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Vamos beber o Cocó!

00:00 | 28/01/2018

Se alguém nasceu perto de um rio ou de alguma água grande, foi criança caçando olho d´água, certeza as memórias serão cheias de peixes, remos, almas afogadas, bichos voadores, frieiras, namoricos e cangapés.

Quem não teve essa ventura, nem imagina que Fortaleza também nadava na água doce e menos poluída do que hoje. Milhões de vezes.

Foram sufocando o Cocó, o Ceará, o Maranguapinho, o Jacarecanga, o Pajeú, o Aguanambi, o Maceió, o Pacoti, a Rosinha, a Parangaba, a Maraponga, o Papicu, a Messejana... E inventaram as estações de tratamento “porque tudo tem impacto”. Coisa mais burra de se repetir.

Pois bem. Precisaram de seis anos de seca extrema para descobrir que existe um rio entre três aldeias. E que um dia a água dele foi de beber. O coitado do Cocó, 100% poluído, voltará a ter chance de respiro?

Tenho lá minhas desconfianças de que a barragem feita em um de seus trechos, no Palmeiras-Ancuri, foi primeiramente para evitar as enchentes nos bairros miseráveis. Paridos na ocupação das beiradas ribeirinhas ou das remoções de pobres da Aldeota pra lá.
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O desconfiante é que o primeiro impulso para barrar as águas não foi motivado por essa nobreza de intenção com quem vive no beiço do Cocó. Não há histórico tão despido de interesse sem que alguns ganhem, exageradamente, mais do que outros.

Nunca fui à Colômbia, um dia irei a Medellín. Olhar se é verdade, mesmo, o que se fala da redescoberta do rio de lá e sua volta do exílio à Cidade.

E olhe, a ressurreição do Medellín influenciou até na derrota dos milhares de homicídios dali. Matança parecida com a de Fortaleza, mergulhada na execução e corriqueira na “pegada” da morte.

O Medellín voltou a ser signo da vida. Li e ouvi, além de ter entrevistado o ex-prefeito Aníbal Gavíria. O rio se reintegrou à Cidade, reconectou pessoas e voltou a ter cidadania de um rio.
É que os rios, tal qual minha mãe e quem eu nem conheço, têm direito de viver com dignidade. Dias plenos, sem constrangimentos. Pássaros livres, cavalos marinhos, sapos, pescadores, lavadeiras, navegantes...

Recavaram o leito do Medellín, reoxigenaram as beiras, sumiram com o lixo, replantaram as margens...

Há promessa de revitalização do Cocó no espaço do Parque. É pouco. Há um concurso de ideais antes do plano de manejo... Mas prefiro acreditar no Estado, menos ruim que o Município no trato com os rios.

Fortaleza tem mais águas além do Cocó e imagino a reintegração com a Cidade pelo Maranguapinho, pelo Pajeú...

Não é que Gavíria seja santo de fora e os daqui não obrem também portentos. É que lá acontece. Se vamos beber o Cocó na favela, na Aldeota, no Pecém, então que a ética pelo rio nos refaça.

É digno querer ser apenas um rio vivo.

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