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Dom Leonardo Steiner. A igreja debate sobre segurança

00:00 | 11/02/2018

Secretário-geral da CNBB explica por que a superação da violência é o foco da Campanha da Fraternidade, que tem início na Quarta-Feira de Cinzas A superação da violência é o tema que norteará a Campanha da Fraternidade 2018. Assim como outros estados do Brasil, o Ceará — que registrou seu maior número de homicídios da história em 2017, com 5.134 assassinatos — sofre com o aumento de poder das organizações criminosas. Secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e bispo-auxiliar de Brasília, dom Leonardo Steiner fala sobre a busca de caminhos para uma cultura de reconciliação e justiça. Na entrevista, por e-mail, ele frisa a importância do compromisso das comunidades cristãs e pastorais em ações que levem à superação desse problema.  

O POVO - Qual o objetivo da Campanha da Fraternidade 2018 na abordagem sobre segurança? 

Dom Leonardo Steiner - A abordagem da Campanha da Fraternidade deste ano diz respeito à superação da violência e, por isso, trata de segurança. Superar a violência é o foco principal da reflexão e oração para o tempo da Quaresma. O objetivo principal da Campanha é, portanto, buscar os caminhos para construir a fraternidade por meio da promoção de uma cultura da paz, da reconciliação e da justiça. Esse objetivo será alcançado mediante a participação de todos. Não se trata apenas de um movimento pontual, mas da renovação de um compromisso permanente na vida de todas as pessoas e comunidades. Também estão entre os objetivos da Campanha da Fraternidade deste ano o incentivo às ações concretas que expressem a conversão e a reconciliação; a análise das múltiplas formas de violência, especialmente as provocadas pelo tráfico de drogas considerando suas causas e consequências na sociedade brasileira; e, particularmente, estimular as comunidades cristãs, pastorais, associações religiosas e movimentos eclesiais ao compromisso com ações que levem à superação da violência.

 

OP - O que a CNBB entende como superação da violência?  

Dom Leonardo - A CNBB entende que há, no nascer, na origem de tudo, uma relação de amor e de cuidado por parte de Deus. Na origem de tudo, a bondade de Deus dá sentido a tudo que foi criado, especialmente o ser humano, o sentido da pessoa humana. Portanto, no princípio, no eclodir, no dar-se, no manifestar-se, não existe divisão, desamor, violência, mas acolhimento, reverência, pertença fraterna. A violência vem depois. A violência nasce do esquecimento de nossas origens, do esquecimento da vocação que todo ser humano tem, que é experimentar o amor. Entendemos que o esquecimento do amor e da ética gestam e despertam a violência. Os descaminhos, no entanto, podem ser superados com a volta às origens, com a reconciliação e a misericórdia. Papa Francisco tem insistido nisso: “A misericórdia renova e redime, porque é o encontro de dois corações: o de Deus que vem ao encontro do coração do homem. Este inflama-se e o primeiro cura-o: o coração de pedra fica transformado em coração de carne, capaz de amar, não obstante o seu pecado. Nisto se nota que somos verdadeiramente uma ‘nova criação’: sou amado, logo existo; estou perdoado, por conseguinte renasço para uma vida nova; fui ‘misericordiado’ e, consequentemente, feito instrumento da misericórdia”. Não podemos esquecer que a participação da comunidade e das famílias são fundamentais para a superação da violência. 

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OP - Em um contexto onde o Brasil vive o recrudescimento da violência e o acirramento dos conflitos entre facções, qual a importância de trazer a discussão sobre a violência para dentro da Igreja? 

Dom Leonardo - Sofremos e estamos estarrecidos com a violência. Percebemos que a violência perpassa quase todos os âmbitos da nossa sociedade. A ética que norteava as relações sociais está esquecida. Hoje, temos corrupção, morte e agressividade nos gestos e nas palavras das pessoas. Diante desse quadro, aparece sempre a tentação de crer que somos incapazes de vivermos como irmãos. É preciso reverter esse movimento e superar essa tentação. Não somos adversários, mas irmãos. A experiência da fé nos dá a certeza de que podemos superar a violência por meio de um compromisso renovado, cada dia, com a construção de uma cultura diferente desta que predomina em nossos dias. Uma cultura de não-violência, de tolerância, de reconciliação. O ambiente eclesial é o lugar onde nos alimentamos dos sacramentos e da Palavra de Deus. Nele, somos amparados e consolados pela certeza de que a graça de Deus não nos abandona e que nossa contribuição pessoal, familiar, comunitária e social é muito importante para superar todas as formas de violência. 

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OP - Qual o papel da Igreja no enfrentamento à violência potencializada pelas facções? 

Dom Leonardo - Para dinamizar a vivência da Campanha da Fraternidade deste ano, a CNBB preparou um estudo especial que contou com a colaboração de vários observadores, pesquisadores e especialistas da realidade da violência no Brasil. Nestes estudos, estão presentes algumas constatações em relação ao sistema carcerário e o aumento da violência nos ambientes prisionais promovido por disputas de facções criminosas. O Brasil tem uma das maiores populações carcerárias do mundo. São mais de 650 mil presos, vivendo em condições degradantes. Em vez de praticar os ideais de recuperação e reintegração das pessoas, as prisões se transformam em um depósito de supostos “maus elementos” a serem reprimidos e, se possível, esquecidos pela sociedade. De dentro das prisões, presos gerenciam organizações criminosas que controlam parte da criminalidade violenta dentro e fora das prisões. A CNBB já apresentou a situação dos encarcerados como tema da Campanha da Fraternidade e mantém sua solicitude para com essa realidade de tantos irmãos por meio do cuidado constante da Pastoral Carcerária. Todos somos provocados com a Campanha a aprofundar e a buscar caminhos para a superação da violência dentro dos presídios.   

 

OP - Como é o diálogo da Igreja com as autoridades na perspectiva da segurança pública? Existe abertura por parte do Governo?  

Dom Leonardo - A CNBB tem sido perseverante na busca de construir pontes de diálogo com Executivo, Legislativo e Judiciário em relação aos assuntos mais importantes que dizem respeito especialmente à população mais pobre do Brasil. Participamos dos encontros para os quais somos convidados e temos levado questões importantes, especialmente no que diz respeito à violência no campo, contra os povos indígenas, quilombolas e grupos desassistidos. Além dessas questões, procuramos estabelecer um diálogo respeitoso e com o propósito de defender os mais pobres e abandonados do Brasil, cumprindo o mandato de Cristo, no Evangelho. Em relação aos encaminhamentos das questões apresentadas, a própria realidade dos fatos nos faz ver que precisamos ainda de muito mais interesse e ações eficazes na superação da violência e, consequentemente, de maior segurança para todos. 

 

Quaresma 

A CAMPANHA da Fraternidade é lançada, todos os anos, na Quarta-feira de Cinzas, e norteia a preparação dos católicos para a Páscoa. 

Tema

ESTE ANO a campanha tem o tema “Fraternidade e superação da violência”. O lema é “Em Cristo somos todos irmãos (Mt 23,8)”.  

 

 

 

 

ANA RUTE RAMIRES