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Nicolas Fabre. Para superar a crise hídrica

Presente ao Fórum Mundial da Água, Nicolas Fabre analisou a situação do Estado e apontou caminhos para a melhor convivência com a seca

00:00 | 25/03/2018

Sediar o Fórum Mundial da Água no Brasil foi sintomático. Isso porque, pelas discussões que envolveram os representantes nacionais, ficou claro que o abastecimento hídrico do País está ameaçado. E não mais só no Nordeste, como se convencionou pensar.


Por historicamente conviver com pouca água, o Ceará foi protagonista em alguns dos painéis que trataram da seca e do que se deve fazer para conviver melhor com ela. Nicolas Fabre, analista de Desenvolvimento Rural, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Associação dos Municípios do Ceará (Aprece), participou de algumas dessas discussões. A última delas, sobre o fato de que uma só alternativa não é suficiente para sanar um colapso hídrico.


Em entrevista ao O POVO, Nicolas traça panorama da situação atual do Estado e indica o que deve ser priorizado pela gestão pública para enfrentar de forma qualificada o problema.


O POVO - Mesmo que a água seja um bem de direito, ela não é acessível para todo mundo. No caso do Ceará, que pode estar passando pelo sétimo ano seguido de seca, como equilibrar esse acesso e, ao mesmo tempo, cuidar para que o bem não acabe?

Nicolas Fabre - Como acesso no ponto de vista de capacidade de armazenamento, estamos alcançando nas zonas urbana e rural um certo nível de universalidade. O porém é a regularidade desse abastecimento. Em período de seca, não existe acessibilidade pela própria natureza, aí tem que começar a trabalhar alternativas como poços profundos. Nisso, a gente chega ao segundo parâmetro da acessibilidade que é a qualidade. Com a maioria dos nossos reservatórios seca ou praticamente em volume morto, o sistema de distribuição convencional fica fortemente limitado. Isso leva cada vez mais à perfuração de poços e a uma situação de dificuldade, porque essa água muitas vezes vem com uma carga de sais que impossibilita o consumo humano, devido aos riscos à saúde. Além disso, temos, infelizmente, uma grande dependência da operação carro-pipa. Pela lógica geográfica de moradia, temos muitas comunidades difusas, longe de redes de estruturas básica, que dificultam a implementação de uma obra convencional. Isso provoca os gestores a pensarem cada vez mais em sistemas descentralizados para trabalhar da mesma forma que se trabalha, por exemplo, o programa de cisternas. Começar a trabalhar tratamento de resíduos sólidos, de esgoto, e, se não de forma domiciliar, individual, de forma descentralizada, comunitária, porque não posso continuar a insistir em grandes obras de adutoras. Preciso planejar a longo prazo. O Ceará tem um plano chamado Malha D’água, mas na perspectiva de 2050. Estamos falando de orçamento bilionário. Então, enquanto chego a 2050, enquanto procuro esses bilhões, o que faço para responder à situação dessa população que hoje está dependendo de carro-pipa passar uma vez por semana? Duas vezes, três vezes, por mês?

 

O POVO - Ficou claro no Fórum que o reúso como alternativa de água é tendência. Esse método é viável para o Ceará?

Nicolas - Não somente é viável como é uma realidade. Muitas inovações no Brasil partem de uma situação de estresse. E quem desenvolve, muitas vezes, essas inovações, é a própria população. Tecnologias sociais tendem a surgir muito antes da própria iniciativa do gestor público, que, no melhor dos casos, acaba transformando essas iniciativas num programa ou, melhor, numa política pública, como foi o caso da cisterna de placa e, mais recentemente, dos sistemas descentralizados de reúso de água cinza em nível domiciliar. Esta água está sendo usada para fins de irrigação. São soluções de implementação fácil, a curto prazo, que garantem justamente a acessibilidade nessa dupla conceituação: quantidade e qualidade.

 

O POVO - Estamos numa região de seca. Como as mudanças climáticas já estão agravando a situação do Ceará?

Nicolas - Temos, talvez, a melhor entidade científica meteorológica do País, que é a Funceme (Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos). Temos uma base de dados muito clara. Enquanto, antes, tinha uma discussão que a gente chamava de “negacionismo climático”, hoje, não resta dúvida. A própria Funceme diz que temos que começar a nos adaptar e trabalhar a lógica de um ano de chuva por década, falando na perspectiva de chuva boa, que seja capaz de trazer uma recarga para os nossos reservatórios. A Funceme também tem estudo sobre o avanço da desertificação. As mudanças climáticas estão claras no Ceará. Vinte anos atrás se falava de um núcleo em Irauçuba, mas, hoje, quase 100% do território cearense está em processo de desertificação. É uma tendência. A gente tem que trabalhar na adaptação às mudanças climáticas.

 

O POVO - E utilizar de forma eficiente o que tem.

Nicolas - De forma inteligente, eu diria. Estamos ainda fazendo tantas coisas absurdas do ponto de vista científico. Na matriz energética, nas atividades agropecuárias.

 

Fórum

A 8ª EDIÇÃO DO FÓRUM Mundial da Água ocorreu de 17 a 23 de março, em Brasília. Mais de 100 mil pessoas participaram do evento.

 

Painéis

CEARÁ foi destaque em algumas discussões sobre convivência com a seca e alternativas para resolver o problema hídrico.

 

Água

O DIA MUNDIAL da Água é comemorado em 22 de março, data estabelecida na Rio 92.

 

LUANA SEVERO

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