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Meu Spray é minha voz

| ARTES URBANAS | Artistas e especialistas refletem sobre o papel da pichação como sintoma de uma metrópole que segrega e marginaliza

00:00 | 03/06/2018


É compreensível que as classes média e alta não simpatizem com as pichações que encontram nas ruas. O picho, segundo a socióloga Glória Diógenes em seu livro Cartografias: Da cultura e da violência – Gangues, galeras e o movimento hip hop, condiz com “os agrupamentos juvenis que têm a marca comum da necessidade de autonomia, da não filiação à ideia de lei e autoridade. Esses agrupamentos juvenis parecem querer varrer vestígios do passado e se constituir no hiper-realismo do presente”.


A mensagem de Glória em seu livro se complementa com a ideia dos jovens de classe baixa — maioria entre os que picham — que rabiscam mensagens indecifráveis, atraindo a falta de empatia das outras classes. Por outro lado, é difícil passar pelo mesmo lugar todos os dias, na ida à faculdade, à escola, ao trabalho, e não se interessar em desvendar o que está escrito na parede.
 

“O picho serve como uma mensagem e é incrível que ainda exista uma barreira de linguagem entre as classes”, diz o professor de história Léo Vieira, comentando que, a depender do núcleo social, a pichação pode representar uma referência simbólica de dominação de território. “Repare, por exemplo, nas assinaturas na estátua de Iracema, na Messejana. Imagine o que se passa na cabeça de alguém que conseguiu subir num monumento gigantesco, dentro de uma lagoa. A pichação é uma marca pessoal”, aponta, acrescentando que as pichações também refletem aspectos sociais de grupos excluídos.
 

A outra vertente do ato é a ação da pessoa diante de um lugar pelo qual sente revolta. Para Léo, esse é um dos pontos que garantem um significado diferente para a Cidade, dado que a pessoa marca, com uma lata de spray, um documento histórico na metrópole. 

 

“Estamos falando das propriedades privadas, teoricamente invioláveis. Quando alguém picha a nossa cidade e casa, nos sentimos frágeis. Deixamos de pensar na nova leitura histórica que a pessoa que pichou deu para esse lugar”, diz.
 

Tal ação é vista, de forma generalizada, como violência, vandalismo e deturpação de propriedades públicas. Mas para o professor, a cidade registrada com o picho se torna um documento. “Tudo aquilo que produzimos, desde que seja interpretado e submetido a uma análise rigorosa, reflete as dores, as insatisfações da cidade. É uma possibilidade de um grupo anônimo veicular suas angústias, de escrever aquilo que quer”.
 

O artista visual – e ocasionalmente pichador – Ricardo Denis endossa a opinião de Léo. Para ele resta, então, aquilo que chama de rebeldia: “quando externalizo essa minha insatisfação, fica o medo dos demais. Mas na verdade, sofro como tantos outros que não são escutados. A pichação garante um registro que, de certa forma, é eterno. Meu spay é a minha voz. Ele carrega as injustiças da cidade”. 

 

Para ele, pichação também é arte. “Por mais que seja sujo, ilegal e agressivo, o meu picho é arte, sim. Não é assim que as artes interpretativas, de modo geral, funcionam? Dificilmente uma agrada a todos. Com o picho é o mesmo”.

GABRIEL AMORA

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