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Celso Rocha de Barros: "Vão condenar De qualquer jeito"

| FUTURO | Sociólogo analisa o cenário eleitoral pós-julgamento do ex-presidente Lula. Com a provável condenação, nomes da esquerda devem ganhar força, arrisca o especialista

00:00 | 21/01/2018

O julgamento do recurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região certamente trará repercussões para além das ruas de Porto Alegre. A tensão entre críticos e defensores do petista deve se estender também para as urnas. Para Celso Rocha de Barros, doutor em sociologia pela Universidade de Oxford, o destino de Lula já está traçado e não se distancia da condenação. Isso, segundo ele, traz mudanças e equilíbrio entre os candidatos dispostos a ocupar a cadeira de presidente da República a partir de 2019. O cearense Ciro Gomes (PDT) pode se beneficiar com a saída de Lula da disputa, desde que controle sua língua, arrisca o especialista. Confira a entrevista. O POVO: O julgamento do ex-presidente Lula vai acontecer em meio a muita tensão. O medo dos desembargadores pelas as manifestações que se organizam em Porto Alegre, contra e a favor de Lula, dão o tom. Esse clima de tensão pode afetar o julgamento até que ponto? Celso Rocha: Em nada. Acho que eles já devem ter decidido isso. Vão condenar de qualquer jeito. Isso já está decidido com quase toda certeza pela condenação. Esse negócio da radicalização eu acho que é, em boa parte, teatro. O pessoal da esquerda é para dar uma demonstração de indignação, o que é legítimo se você mantiver dentro dos limites da legalidade. O caso do MBL é para fazer alguma coisa, finalmente, desde que eles silenciaram diante das denúncias de corrupção contra o Temer.

O POVO: Mas o julgamento, em si, já vai ter um efeito político. Na sua avaliação, qual será?

Celso Rocha de Barros: Basicamente, o cara que está liderando a pesquisa com o dobro da intenção de voto vai sair da corrida presidencial. 

O Lula deve continuar a candidatura até porque é bom para o PT se associar a ele. Para o PT é bom ser visto ao lado do Lula, para eleger deputado, governador… Mas, se ele estiver com a candidatura impugnada, os aliados vão começar a ir embora. Ninguém vai querer morrer abraçado a ele. A partir daí, a gente vai ver movimentação de outras candidaturas de esquerda, como Ciro Gomes, Marina Silva, Manoela D’Ávila, tentando pegar os eleitores do Lula. O pessoal da esquerda entra no jogo. Até agora eles estão no banco de reservas. 

O POVO: A esquerda tende a ficar ainda mais pulverizada? 

Celso Rocha: É um risco de todos eles se dividirem. Os votos do Lula podem ser divididos entre eles e ninguém subir no trono, mas isso também é possível na direita. Eles também estão bem divididos. Mesmo antes do julgamento do Lula, eles já estão divididos. A gente vai ter bastante fragmentação. 

O POVO: O senhor só consegue enxergar uma única possibilidade para o julgamento: a condenação do Lula?

Celso Rocha: Não enxergo outra. Seria uma surpresa absoluta se o Lula fosse absolvido. A tentativa de ele ser ouvido, o que o pessoal está falando de bastidores, tudo deu errado. Ao que tudo indica ele vai ser condenado. 

O POVO: O presidente do TRF4, Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, tinha se posicionado sobre a condenação de Lula em primeira instância. Ele disse que a sentença foi irretocável. Isso pode mostrar a politização do Judiciário nesse caso?

Celso Rocha: Há argumentos jurídicos para processar o Lula. Não é um negócio inventado. Mas a política vai para onde houver poder. Se o poder está no Judiciário, como está acontecendo, a política vai para lá. Não tem jeito. Está todo mundo tentando encontrar um jurista famoso que justifique seu ponto de vista. O PT reuniu vários juristas de prestígio para tentar defender o Lula. A direita arranjou outros juristas, também de prestígio, para dizer que o Lula é culpado. Isso é mais ou menos inevitável. De fato há uma certa judicialização da política mesmo, mas isso é inevitável no contexto da Lava Jato. 

O POVO: Voltando ao julgamento, quem ganha com a possível condenação de Lula e a saída dele do cenário eleitoral? 

Celso Rocha: Ciro é beneficiado. Ele seria o repositório natural de parte razoável dos votos do Lula. Ele vem se posicionando bem à esquerda nos últimos tempos, certamente para tentar atrair esses eleitores. Esse posicionamento à esquerda dele. várias vezes, ultrapassou o que seria a posição normal dentro de sua trajetória. A Marina Silva deve crescer também. Esses dois nomes em especial tendem a receber os votos do Lula.

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O POVO: Na semana passada, o senhor escreveu artigo na Folha de São Paulo perguntando se o Ciro Gomes era maluco. Como tem visto a atuação dele na pré-candidatura? 

Celso Rocha: Acho que ele tem chance, só não tem se o Lula for candidato. Ele é um cara muito inteligente, que tem visão estratégica, mas ele tem um problema evidente que se expressa nas vezes que fala em entrevistas. Isso é muito ruim. Em uma eleição equilibrada, se você fala uma besteira que perde três pontos percentuais, pode ser a diferença de ir ou não para o segundo turno. Não pode se arriscar por uma declaração infeliz. Ele tem esse lado que parece meio maluco, mas foi considerado um bom governador do Ceará, um bom ministro da Fazenda e um bom ministro do Lula. Quando ele ocupou cargos administrativos não se comportou como maluco. Agora, ele precisa de alianças no sudeste, mas para fazer isso você tem que fazer alguns gestos de moderação, de conversar mais com o centro. Acho que ele é capaz de fazer isso. Talvez, ele esteja esperando a condenação sair. 

O POVO: O senhor está falando sobre repercussões políticas pós-julgamento. Naturalmente, Lula estar na disputa ou não muda tudo. Esse julgamento é político?

Celso Rocha: Um negócio desse tamanho sempre vai ter alguma dimensão política, mas o julgamento não é uma fraude. Não é um algo que eles fizeram só para condenar o Lula, isso eu não acho, mas tem uma dimensão política que parece clara. Ele correu bem mais rápido que outros julgamento da Lava Jato. Ninguém acha que esses caras que vão julgar o Lula não sabem que ele é o favorito nas pesquisas. Eles leem jornal. Agora uma coisa é verdade: a esquerda tem sido muito menos capaz de resistir à Lava Jato que a direita. 

 

Eles vão poder dizer que as duas coisas relevantes que aconteceram na Lava Jato foi o impeachment da Dilma e o fim da candidatura do Lula. Embora a Justiça esteja indo atrás de todo mundo, os dois lados não tiveram a mesma força para resistir e daí o efeito político foi enviesado mesmo. 

 

Do jornal e da repartição 

Articulista da Folha de S. Paulo, onde escreve nas edições de segunda-feira, Celso Rocha de Barros é funcionário do Banco Central onde, concursado, dá expediente como analista  

 

RôMULO COSTA