar a então Secretaria do Planejamento junto com seu pedido de demissão. Tempos depois voltamos a trabalhar em equipe no Senado. Exercia dois papeis em minha vida e carreira. Era amigo e fonte.


Cláudio tinha o charme da simplicidade. Era generoso além da conta. Muitos dos discursos e planos de Governo das últimas décadas no Ceará tinham sua genética. Era consultado pelos mais diversos matizes políticos. Ao conhecimento técnico, adicionava um elemento determinante, embora insólito na burocracia estatal, a sensibilidade.
 

Não raro, quando secretário, deslocava-se de carro pelo Interior. Era capaz de parar ao ver alguém com lata d’água na cabeça e tomar nota da comunidade desassistida. Logo haveria ali uma ação do Projeto São José, uma cria de sua gestão na Era Tasso. O São José, com projetos de geração de renda e pequenas obras hídricas, mirava nos mais pobres e foi responsável por torná-lo um dos mais influentes secretários de então. Ao mesmo tempo, um dos mais visados.


Quando presidente do Iplance, o Instituto de Planejamento do Ceará (há 15 anos rebatizado Ipece), já dava ao órgão o sentido estratégico. Em dedicatória no “Good Government in the tropics” (em tradução livre, Bom Governo nos trópicos), a professora Judith Tendler o celebrara como “pioneiro na parceria Ceará-MIT”. Boa parte da Inteligência daquela Era estava mesmo em Cláudio.
 

A propósito, em conversa recente, dizia-me do quão importante seria o Ceará calcular o PIB do quarto setor, o conhecimento.
 

Há exatos 10 anos, lançou “A Construção do Ceará - temas de  história econômica”. O livro fora o terceiro título da Coleção Anuário do Ceará. Nele, como bem descreveu Vessilo Monte, em que importe o subtítulo, não se resume a um conjunto de ensaios sobre a economia cearense em distintos períodos históricos. Fez uma consistente e crítica reconstrução da história do Ceará.
 

O lançamento da nova edição do Anuário, no último dia 21, foi o primeiro no qual não o tivemos sua presença física na festa. Cláudio esteve no discurso e está no expediente, como seu
consultor editorial.
 

Perdi um amigo, mas não a inspiração. Cláudio Ferreira Lima continuará inspirando.

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