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Artista conceitual Cildo Meireles ganha livro sobre seus estudos

Grande expoente das artes conceituais brasileiras, Cildo Meireles ganha livro que destrincha seus estudos e reúne fortuna crítica sobre sua produção

00:00 | 01/04/2018
As obras selecionadas vão de 1968 aos primeiros anos de 2010
As obras selecionadas vão de 1968 aos primeiros anos de 2010

Resgatar o primeiro momento, quando o artista aplica o traço, imagina a ação necessária para a execução da obra. A proposta do livro Cildo: Estudos, Espaço e Tempo, publicado recentemente pela Ubu Editora, é regressar à nascente da criação de Cildo Meireles, artista conceitual brasileiro que subverteu o circuito dos museus na década de 1960 e acabou exposto em instituições como o MoMA (EUA), o Reina Sofía (Espanha) e o Tate Modern (Inglaterra).

Organizado pelo curador e pesquisador de artes visuais Diego Matos e pelo crítico de arte Guilherme Wisnik, o livro abraça uma noção amplificada do “estudo” dentro da obra de Cildo. “Ele faz um trabalho que inicialmente é muito cerebral. A ideia de estudo vem desse entendimento de algo que é mais amplo, como um pré-requisito, o desenvolvimento do pensamento anterior ao produto. Várias obras do Cildo acontecem de maneira alargada no tempo”, explica Diego, que foi assistente de curadoria da 29a Bienal de São Paulo, em 2010, e estudou a obra de Cildo em seu doutorado.

Nascido no Rio de Janeiro em 1948, Cildo Meireles começou sua trajetória desenhando. O livro cobre sua produção da segunda metade da década de 1960 aos primeiros anos dos anos 2010. As obras indicadas pelos organizadores atendem a uma aproximação conceitual, a um diálogo não necessariamente cronológico entre períodos. Cildo é o artista por trás de obras icônicas como as Inserções em circuitos ideológicos (cédulas carimbadas com “Quem matou Herzog?” e garrafas de Coca-Cola com mensagens contra o regime político na década de 1970) e Desvios para o vermelho (ambientes articulados e decorados com uma exaustiva coleção monocromática de objetos).

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Também se avizinham em sua produção as noções de espaço e tempo — relações possíveis de grandeza e medição do mundo. “Apesar de o Cildo trabalhar com situações específicas que remetem de maneira muito enraizada à cultura brasileira e às suas vivências afetivas, esses são dois elementos extremamente universais. Na verdade, ele está falando de uma completude que é muito maior”, explica Diego, resgatando os conceitos de site-specific e time-specific, que se referem às obras criadas para existir em certo espaço (site) e durante um período específico de tempo (time).

O livro também apresenta 13 textos selecionados pelos organizadores em meio à fortuna crítica que acompanhou a trajetória de Cildo. O primeiro deles, publicado no Diário de Notícias em 1969, traz o crítico de arte Frederico Morais articulando a teoria e a prática do trabalho de Cildo, inaugurando o que mais tarde seria batizado pelo autor como “a nova crítica”, mais atenta à produção da nova geração de artistas plásticos.

Acompanhar a evolução do pensamento da crítica especializada sobre a obra de Cildo ao longo das décadas conduz o leitor em direção a um campo de atualidade. A produção do artista traz incorporada a possibilidade de ressignificação — suas cédulas ganharam o carimbo “Quem matou Amarildo?” em 2013. “Há essa emergência, são situações extremas que formam um circuito de transmissão de mensagens. Ele quer que as pessoas se apropriem, não existe um valor comercial para aquela obra. Seu trabalho é o conceito”, resume Diego.

 

O POVO: São cinco décadas de trajetória. Sua obra, que não entrava nas galerias porque não se adequava ao sistema tradicional de exposições, passou a ser exposta em lugares como o MoMA (EUA), o Reina Sofia (Espanha) e o Tate Modern (Inglaterra). O que mudou, o artista ou o cenário das artes?

Cildo Meireles: Tudo mudou. Eu comecei no desenho, é minha formação, minha produção inicial. Na primeira exposição que participei, em 1965, no segundo Salão Nacional de Arte Moderna, no Distrito Federal, fui com dois desenhos. Estava em uma escola experimental em Brasília, pretendia fazer o curso de cinema, cinema de animação. Mas eu já desenhava, diariamente, e quando o Mário Cravo (escultor e gravador baiano) passou por Brasília, viu que eu tinha a ver com a questão afro e me convidou para outra exposição. Em 1967, eu já estava começando a me interessar por outras coisas. Vim pro Rio, comecei a fazer a série dos Espaços Virtuais. Mas até 1990 eu sobrevivia basicamente da venda dos desenhos, que sempre foram muito figurativos, expressionistas.

OP: Você faz parte de uma geração de artistas que cresceram execrando os museus. Como essa visão mudou — ou permaneceu — ao longo do tempo?

Cildo: Naquele momento, minhas obras eram de difícil circulação em galerias e museus. Nós crescemos abominando a ideia de museus e tudo mais. É claro que os museus mudaram também, de várias maneiras. A principal foi tentar se adequar à produção contemporânea, e não só do ponto de vista museológico, da climatização, adequação, mas também no sentido de compreender o que estava se passando. E eu me reconciliei. Sobretudo pela possibilidade, que talvez seja o principal nessa história toda, de tornar minha obra disponível para um público amplo. São detalhes que te fazem repensar. É melhor abrir para o público que deixar tudo encaixotado, mofando.

 

OP: Você ressignificou as famosas cédulas carimbadas com “Quem matou Herzog” para o caso Amarildo, em 2013. Sua obra se presta a essa restauração atemporal?

Cildo: Nesse caso, esse era o trabalho. É um trabalho que existe quando está sendo feito, não necessariamente por mim. Eu fiz a minha versão, fiz as inserções que achava que tinha que fazer como indivíduo. No bojo dessa coisa toda, da invisibilização, desmaterialização, essa coisa fluida mesmo, esse estado gasoso da matéria, a ideia é circular, sem prazo de validade. As circunstâncias apontarão o fim desse prazo. O trabalho trafega por aí com suas próprias pernas.

 

OP: As cédulas que circularam recentemente com “Quem matou Marielle” são de sua autoria?

Cildo: Eu soube por um amigo, que me mandou uma imagem. Uma nota, a mensagem com a mesma inclinação. Essa eu não fiz, mas assinaria embaixo.

OP: Embora perca protagonismo na cobertura diária da mídia para questões ditas mais urgentes, como política e economia, a arte se torna mais importante nesses períodos de turbulência política? Qual o seu papel nesse momento?

Cildo: Como artista, qualquer momento é o momento de você lidar com a arte. Produzindo, pensando, discutindo. A questão é que se você for esperar, sobretudo em um país como o Brasil, ter condições ideais para se defrontar com a questão da arte, seja como produtor, consumidor, artista, você nunca vai fazer nada. Essas sempre foram as condições. A questão da arte é continuar fazendo, mesmo que ela não seja protagonista.

OP: As inspirações e substratos para o Cildo de cinco décadas atrás são os mesmos para o Cildo de hoje?

Cildo: Nunca tiveram uma lógica processual. Nunca tive uma maneira de fazer as coisas. Cada trabalho veio de uma origem diversa, dos vendedores de livros das calçadas, do papel celofane amassado e jogado no lixo, das portas e janelas trancadas, os alpendres com grades. Às vezes você sente algo passar rápido na cabeça, alguma coisa que você não sabe o que é, mas que cruzou teu cérebro. Você não conhece a natureza, a cor, a forma… Com o tempo, você vai se aproximando. O meu método de trabalho sempre foi esse.

 

Cildo: estudos, espaços, tempo

304 páginas

Preço: R$ 120

Ubu Editora

 

JáDER SANTANA