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Moradores narram ataque em Damasco

| TENSÃO AGRAVADA | Acordar de madrugada com o estrondo das explosões e os clarões no céu tornou-se um susto maior para sírios por saberem que ataque partiu da maior potência bélica mundial

00:00 | 15/04/2018

ATAQUE ocorreu na madrugada deste sábado LOUAI BESHARA / AFP
ATAQUE ocorreu na madrugada deste sábado LOUAI BESHARA / AFP
  Eram 4 horas da manhã, quando as bombas começaram a rasgar o céu de Damasco. Na escuridão da madrugada, a população só via o clarão. Mais incêndio e destruição. Para os civis, emergia o desespero de saber que o ataque vinha da maior potência militar do mundo, os Estados Unidos. “Estou assustada. Por enquanto estou segura. As bombas pararam, mas recomeçaram em seguida”, narrou uma moradora da capital síria entrevistada pelo O POVO no momento do bombardeio.

Pelo Whatsapp, a mulher que pediu sigilo do nome disse que achava difícil de acreditar que o governo tivesse feito uso de gás sarin. “Estávamos ganhando”, disse ela, que defende o regime do presidente Bashar Al-Assad. No total, foram 105 bombas atiradas contra três alvos principais: dois depósitos e um centro de pesquisa.

Diferentemente de ataques anteriores, vindos de rebeldes e de Israel com poderio muito menor que os Estados Unidos e seus aliados, esse contava com mísseis de alta precisão e poder destruidor. Até o momento, as agências ocidentais afirmam que não houve mortes ou feridos.

“Parece que os sons das explosões na região do Mezze e a oeste de Damasco foram mais claros. As janelas tremeram na casa da minha irmã na região do xeque Saad, e o seu pequeno filho ficou com medo”, contou o jornalista Maher Al-Mounes, correspondente da AFP.

Segundo ele, os sons de bombas já são costumeiros. A diferença desse ataque, conforme os próprios pais pontuaram, foi aceitar e se preparar psicologicamente para o que já era previsível — o temor de um forte ataque estrangeiro se tornava real.

No amanhecer de sábado, aos poucos, a vida em Damasco voltava ao normal, narra Al-Mounes, com exceção de mais prédios destruídos. “Não parece que o dia de Damasco seja diferente, continuam os hinos nacionais nas estações locais, alguns com a bandeira Síria no álamo, e a minha mãe está a fazer o café da manhã para o meu pai, antes de eu o mandar para o trabalho”, disse.

O ataque da madrugada partiu de uma deliberação do presidente americano Donald Trump. Esta não foi a primeira vez que os Estados Unidos atacaram forças sírias. No ano passado, outro incidente envolvendo o uso de armas químicas, na cidade de Khan Sheikhun, culminou em ataque americano à base aérea síria de Shayrat, próxima a Homs.

A guerra é multifacetada, mas possui três frentes principais: governo sírio, apoiado pela Rússia, o Irã e o Hezbollah libanês; os rebeldes moderados e curdos que contam com a força de ocidentais; e os extremistas.

Após 7 anos de conflito da Síria, mais de 400 mil pessoas já morreram, segundo organizações internacionais. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) informou que outras 9 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas. 

 

DANOS À SÍRIA Os bombardeios foram precisos e calculados para evitar a morte de civis e danos colaterais, disse o general Kenneth McKenzie, do Comando-Maior das Forças Amadas dos Estados Unidos 

ISABEL FILGUEIRAS