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AnĂ¡lises / Marielle presente

00:00 | 18/03/2018
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Olga Paiva

FILÓSOFA E PESQUISADORA

 

Pesquisadora do campo social, a filósofa Olga Paiva não consegue dissociar a execução da vereadora Marielle Franco das causas às quais defendia: o movimento negro, a causa LGBT, o feminismo e, no geral, a luta por um mundo melhor nas comunidades brasileiras. Olga relembra a mesma narrativa trágica dada em outras épocas difíceis no País, os crimes inexplicáveis calando quem um dia ousou desafiar o Poder. A luta da parlamentar, para a pesquisadora, ficará na história do País como um símbolo de resistência popular e de luta para novas “Marielles” que surgirão no Rio de Janeiro e nos rincões do Brasil com a pauta da liberdade e da melhoria da condição de vida do povo esquecido pelos governos e massacrados pela rotina do medo.

O POVO - Por que o caso de Marielle causou tanta mobilização?

Olga Paiva - É um crime pavoroso, com violência grande. Ela é um símbolo da luta a favor dos direitos humanos, contra injustiça social, pela luta por um País melhor. O fato dela reunir essas características, ser negra, favelada, ter ousado estudar na PUC (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), e ter papel na política em total coerência com os princípios, é uma agressão a quem não suporta ver pessoas que vêm de uma parte menos privilegiada ascender e ter um papel. É muito agressivo para essas pessoas. A repercussão internacional é pelo fato dela defender pessoas injustiçadas do País.

OP - Essa mobilização tem sustentabilidade?

Olga Paiva - Cada vez mais se fortalece a luta por justiça no País. Então, a repercussão que está tendo essa violência bárbara é muito positiva no sentido de sensibilizar as pessoas, de ultrapassar o momento dessa sensibilização que comove e partir para uma atitude, manter a consciência crítica não perder a perspectiva de se ter um País melhor, com melhor qualidade de vida e justiça social. Me parece que essa repercussão do grupo de mulheres negras, feministas, pela morte dela, representa esse fortalecimento da busca desses objetivos, de um ideal. Não há nenhuma dúvida que isso repercute de maneira positiva. A violência de que ela foi vítima foi uma brutalidade que ninguém vai esquecer. Ela morreu na época que fazia 50 anos da morte do Edson Luís, um garoto assassinado no auge da ditadura militar no País. (Edson Luís de Lima Souto foi um estudante secundarista brasileiro assassinado por policiais militares, durante um confronto no restaurante Calabouço, centro do Rio de Janeiro. Seu assassinato marcou o início de um ano turbulento de intensas mobilizações contra o regime militar que endureceu até decretar o chamado AI-5.). É uma estranha coincidência, e esses fatos não podem ser esquecidos. Ela vai fazer parte dessa história.

 

POR WAGNER MENDES

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Eduardo Paz

DEFENSOR PÚBLICO-GERAL FEDERAL

 

Falando em nome da Defensoria Pública da União, Carlos Eduardo Paz aponta diversos fatores para que o crime bárbaro não seja esquecido pela sociedade. Além do trabalho da imprensa, de elucidar as informações, as instituições de investigação precisam funcionar de fato e estar atentas às novas denúncias para que episódios como o da vereadora Marielle Franco não se repitam. Paz lembra que e crimes contra quem milita pelos direitos humanos naturalmente geram muita comoção popular pelas causas que as vítimas defendiam.

O POVO - Por que o caso de Marielle causou tanta mobilização?

Eduardo Paz - (Sobre a grande mobilização) eu entendo que (se deu) pelas circunstâncias da morte em si, com feições de execução e o fato de estar inserido num contexto não muito claro, não muito seguro, que é o contexto político com intervenção. Esses elementos são suficientes para dar ao caso ainda mais repercussão. E o fato de que se trata, assim como tantos outros casos, de mais um defensor dos direitos humanos que tem a vida ceifada no exercício de defesa de causas como as que a vereadora carioca tinha. Esse é o olhar da defensoria pública. É natural que quando se tenha algum tipo de ativismo na área de direitos humanos, situações como a da execução da vereadora chame atenção para as bandeiras que ela defendia. Toda história de vida de ativistas de direitos humanos, como de outros que tiveram vida ceifada quando são mortos, acabam chamando a atenção do País e do mundo para que as bandeiras não fiquem pelo caminho. Para que a luta seja constante.

OP - Essa mobilização tem sustentabilidade?

Eduardo Paz - Eu acho que tem que haver compromisso de sociedade para não deixar o fat0 cair no esquecimento. Primeiro, que a imprensa continue cobrindo essa situação. Segundo, penso que os grupos de ativismo de direitos humanos vão ganhar mais força e mais voz com cada pessoa que é calada. As instituições precisam continuar funcionando. O procedimento de federalização desse delito também pode ser feito, que é algo previsto na legislação quando você pode deslocar a competência do local do crime. Vamos avaliar se isso vai acontecer. No final das contas todas as instituições que estão com trabalho no Rio de Janeiro - e a Defensoria Pública da União tem um grupo no Rio de Janeiro -, vão ficar atentas para receber denúncias. Todas essas ações vão poder garantir a necessária atenção da proteção de direitos humanos em face do assassinato também para se evitar casos outros não só no Rio como em outros locais, como aconteceu no Pará, recentemente, com um ativista de terras. Todo esse contexto é muito cruel e não pode ser esquecido.

 

 

POR WAGNER MENDES

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Cláudia Leitão

PESQUISADORA, PROFESSORA, EX-TITULAR DA SECULT E DIRETORA DO OBSERVATÓRIO DE FORTALEZA

 

Diretora do Observatório de Fortaleza e ex-titular da Secretaria da Cultura do Estado (Secult), Cláudia Leitão fala sobre Marielle Franco com os verbos conjugados no presente. Para a pesquisadora, a morte da vereadora carioca do Psol reaviva uma memória de coletividade que deve marcar um novo momento no País.

O POVO - Por que o caso de Marielle causou tanta mobilização?

Cláudia Leitão - Marielle é um animal simbólico. Em termos simbólicos, há muitas Marielle dentro dela. Ela se formou na PUC-RJ, com mestrado em gestão pública. Mãe solteira aos 17 anos. Ativista. Acadêmica. Quantos papéis essa mulher ocupa? Se nós tivéssemos que escolher uma representação da mulher brasileira hoje, ninguém melhor que ela. Ela é homoafetiva, tinha uma companheira, tinha uma filha, era estudiosa, estava nas ruas e no parlamento. É normal que a morte dela represente a morte simbólica e que ela, em si, signifique esses desejos das meninas mães solteiras, das meninas homossexuais, das meninas políticas, das meninas negras. Qualquer ser humano que morre é uma perda, claro. Mas o assassinato dela faz com que a gente veja o Brasil de joelhos agora, abatido. Esse movimento no qual ela caiu, no entanto, levanta mulheres que estão incorporando as suas causas. A morte da Marielle faz a vida.

OP - Essa mobilização tem sustentabilidade?

Cláudia Leitão - Nós vivemos numa sociedade global. Em um minuto, o nome dela se torna conhecido no mundo inteiro, entra para os mais citados do Twitter. Rapidamente se cria uma onda. Ao mesmo tempo, também vivemos um tempo com a grande marca do efêmero. Esse movimento que a Marielle está ativando, essa potência dela, vai no caminho contrário do esquecimento. Até antes de ontem, apenas o Rio conhecia o nome da Marielle. Hoje ela se tornou a “vereadora do Brasil”. As pessoas se reconhecem nessa mulher. Ela ganhou um colégio eleitoral imenso. Não consigo nem dimensionar isso. Estamos no começo de alguma coisa que ainda não sabemos o que é. É um ano eleitoral, e não tem como nos escondermos novamente atrás da Copa do Mundo. Temos um País em transe, desorientado. Ao mesmo tempo, penso que haverá um contramovimento, e a Marielle vai se tornar um ícone desses novos anos de chumbo do Brasil. Ela vai sobrevoar esse tempo como uma figura que, sem dúvida, vai atormentar e incomodar. Vai ser muito mais inoportuna agora do que quando era viva. E ela está mais viva do que nunca. Dizem que os mortos governam nossas sombras. Quantas histórias temos de mortes que trouxeram impactos para os que estão vivos? Penso que o País vai entrar agora num movimento de ativismo cada vez maior. E a pergunta que continuará a ser feita é: quem matou Marielle? Apesar disso, tenho a sensação de que é preciso ter esperança e agir politicamente, acima de tudo. Ela era de uma nova geração de políticos. Seu nome cresce depois de sua morte, como uma cachoeira de águas represadas.

 

POR HENRIQUE ARAÚJO

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Mário Mamede

SUBSECRETÁRIO DE DIREITOS HUMANOS DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA EM 2005 E 2006

 

Ex-subsecretário de Direitos Humanos da Presidência, Mário Mamede construiu carreira de décadas na militância de movimentos sociais e de Direitos Humanos. “Nesse tempo, vi muitas pessoas serem assassinadas”, diz. “E cada pessoa é uma dor”. Com a morte de Marielle, Mamede diz ver uma fagulha que deve acender ampla mobilização popular pelo fim do ataque a setores oprimidos. “É hora de dizer basta e ir para a frente”.

O POVO - Por que o caso de Marielle causou tanta mobilização?

Mário Mamede - O momento político e social atual tem se colocado de maneira muito hostil contra os movimentos organizados, às reivindicações de qualquer categoria. É um momento muito difícil, pelo golpe que começou esse processo e que ainda não se concluiu. Há total desrespeito aos direitos dos trabalhadores, aos direitos adquiridos de minorias, mulheres, moradores de periferias. E é também um momento em que o governo começa a agir com muita truculência contra quem parte para qualquer reivindicação. Isso se reproduz na sociedade de várias formas, a gente vê isso nas redes sociais. Não há diálogo, troca de informação, mas apenas o desejo de aniquilação do outro. Dentro desses movimentos, é notório que o mais atacado é o de Direitos Humanos. Há uma oposição odiosa a isso, contra esse discurso que é dos mais revolucionários, com contundência contra o estado das coisas. E quando é um estado de exceção, é pior. É por isso que causa tanta comoção, a sociedade está perplexa com o que está acontecendo. Vemos nossas instituições indo ladeira abaixo, e as pessoas que defendem os Direitos assim, sob ameaças, sofrendo todo tipo de hostilidade de gente que pode até matar. Quantos assassinatos de militantes dos Direitos Humanos nós vimos só nos últimos anos? Em vários anos, eu convivi com várias pessoas que foram assassinadas. E cada pessoa é uma dor, porque são pessoas boas, que se doam pelos mais necessitados, e são eliminadas simplesmente, de forma traiçoeira, vil. É como ela mesma disse: Quantos mais vão precisar morrer?

OP - Essa movimentação tem sustentabilidade?

Mário Mamede - Nas relações sociais, na política, nos aspectos que permeiam uma profissão, existem coisas que são muito simbólicas, e a morte dela tem essa dimensão simbólica. O assassinato criou um mito que personifica a luta pelos Direitos Humanos, a luta pelas pessoas excluídas, pela dignidade das pessoas pobres, das mulheres, da diversidade sexual, do direito das pessoas com deficiência. Como estávamos acuados até agora, esse episódio é como uma fagulha que pode desencadear uma ampla mobilização social. Não só em torno dos Direitos Humanos, mas também ao estado democrático. Estamos hoje contra a parede, em estado quase anômico. Talvez agora a sociedade diga um basta e comece um processo de luta e participação social, protestos, atos públicos, que possam ser tocadas e adquiram uma dimensão para contestar o golpe.

 

POR CARLOS MAZZA

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