VERSÃO IMPRESSA

Leo Gonçalves. Navegante de si mesmo

00:00 | 24/12/2017

 
Não é da noite para o dia, nem uma data no calendário, ou uma virada de ano. Os começos estão dentro de cada pessoa: nascem de uma paixão ou de um sonho que se guardaram a salvo dos danos do tempo, de uma fome de felicidade, de uma coragem ainda desconhecida. Assim revela o ex-publicitário e chef Leo Gonçalves, 40 anos, ao contar sobre seu mais recente começo: o restaurante O Mar Menino.


[SAIBAMAIS]Navegante de si mesmo, Leo saiu de Fortaleza “com 23, 24 anos” para tentar a carreira de publicitário em São Paulo. Depois de ultrapassar as tormentas naturais de toda navegação, esteve em um porto seguro por 13 anos. “Trabalhava na DPZ, uma das maiores agências (de publicidade) do País, salário bom, prêmios, vida bem organizada”, aportou. Até que, em 2013, ele demarca, foi demitido em meio a “uma briga de ‘cachorro grande’”. Estava de volta ao barco, com um oceano à frente.


E o começo de Leo foi fazer o caminho de volta a uma paixão e a um sonho que havia guardado. Entre 2006 e 2013, ele lembra, viveu uma “vida meio dupla”: era publicitário e queria ser cozinheiro.

Então, começou a cozinhar para amigos, em São Paulo, tentando receitas copiadas de programas de TV. Tocou o projeto “Trivial & Nem Tanto”, que incluía um blog homônimo e jantares sob encomenda, mas ainda precisava do emprego com carteira assinada: “Tinha a pensão do meu filho...”. Com a demissão, Leo se aventurou, inteiramente, no que imaginara.

[QUOTE1]
Autodidata, comprou livros e equipamentos sofisticados. Aos 36 anos, aprendeu a fazer um risoto de ostras que lhe serviu como bússola. Deu-lhe um norte. “Provei um risoto ‘diferentão’. E foi quando começou o estalo de, realmente, querer cozinhar. A partir do risoto, eu fui começar a pesquisar como é que fazia um filé, como é que fazia isso e aquilo”, assinala. Era a sua fome de felicidade.

“Servir sempre foi um prazer. A cozinha é a arte de servir, é doação.

Tem gente que diz: cozinhar é um jeito de amar o próximo”, completa.

 

 [VIDEO1]

A nova rota o levou de um bistrô, na garagem de casa, a restaurantes no Rio de Janeiro, em Belém, São Paulo e Lima (Peru).

De maio de 2013 ao início de 2014, enquanto durou a reserva financeira, Leo Gonçalves se lançou no projeto “Quero ser cozinheiro”. A ideia unia a fome pela técnica com a vontade de ser dono do barco. E lhe exigiu passar “um ano trabalhando para os outros”: de graça e, tantas vezes, cortando cebola e alho, servindo o couvert ou embalando coisas.


“Mas foi entender que isso era necessário para meu objetivo. Quando botei na cabeça que ia fazer isso, eu disse: aguenta, que foi tu que pediu. Vou bancar e vou até o fim”, equilibrava. Marinheiro de primeiras viagens, Leo entendia que os lugares por onde passava eram de aprendizado. E aprender lhe custou todo o dinheiro e todo o orgulho.


“Não tinha centavos”, extrai, depois de um ano do “Quero ser cozinheiro”. “Foi quando voltei do Peru e me vi, completamente, perdido”, recomeça.


Em 2014, Leo Gonçalves morou “de favor” na casa de amigos, em São Paulo, e ganhava o do dia seguinte vendendo comidas de rua (sanduíches, principalmente). Os amigos também lhe cediam espaços em bares e restaurantes, para que ganhasse um extra com eventos.

“Era, realmente, ganhar o de comer amanhã, o de mandar pro meu filho, o de comprar mais coisa pra poder cozinhar de novo e vender de novo”, circula. “Foi meio roleta-russa. Foi uma época de bastante sofrimento, incertezas, insegurança, depressões. E tinha que levantar, não pode parar, tinha que fazer compra e cozinhar”, emenda. Em 2015, os ventos mudaram.


Leo conheceu a arquiteta cearense Dora Coelho, “a coisa melhorou um pouquinho no sanduíche, e consegui dividir um apartamento com ela”. Meses depois, recebeu uma proposta do proprietário do antigo restaurante Sah, Marcos Gil: montar o próprio negócio naquele ponto da avenida Barão de Studart. O filho, parte da família e a Praia de Iracema o trouxeram de volta a Fortaleza. “Minha vida foi quase toda aqui... E achava que a Cidade cabia eu voltar com um pouco mais de conhecimento, para aplicar o que aprendi das técnicas e das visões que tive com esses chefs com a nossa comida. Aprendi que o local é muito mais sincero e é muito mais fácil trabalhar com uma coisa que você conhece”, reencontra-se.


O compromisso de usar ingredientes locais e “tentar fazer uma nova cozinha cearense” se firma no horizonte d´O Mar Menino, inaugurado há dois anos. O restaurante é o seu começo de todos os dias: “de engolir o pão que o diabo amassou” e de estar “fazendo o que, realmente, acredita”. Coragem é o leme. “Começar é se jogar, sempre. Se jogar pra fora da mãe é começar, daí, já é arriscado”, sublinha o chef.


Neste percurso, unem Leo Gonçalves e Dora Coelho (que projetou o lugar), O Mar Menino abriga amigos, nas artes dos quadros e das louças, e infância, nos livros e objetos pessoais. “É a poesia das nossas vidas”, abarca Leo. Nesta verdade que o ex-publicitário recria nos amanheceres, o restaurante é o barco. E o mar, por onde navega sem fim, sempre foi ele mesmo. (Ana Mary C. Cavalcante) 

 

[VIDEO2]

 

 

TAGS