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Bem acima do mundo

| QUADRINHOS | Obra biográfica conta a história da cadela Laika até o momento que ela orbitou o Planeta Terra, em novembro de 1957. Confira o porquê de o livro ser reconhecido como um destaque literário

00:00 | 25/03/2018

[FOTO2] Space Oditty seria um excelente tema para a história da cadela Laika nos cinemas. Ela passou pelos mesmos problemas do personagem de David Bowie, quando foi para o espaço, flutuou sobre a Terra e morreu depois de certo momento de empolgação, sem que ninguém pudesse ajudá-la. Essa jornada, que ainda não foi apresentada nos cinemas, foi contada na obra biográfica em quadrinhos assinada por Nick Abadzis, que mostra desde o nascimento da cachorra até a sua ida ao espaço em 1957.


O livro foi publicado em 2007 e venceu o prêmio Eisner, o Oscar dos quadrinhos, em 2008. Apesar disso, a biografia só chegou ao Brasil em novembro último pela editora Boitempo, quando se fez 60 anos da morte da cachorra. A história de Laika começa no início da corrida espacial, com a União Soviética buscando um ser vivo que fosse enviado para a órbita terrestre no projeto Sputnik ll. A missão daria aos soviéticos uma vantagem na Guerra Fria contra os Estados Unidos.
 

Abadzis optou em contar a história com toques de aventura, apesar do forte caráter político da obra. O primeiro exemplo disso são as características dos personagens, que possuem personalidades fortes em seus diálogos e feições. Existem adultos, crianças, mulheres, velhos e vários outros tipos de figuras que, nas falas e olhares, deixam claras as suas intenções. Já com a Laika, é notável seu amadurecimento logo no começo, com ela se envolvendo com todos os humanos, até o final, quando percebemos que ela está começando a sentir o que estava por vir.
 

O autor é sábio quando mostra momentos que, aparentemente, não importam para a história política, como os instantes mais íntimos e de felicidade da cachorra. Abadzis também apresenta detalhes importantíssimos para a história, como a ciência, política e guerra contra aos EUA, sem tomar partido por nenhum dos lados. Ele narra da melhor maneira, traçando bons diálogos, que ficam claros na primeira vez que são lidos.
 

Além disso, também é possível simpatizar com alguns poucos humanos da aventura. O dr. Oleg Gazenko (biólogo e cientista-chefe) e Elena Dubrovskaia (contratada para cuidar dos animais que participavam dos testes), por exemplo, são personagens humanos e que, apesar das más decisões, torcemos para que consigam um final feliz. Eles se encontram em um dilema sobe a vida de Laika, algo que faz com que o leitor reflita sobre o que eles estavam fazendo, se é certo ou errado. Provavelmente a frase mais famosa dita por Gazenko seja: “Quanto mais o tempo passa, mais eu lamento. Não aprendemos tantas coisas com a missão que justificassem a morte da cachorra”, presente até hoje nos livros de história.
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Gazenko, inclusive, é o ponto de desespero que cresce aos poucos nos leitores. Ele se sente sufocado com as ações desumanas e com a corrida espacial que não traz satisfações reais. A imprensa mundial, inclusive, deu pouca atenção aos aspectos relacionados à exploração e abuso de animais, focando basicamente nos atos políticos e científicos do projeto. O governo soviético, inclusive, já esperava por isso e sempre deu explicações contraditórias acerca da morte da cadela. Somente tempos depois é que um amplo debate sobre o maltrato de animais se tornou tema em diversas áreas de discussões, envolvendo imprensa, governos e a opinião pública. Laika morreu incinerada quatro horas depois de ser enviada ao espaço.
 

Esse momento histórico, por sinal, é apresentado de forma bastante necessária no livro de Abadzis. O governo russo optou por mentir sobre o destino da personagem, uma vez que já sabiam que ela não iria voltar. De forma crítica, o autor faz um estudo sobre os motivos para terem anunciado que a cachorra voltaria com vida depois de sete dias, algo que foi repercutido positivamente em todo o mundo. Todos acreditaram que Laika teria falecido em paz dias depois da missão. Essa farsa foi sustentada até 2002 quando Oleg Gazenko revelou o que acontecia na União Soviética. Os cachorros passavam por testes de resistência, como ficar imóvel por dias ou girando em simuladores espaciais.
 

Abadzis ilustra essa história com uma paleta de cores que muda a cada capítulo, quando percebemos o destino que se aproxima. O final, por exemplo, se torna sufocante, logo que as cores quentes se apropriam das páginas, criando uma sensação de claustrofobia tanto no leitor como na protagonista.
 

A obra, com desenho, texto e dilemas poderosíssimos, se torna uma viagem emocionante e reflexiva. Um trabalho como esse, com ritmo agitado, diálogos exatos e desenhos inspirados, nos faz entender a essência humana que pensa somente em si, no sucesso, na garantia da imortalidade histórica. Laika não precisava de nada disso, mas entrou para a história como o primeiro ser a visitar o desconhecido do espaço.

 

Inspiração


Nick Abadzis teve a ideia de escrever uma HQ biográfica sobre Laika dep0is de ver a declaração do biólogo russo Oleg Gazenko, que revelou os bastidores das experiências com animais na União Soviética.  

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1957. O POVO acompanhou a jornada de Laika   

 

CORRIDA ESPACIAL


Em busca de moral

 

Para o professor de história Léo Vieira, a corrida espacial e todo o contexto que envolveu Laika provocou uma mudança gigantesca na Guerra Fria. “A União Soviética estava muito para trás. Eles precisavam mostrar que possuíam forças, equipamentos e cientistas preparados para enviar um ser vivo ao espaço, algo que os EUA ainda não tinham feito. Eles precisavam mostrar para o mundo ocidental que podiam continuar na Guerra. Cachorro ou humano ia para o espaço. Eles estavam dispostos a um sacrifício”.
Sobre o destino de Laika, ele destaca que era um contexto de guerra velada e que tudo era segredo. “Obviamente que os métodos não ficaram acessíveis durante todos esses anos. Esse momento ficou representativo para a história mundial. Mudou a Guerra e deu moral para os cientistas russos”, finaliza.   

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SERVIÇO
 

Laika
De Nick Abadzis
Editora Boitempo
208 páginas
Quanto: R$ 41,00   

 

 

GABRIEL AMORA

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