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As cidades não voltam

00:00 | 25/03/2018

 

Vou fazer assim, estou meio com saudade das primeiras Das Antigas. De escrever sobre a Cidade onde fui menino de rua no Porangabussu e eguava até onde os pés nos faziam ir sem qualquer medo.


Não é choramingo, apenas memória de outra Cidade. Ela não precisa voltar. As cidades, ainda bem, não regressam das fotografias. Ou são vestígios ou serão, outras, caiadas.


Ficam guardadas ali, numa película, num pedaço de papel escrito, no estalo do tempo rebentado, no corpo.


A Cidade, parece, somos nós atrás de nós mesmos. Uma busca inquieta por satisfações e afetos misturados com os de casa e com o povo da rua que iremos topar, um dia, inesperado ou caso marcado.


Até com quem nem suportamos e precisamos da convivência, pelo menos, mesureira na ilha.


O nó é que virou sina a morte por encomenda do corpo diferente. A eliminação da palavra ou exclusão da pergunta que poderia incluir.

 

Mas não estou a fim, hoje, de falar sobe a Cidade torturada pelas chacinas em dia de sábado festivo ou em bairros de nomes doces ou levemente azedinhos: Cajazeiras!


Já se viu? Cajá jamais combinará com ser assassinado enquanto o corpo dança.


Cajazeira. Uma árvore que esteve, minha sombra e anjo sem asa, presente na infância que fui e uma tropa de meninos e meninas.


Dossel bonito, copa lá em cima, e na época de dar pra gente se enchia de pequenos frutos amarelos.


Têm mais lembranças. Ir ao Centro, à Rua, e ver o vendedor de frutas com o madeiro amarelo de umbu. Um litro medido na lata de óleo que não foi rebolada no lixo. E o cheiro do cajá pelo meio fio.


A Cidade é assim, feito João Cabral de Melo Neto, atravessada por um cão passando de um lado para o outro da rua ou transpassada pelas árvores que nos marcaram, também, como geografia de batismo. E, provável, nem existam mais perto daquele riacho onde hoje corre um asfalto.


E aí, tudo que nos afeta...


Ontem, por sinal, vi o Cão Sem Plumas dançado pelos corpos vigorosos da inquieta Deborah Colker. De se mexer na cadeira e uma vontade de também de ir pelo Capibaribe.


Talvez a Cidade seja isso mesmo e não vamos percebendo. Porque não resistimos, nos roubam a identidade, nos tangem dos lugares, nos dividem entre bestas e abestados.


Menos se espera, entramos no limbo dos extintos ou dos gravemente ameaçados porque não somos parte do desenvolvimento.

 

Lembro do menino ou da menina que fui. Havia, no Mucuripe, barcos de pescadores e peixada cearense na água grande... Arabaiana, tomate, coentro, cebola, ovo e pirão quente...


Mas hoje são prédios e a luxúria dos estrangeiros pelas meninas. Os daqui também.


Nem sei como resistiu a capela de São Pedro dos Pescadores! É rasto de uma Cidade.

 

GABRIELLE ZARANZA

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