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Deixa a negra respirar

| CULTURA | Primeira atração anunciada para o Festival Vida&Arte, que acontecerá entre os dias 21 e 24 de junho no Centro de Eventos do Ceará, Elza Soares prepara novo disco com evolução dos argumentos criados à época de A mulher do fim do mundo, elogiado álbum de 2015

00:00 | 13/05/2018

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Elza Soares cansou das meias palavras. Mulher do fim do mundo, não pede mais que a deixem cantar. Agora, simplesmente canta. No álbum que chega às lojas e plataformas de streaming na próxima sexta-feira, 18, o 33º de sua carreira, a sambista de 87 anos investe sua capacidade de reinvenção e sua persona aguerrida na tentativa de fortalecer as lutas que a alimentam. O título diz tudo: Deus é mulher.

“É uma briga por espaço pra gente viver, ser feliz, respirar, ter liberdade. É um disco pra negritude, pra mulher, pro gay. Vamos respirar! Vamos gritar ‘cadê a África?’. Por que estão todos se escondendo?”, reflete Elza em entrevista ao O POVO. Espécie de segundo ato de A mulher do fim do mundo, um dos discos brasileiros mais elogiados de 2015, Deus é mulher aprofunda os temas abordados no trabalho anterior - e, de certo modo, em boa parte da discografia de Elza: “A carne negra ainda é a mais barata do mercado. O gay ainda sofre. Ainda convivemos com isso. É cruel, mas precisa ser falado”, justifica.

A extensão de seu discurso veio com a guarida de um time de compositoras em estreito vínculo de pensamento. Para este novo trabalho, o produtor Guilherme Kastrup contou com a colaboração de mais mulheres na concepção das letras e arranjos. Em Banho, faixa divulgada em abril último, primeiro single do novo disco, Elza canta versos de Tulipa Ruiz que dizem: “Acordo maré / Durmo cachoeira / Embaixo sou doce / Em cima, salgada”. Alice Coutinho, compositora de Mulher do fim do mundo, escreveu Eu quero comer você: “Mas eu não quero dizer / Você precisa saber ler”.

“Quando recebi o convite do Kastrup, passei um tempo pensando em como poderia fazer qualquer coisa depois de A mulher do fim do mundo. Aquele tinha sido um período forte pra mim, foi quando me descobri feminista”, explica Alice, que no novo disco também assina a letra de Língua solta. “Quis falar de sororidade, da necessidade de criação de redes de apoio entre as mulheres. A Elza disse que queria um disco ainda mais forte, e eu escrevi pensando nisso, em uma mulher guerreira de quase 80 anos falando de sexo sem tabus”, afirma.

E se “negritude e sexo” sustentam o argumento do trabalho de 2015 - como disse Elza em outra ocasião -, o novo álbum reflete “sobre liberdade e é aberto, claro como o sol, dá vontade de dançar, de viver”, explica a cantora. Mais uma vez, ficou nas mãos de Guilherme Kastrup a responsabilidade pela concepção do projeto. “Antes a gente pensava muito no samba, mas agora essa amarra se rompeu, não tivemos preocupação com gênero. Elza queria um disco mais feminista, mais feminino, mais combativo, guerrilheiro. É um álbum que aposta na esperança que surge depois do caos”, esclarece Kastrup.

O lançamento de Deus é mulher marca o fim da turnê do álbum anterior - o derradeiro show para A Mulher do fim do mundo foi realizado há poucos dias no Rio de Janeiro. Enquanto prepara a apresentação do novo trabalho, Elza continua viajando pelo País com A voz e a máquina, projeto que traz canções de várias fases de sua carreira e releituras de nomes que vão de Beyoncé (Naughty Girl) a Chico Buarque (Cálice). “É um trabalho super atual, um mergulho na música. Cabe muito samba na eletrônica”, reflete. Elza apresenta A voz e a máquina na sexta-feira, 22 de junho, segundo dia do Festival Vida&Arte, a partir das 20 horas. Além de Elza, o show é composto pelos DJs Ricardo Muralha e Bruno Queiroz e pelo guitarrista Caesar Barbosa. A execução das músicas é pensada em composição com sequências de video mapping, projeções em um cenário em branco que colaboram com a criação de uma atmosfera de completa integração entre música e imagem.

 

Liberdade

ELZA SOARES defende a liberdade de respirar, de gritar, de cantar, de dançar e de transar. A carioca diz que está “mais combativa” 

 

A voz e a máquina

Criado para revisitar grandes temas do repertório de Elza, o show A voz e a máquina traz ainda uma seleção de canções de outros artistas, como Chico Buarque, Pitty, Luíz Melodia, Caetano Veloso e Jorge Ben  

 

SERVIÇO

Show A voz e a máquina, com Elza Soares Quando: 22 de junho Onde: Festival Vida&Arte (Centro de Eventos do Ceará (Av. Washington Soares, 999 - Edson Queiroz) Preço: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Válido para toda a programação do dia  

JáDER SANTANA