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"Fortaleza precisaria de uns vinte Cucas", diz especialista

| ENTREVISTA |Estudioso do modelo de segurança de Bogotá e Medellín, Murilo Cavalcanti defende uma profunda mudança em urbanismo e na mentalidade da população para combater o crime

00:00 | 22/04/2018

O ESPECIALISTA Murilo Cavalcanti é secretário da Segurança Cidadã de Recife e estuda os casos de Bogotá e Medellín     ARTURO M. ENRIQUEZ/DIVULGAÇÃO
O ESPECIALISTA Murilo Cavalcanti é secretário da Segurança Cidadã de Recife e estuda os casos de Bogotá e Medellín ARTURO M. ENRIQUEZ/DIVULGAÇÃO
Um dos maiores especialistas em segurança pública do País, o secretário da Segurança Cidadã de Recife, Murilo Cavalcanti, conhece como poucos as inovações de Bogotá e Medellín no combate à violência.

Um dos idealizadores do programa Pacto pela Vida, que reduziu índices de homicídios de Pernambuco no início dos anos 2010, o pesquisador já viajou para estudar as cidades colombianas 28 vezes. Segundo ele, além do investimento em Polícia, as cidades precisam passar por profundas mudanças de mentalidade e urbanismo. 

Em entrevista ao O POVO, o secretário falou sobre as lições de Bogotá e Medellín e como Fortaleza pode mudar paradigmas na hora de enfrentar a violência em seu dia a dia. O POVO: Como mudar a realidade de uma cidade tomada pela violência? 

Murilo Cavalcanti: A primeira coisa, a mais básica decisão política que tem que ser colocada na ordem do dia, como prioridade, é a valorização da vida das pessoas. Fazer as pessoas verem que a vida é sagrada. Foi como começaram lá em Bogotá. Fazer as pessoas pensarem no que estava acontecendo, fazer elas pensarem “e aí?”. A segunda é inverter essa lógica perversa de fazer os mais pobres equipamentos para os mais pobres. As piores escolas, as piores moradias, os piores postos, hoje estão na área pobre. É assim em Recife, em Fortaleza, em São Paulo. Vá em um terminal rodoviário e vá a um aeroporto, você vê que um é para pobre e o outro para o rico. É sempre assim, para o pobre um puxadinho, um remendo. Temos que romper com isso.

OP: Como fica a questão do planejamento? 

Murilo Cavalcanti: Foi a terceira que eles fizeram, deixaram de improvisar o planejamento urbano. Precisa ter um planejamento de curto, médio e longo prazo. O que a gente quer de Fortaleza daqui a 30, 40, 50 anos? E que prefeito nenhum sonhe em mudar? As bibliotecas-parque lá na Colômbia foram um instrumento poderosíssimo, e ninguém mudou isso. Tinha um ex-prefeito de Bogotá, o Antana Mockus, o que ele elegia como principal, e ele sempre dizia que não se muda uma cidade sem mudar a cabeça das pessoas. Se elas não pararem de matar, de agredir mulheres, não passarem a respeitar as diferenças, as mulheres, os homossexuais, nada muda. O próprio Paulo Freire dizia: o livro muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo. Você junta isso com o planejamento, e fica completa a lógica. Outra coisa é a cultura de paz e não violência. Se você visitar qualquer escola, pública ou privada, em área rica ou pobre, sempre se trata muito do tema da natureza no dia a dia. Isso é relevante, mas o tema mais importante é o da vida. Temos que levar para o ambiente escolar, as crianças têm que saber. Isso se chama cultura cidadã. 

OP: Qual a importância do urbanismo nessa mudança? 

Murilo Cavalcanti: E fazer urbanismo social é isso, asfaltar calçada, abrir ciclovias, trazer mais pedestres. Quanto mais gente na rua, melhor. Gente fechada só faz gerar mais violência. Esses paredões penitenciários de condomínios são irresponsáveis. Prefeito que tenha responsabilidade não deixa mais acontecer, porque a lógica do bandido é a lógica do rato, gosta de lugar escuro e abandonado. 

OP: Mas esse tipo de mudança não geraria resistência? 

Murilo Cavalcanti: Há uma gritaria porque as classes média e alta são individualistas, querem fazer imperar a cultura do carro. Mas não há mais espaço. Prefeito nenhum que tiver juízo faz mais viaduto em zona urbana, porque sabe que o espaço que você dá para o carro, ele ocupa e gera mais demanda. Os prefeitos podem não ter coragem de enfrentar isso hoje, mas mais cedo ou mais tarde vão ter que ter. É um caminho sem volta: Investir nos mais pobres e trazer o povo para a rua. Em Fortaleza têm os Cucas, que são uma excelente iniciativa, que poderia receber também a mediação de conflitos, não só a questão do esporte e cultura. Mas para a população de Fortaleza, precisaria de uns 20 Cucas. 

 

A redução pernam-bucana 

Em 2004, Recife tinha taxa de 77,8 homicídios por 100 mil habitantes, sendo a capital mais violenta do País. Em 2014, índice caiu para 35,8 por 100 mil.   

 

Retomada da violência 

Nos últimos anos, no entanto, Recife voltou a ter crescimento de índices de violência. Murilo, no entanto, aposta na redução nos próximos anos.