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Os prejuízos de um "cinema branco"

| AUDIOVISUAL | Questão racial pautou debates na 21ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, que chegou ao fim ontem, 27

00:00 | 28/01/2018

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O cinema brasileiro é branco — e homem. Dados inéditos sobre diversidade de gênero e raça divulgados esta semana pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) comprovam que nenhum filme nacional que chegou às salas comerciais foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra em 2016 (ano-base do estudo). Dos 142 longas-metragem lançados pelo mercado audiovisual naquele ano, 75,4% tem direção de um homem branco— dado que, segundo os realizadores ouvidos pelo O POVO, homogeneízam nosso jeito de fazer cinema. Justamente na busca por mudar esse cenário, a 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que chegou ao fim ontem, 27, deu protagonismo ao debate sobre a presença de mulheres negras atrás das câmeras.


“Ao se manter branco, o cinema brasileiro acaba perdendo uma questão de perspectiva e um olhar fresco para as coisas. Falta um olhar novo, que tenha outro histórico, outra subjetividade”, aponta a diretora Ana Julia Travia, selecionada com o filme Outras. Em entrevista ao O POVO, ela destaca que essa falta de representatividade negra prejudica toda a cadeia do cinema no País. “É uma pobreza enorme que se reflete em falta de formação de público. Quando tem iniciativas pretas, a gente tem muito interesse em ir para a periferia, em fazer formação de público nesses lugares”, avalia.


Autora do documentário Pele de Monstro, a cineasta Bárbara Maria aponta que, mesmo nos ambientes formativos e de pesquisa, as produções e os debates continuam presos aos olhar do homem branco. “Eu era a única menina negra na minha turma (de graduação em Cinema) e, por não ter alguém que me ouvisse, eu não tinha muita chance de poder falar o que eu queria”, reclama Bárbara.

[SAIBAMAIS]
“Não serão os diretores e produtores brancos filmando negros que vão mudar a imagem dos negros no cinema. Tem de ter edital para proponentes negros. Também há poucos filmes dirigidos por negros, porque eles não estão tendo acesso aos incentivos”, reclama Cléber Eduardo, um dos curadores da Mostra de Tiradentes. Para o pesquisador, só assim o cinema brasileiro ganhará, de fato, novos olhares. “A maioria dos filmes coloca os negros em lugar em que já nos habituamos a vê-los. Sofrendo como escravos, apanhando na favela. Precisa de incentivo. Mas está ainda tudo na mão dos homens brancos”, apontou.


Homenageado da 21ª edição do evento, o carioca Babu Santana, que tem no currículo filmes como Tim Maia e Estômago, destaca a urgência de pensar a presença de artistas negros no cinema para além de produções que põem a negritude em primeiro plano. “Como cidadão negro, sinto falta de filmes que colocam o negro como personagem, sem precisar falar da cor da pele ou da condição social. Você vê aquele romance tão lindo como o do Marcos e da Violeta no Café com Canela. Não fiquei pensando que era um romance lindo de dois negros. Eram dois seres humanos”, aponta, em referência ao filme que ele acaba de lançar e que foi dirigido por Glenda Nicácio e Ary Rosa. “Nós somos seres humanos. Nossas histórias são tão interessantes como qualquer outra. Nós brigamos, amamos, nos emocionamos”, reforça.


O POVO entrou em contato com a Ancine para entender quais projetos estão sendo pensados pela agência para reverter esses números. Até o fechamento desta edição, porém, não houve respostas. Entre as iniciativas já divulgadas, há a Comissão de Gênero, Raça e Diversidade da Ancine, que foi criada em novembro passado. Além disso, a ausência de diretoras negras será debatida dentro do Ministério da Cultura em reunião do Conselho Superior de Cinema, marcada para fevereiro próximo.

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