PUBLICIDADE
VERSÃO IMPRESSA

As lições de quem reduziu a violência

| SEGURANÇA | Experiências bem sucedidas na redução da insegurança, cidades do México, Colômbia e Estados Unidos vivenciaram anos de inovações que trazem ensinamentos para Fortaleza e para o Brasil

00:00 | 22/04/2018

BOGOTÁ. A capital investiu em urbanismo e cultura cidadã para reduzir violência ERNESTO TENERÊS
BOGOTÁ. A capital investiu em urbanismo e cultura cidadã para reduzir violência ERNESTO TENERÊS
No centro das regiões mais pobres e violentas de Bogotá e Medellín, na Colômbia, o poder público ergueu luxuosas bibliotecas. As principais avenidas, antes apinhadas de carros, tiveram faixas liberadas para ciclistas e pedestres. De início, a população estranhou. Com o tempo, mais e mais gente foi ocupando as antes desertas calçadas. E o fluxo nunca mais parou.

 

Leia também: O que Ciudad Juarez e Nova York podem ensinar para Fortaleza

 

“Quando os prefeitos fizeram isso, a queda de popularidade foi enorme, mas depois deu um pico de popularidade. As pessoas receberam sua cidade de volta”, diz o professor da UFPE, Marcos Galindo, na obra “As lições de Bogotá e Medellín - Do caos à referência”.  

“O que parecia ato de loucura se revelou uma eficiente estratégia de recuperação da cidadania”. Organizado pelo pernambucano Murilo Cavalcanti, secretário de Segurança Cidadã de Recife e um dos maiores especialistas de segurança pública do País, o livro revela a experiência desenvolvida nas cidades colombianas, antes tidas como capitais mundiais da violência, no combate à violência e ao crime organizado.  

Em Medellín, taxa que antes marcava até 360 homicídios a cada 100 mil habitantes, caiu para 20 por 100 mil - uma redução de quase 90%. Na época em que começaram as mudanças, não havia nenhum lugar no planeta, nem mesmo as devastados por guerras, que chegasse perto aos índices da cidade colombiana.  

Centro de operações dos antigos cartéis liderados por Pablo Escobar, Medellín era ainda epicentro do confronto entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs). 

“Hoje está completamente diferente”, diz a turismóloga Dani Oliveros, de  Medellín. Com 25 anos, ela conta que conhece o passado violento da cidade apenas por relatos, que evidenciam a profunda mudança na cidade. “Ninguém gostava muito de sair de casa, isso mudou”, diz Dani, que já morou em Fortaleza. “Eu sentia que aí era mais perigoso, aqui é bem diferente”,  relembra.

No coração das mudanças, menos repressão e mais ações inovadoras de urbanismo, educação e cultura cidadã. “Você não muda uma cidade sem mudar a cabeça do cidadão”, doutrina o ex-prefeito de Bogotá Antanas Mockus (1995-1997 e 2001-2003), que iniciou processo de mudanças que tinha como lema “todas as melhores obras para os mais pobres”. 

Duas décadas depois, a capital colombiana colhe os frutos, reduzindo taxa de 80 homicídios por 100 mil habitantes em 1993 para 22 a cada 100 mil em 2011. 

Ao invés de apenas armas e mais policiais, gestões priorizaram reforma de praças, construção de bibliotecas, urbanização de áreas periféricas e construção de equipamentos públicos de qualidade em favelas e bairros antes tomados pelo crime. No coração da atuação dos antigos cartéis de drogas, foram erguidas escolas, bibliotecas e terminais de ônibus de qualidade. 

“Não adianta só levar uma escola boa para a periferia. Isso é importante, talvez das coisas mais essenciais, mas só isso não vai tirar o menino do crime. Ele quer escola, mas ele quer muito mais. Ele está conectado no mundo, então o que fizeram? Levaram escola, mas também biblioteca, centros de formação de pequenos negócios, fizeram urbanismo, levaram instrumentos de acesso à Justiça para resolver conflitos. Tudo de mais alta qualidade”, diz Murilo Cavalcanti. 

O transporte público passou a ser prioridade, principalmente na busca por trazer menos carros e mais pedestres às ruas. “Quando você vai para a rua, você passa a ser a garantia do outro cidadão. A presença de um é a segurança do outro”, diz o arquiteto e urbanista Roberto Montezuma, em relato da equipe que acompanhou a experiência colombiana. 

Em favelas de Bogotá, mesmo as mais isoladas em morros, a prefeitura urbanizou calçadas e construiu grandes ciclovias e escadas. Em algumas regiões, foram construídos até teleféricos públicos conectando as comunidades à região central. Jovens antes envolvidos no crime receberam ofertas de emprego no sistema de educação e na indústria.  

Em Medellín, Dani Oliveros destaca que os modais viraram até motivo de orgulho da população. “O metrô é um orgulho para todos, porque Medellín é a única cidade da Colômbia que tem metrô. Até mesmo as pessoas mais ricas usam”, afirma a colombiana. “Uso quase todos os dias, é muito rápido e organizado”. 

“Se fala muito das experiências de Londres, Barcelona, Nova Iorque. É bonito, deu certo, mas são realidades totalmente diferentes. Nós temos que encontrar a realidade da América Latina, a nossa realidade. Em Ciudad Juarez copiaram Medellín e isso pode ser copiado por Fortaleza, por Recife, por qualquer cidade. Os problemas são os mesmos, a situação é a mesma”, diz Murilo Cavalcanti.

As doze lições de Bogotá 

Ex-secretário de Segurança de Bogotá que reduziu homicídios da capital, Hugo Acero, implementou programa de 12 ações no combate da violência  

 

O prefeito protagonista 

Entre os doze pontos, Hugo Acero destaca a necessidade de que os prefeitos tomem a frente do combate à violência. “É fundamental uma liderança local forte”. 

CARLOS MAZZA